Exponho aqui um comentário motivado apenas por ter lido em apreciações de alguns dos nossos habituais críticos de cinema que se trata de uma “original forma” de apresentar a “luta de classes”.
Bem, para haver luta de classes é preciso que haja classes e que elas se manifestem em luta. Julgo que, no filme, não é isso que aparece. Para além da envolvência do caos social e da desorganização urbana, aparecem indivíduos agindo, e até lutando, por sobreviver. Junto com a sua expressão pessoal, o que aparece como algo colectivo é a família. Duas famílias pobres e uma rica.
Sobretudo os elementos da família pobre mais numerosa, se usarmos um velho conceito marxista, representam o lupen-proletariado, ontem como hoje, pessoas socialmente marginalizadas, a maior parte do tempo desempregados, e que vivem de biscates e de pequenos estratagemas mais ou menos fraudulentos. A família rica representa a classe média alta, julgo que não na forma de um capitalista patronal, mas de um alto quadro técnico e executivo…
Nem metaforicamente se pode dizer que representem as classes a que, de modo geral, se atribui o confronto, quando se fala em “luta de classes” – de um lado o proletariado, a classe trabalhadora, o Trabalho, e do outro, os patrões capitalistas e seus agentes, o Capital.
Sim, ao longo do filme está bem presente a polarização das classes, na realidade da pobreza e da degradação crescente, de um lado, e da riqueza, do seu uso e até ostentação, do outro. Mas isso, só por si, não quer dizer luta de classes.
Ainda mais quando, quem mais trabalhou este conceito e o elevou a centro da sociedade actual – o domínio do Capital – faz dessa luta, em permanência económica, política e social, por vezes mesmo literalmente física, a luta de uma classe dominante, que usa todos os meios para manter o seu domínio e poder, contra a outra classe, cada vez mais numerosa, a qual pretende derrotar esse poder e substituí-lo pelo seu. Tendo como horizonte, ainda que longínquo, a extinção das classes.
Não é esta luta que, no filme, é ilustrada. Nem de forma real, nem simbólica. No filme, quando a luta é pacífica, evolui como uma comédia de enganos das famílias pobres sobre a família rica, aliás só fantasiosamente tão ingénua. Quando a luta é fisicamente violenta dá-se a maior parte do tempo entre as duas famílias pobres, lutando pelo poder de parasitarem (porque o seu assalariamento tem uma base fraudulenta) a rica.
E, mesmo no desenlace da violência, o enclausurado pobre, depois de despachar o filho da outra família pobre (que o buscava com a mesma vontade), dirige-se na intenção de matar o seu rival pobre, desorienta-se para o pai rico, que não mata, porque a filha do pai pobre se interpõe e é ela que é morta. E desorienta-se o espectador, se só vir o filme uma vez…
Pressupõe-se, na chamada “luta de classes”, que, pelo menos uma vez por outra, e como tendência, surjam, ao invés daqui, momentos de “solidariedade de classe”.
Mas, quando o pai pobre mata o pai rico, não há, pelo menos aí, um cheirinho de luta de classes? Quem veja o filme que diga de sua justiça!
Para mim, a distância e o “mau cheiro” que a família rica sentia nas roupas do pai pobre e da sua família e que a este foi provocando um ressentimento tal que, num rastilho lento de vingança, mas longe de qualquer solidariedade de classe ou de sua consciência, mata o patrão, é bem pouco para ver na fita uma “metáfora da luta de classes”.
Para mim, é mais um dos “achados” em que o filme é pródigo, para que os espectadores concluam: “Grande filme! Traduz mesmo o caos do mundo actual!” (Tal e qual o Joker!).
Sim, isso traduz. E essa é, como a presença da desigualdade e da polarização social, uma das virtudes do filme.
No entanto, o final não deixa dúvidas quanto à presença da tal “luta de classes”. Amortalhado por o pai se ter refugiado, agora ele, no bunker da casa dos ricos, sem nenhuma esperança de poder sair em liberdade, o filho dirige-lhe uma imaginária carta com a promessa de enriquecer e vir ele a comprar a casa e libertar o pai.
Sim, claro que esta é uma disposição, uma vontade, mais que lógica na sociedade actual, e, realizável ou não, sinal até de um grande amor filial. Mas, convenhamos, independentemente das boas e mesmo progressistas que sejam as intenções do realizador, não é a mensagem cujo conteúdo se possa dizer o da “luta de classes”.
A não ser que, nos tempos que correm, tenhamos que nos contentar (e vá lá, vá lá) com uma “luta de classes” que não possa ir além de visionar a realidade, as suas dolorosas contradições, eternamente gratos a quem nos permite esse conhecimento, subtraindo-nos, por umas horas, ao domínio e à manipulação das fakenews todo poderosas, mas para sempre prisioneiros entre a visão apocalíptica e a incapacidade de querer superá-la.
E por aqui nos ficaríamos, ou, talvez se incomodados por algum sentimento de culpa social, atinaríamos numa conclusão ainda mais triste: “Afinal, somos todos parasitas…!”.
Não sei bem por onde vou, mas sei que não vou por aí!