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Itália, a crise que aí vem

Atualmente, a situação dos bancos italianos é crítica. O dossier da sua recapitalização ocupará uma boa parte deste verão e põe diretamente em causa as regras da União bancária, que entraram em vigor a 1 de janeiro de 2016. A impossibilidade de o governo italiano respeitar as regras da União bancária mostra as disfunções cada vez mais importantes da zona euro. Por Jacques Sapir.
Uma primeira recapitalização dos bancos em Itália, que teve lugar em novembro de 2015, traduziu-se numa espoliação de parte das pessoas que têm títulos de dívida dos bancos - em grande parte, reformados e pessoas modestas
Uma primeira recapitalização dos bancos em Itália, que teve lugar em novembro de 2015, traduziu-se numa espoliação de parte das pessoas que têm títulos de dívida dos bancos - em grande parte, reformados e pessoas modestas

A parte do chamado crédito malparado no balanço dos bancos chega já a cerca de 18%, segundo um estudo do FMI1. É a taxa mais elevada da zona euro, tirando a Grécia, onde esta taxa atinge mais de 34%. Portugal também segue esta tendência, mas a um nível muito menor, uma vez que a percentagem do crédito malparado é “apenas” de 12%. Em montante, calcula-se que o volume total deste crédito malparado seja de 360 a 400 mil milhões de euros, dos quais 70 a 100 mil milhões deverão ser cobertos, ou pelo Estado ou por outros mecanismos.

 

Quadro 1

Parte do crédito malparado nos balanços bancários

 

É preciso salientar que o aumento das “más dívidas” pode estar ligado a causas muito diversas. Na Irlanda e em Espanha, foi a especulação imobiliária que provocou este crescimento. Não é o caso da Itália, o que torna muito mais inquietante a progressão das más dívidas. Elas são o resultado do crédito concedido pelos bancos regionais às PME da península. Na realidade, a causa desta crise bancária, que chega agora à Itália, é a estagnação económica destes últimos anos.

A evolução dos dados macroeconómicos da economia italiana mostra a amplitude desta crise, e sobretudo mostra que a sua causa é claramente a introdução do euro. Se calcularmos a evolução da economia italiana desde 1990, tendo em conta a década que precedeu a introdução do euro, as mudanças são marcantes e muito importantes.

Quadro 2

Evolução do PIB, do investimento e da poupança em Itália desde 1990

Fonte: dados do FMI, World Economic Report Database, abril de 2016

O crescimento do Produto Interno Bruto, que era relativamente forte na década 1990-2000 é desastrosa nos anos que se seguem à introdução do euro. A Itália também ainda não voltou ao seu nível de PIB de antes da crise de 2007. De facto, o PIB de 2015 situa-se num índice de 116% em relação a 1990 e tinha atingido o índice 127% em 2007. Se a Itália tivesse podido prosseguir o seu crescimento ao ritmo dos anos 1993-1999, ela estaria num índice de 150%, em 2015. Dito de outra forma, o euro custou 34% ao nível do PIB em 2015. No PIB per capita, que constitui uma grandeza mais conforme à evolução da riqueza da população, e supondo que a repartição interna dessa riqueza se mantinha inalterada, o índice é apenas de 108% em relação a 1990. Dito de outra forma, o crescimento per capita foi apenas de 8% em 25 anos.

Mas a evolução do investimento (tanto público como privado) é ainda mais inquietante. A brutal queda do investimento do início dos anos 1990, queda que era necessária para reduzir a amplitude do défice orçamental, foi corrigida de seguida e o investimento subiu a um índice 125 em 2007. Mas, desde então, não parou de baixar e está no índice 87. Não nos devemos espantar então que a produtividade do trabalho regrida neste país e que a qualidade das infraestruturas públicas, sejam nacionais ou municipais, se degrade muito rapidamente no momento atual.

Esta situação de crise económica geral reflete-se, portanto, nos balanços bancários pela subida do crédito malparado. Mas, aqui, coloca-se o problema das regras impostas pela união bancária. Esta impõe que os bancos sejam recapitalizados pelos acionistas e pelos depositantes. Mas, as famílias que compraram títulos de dívida destes bancos são consideradas acionistas. Ora, estas famílias tinham comprado estes títulos numa situação em que o risco de falência dos bancos era largamente compensada pela possibilidade de um bail-out pelo Estado italiano. Estas famílias são, em grande parte, reformados e pessoas modestas. Essas pessoas estão agora dependentes das novas regras da união bancária que impõem um bail-in, ou seja fazem recair o essencial do risco bancário nos acionistas e nos clientes. Uma primeira recapitalização dos bancos, que teve lugar em novembro de 2015, traduziu-se numa espoliação de parte destas poupanças.

O governo italiano, fragilizado pelo resultado das últimas eleições municipais do mês de junho de 2016 - eleições que deram o sucesso do M5S em Roma e em Turim - não consegue evitar uma crise social gravíssima no ano que vem. Por isso, procura impor às autoridades europeias um bail-out, isto é uma socialização das perdas. Mas, neste ponto, confronta-se com a recusa da Alemanha. Esta recusa não é só ditada por considerações financeiras, mas sobretudo porque significaria o falhanço da união bancária, menos de um ano depois da sua entrada em vigor. No braço de ferro que opõe o governo italiano e o governo alemão, apenas haverá perdedores.

Se a Alemanha impõe a sua visão, o choque social da crise bancária porá a Itália a ferro e fogo e provocará um afundamento dos partidos tradicionais (PD de centro esquerda e Forza Itália de centro direita) que estão cada vez mais envolvidos em inúmeros casos de conluio e corrupção com os dirigentes dos bancos. Se o governo italiano ignora a oposição alemã e decide optar por um bail-out, o montante das somas a despender (no mínimo 70 mil milhões de euros, ou seja 4,4% do PIB) provocará uma subida brutal do défice orçamental e reduzirá a zero a credibilidade das instituições da zona euro.

Quadro 3

Estado das finanças públicas em Itália

Fonte: Idem, quadro 2.

 

A crise bancária italiana ocupará certamente uma boa parte do verão e do outono. Ora, é preciso salientar que esta crise se vai desenrolar quando a situação do Deutsche Bank na Alemanha é das mais preocupantes e as receitas orçamentais da Grécia estão em via de afundamento, em particular com uma queda média de 20% nas receitas do IVA, devido à “greve fiscal” que se está a desenvolver neste país.

Tudo se paga, nalgum dia. Recusando o princípio da solidariedade na zona euro, a Alemanha impôs a sua visão das regras, mas ela dá-se conta agora que esta visão é insustentável para os países da Europa do Sul. Ela está portanto entalada entre prosseguir com uma política suicidária que não funciona e o reconhecimento dos seus erros do passado. O que torna o problema tanto mais grave é que o peso da Itália é muito mais considerável que o da Grécia. Toda a gente percebe que uma saída da Itália do euro será a certidão de óbito da moeda única. A crise grega do verão de 2015 foi apenas o aperitivo. A crise italiana será a crise da zona euro.

Artigo de Jacques Sapir, publicado no seu blogue RussEurope . Tradução de Carlos Santos para esquerda.net


 

1 IMF Financial Soundness Indicators Database.

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