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Ilha da Armona, Portugal

Esperamos pelo barco entre gente com carrinhos de compras cheios. Aproveitaram esta hora da manhã para vir a Olhão comprar mantimentos. O barco chega carregado de marinheiros, homens que atiram cordas, que fazem funcionar alavancas. Por José Luís Peixoto, no seu blogue de viagens.
Foto de José Luís Peixoto.Foto de José Luís Peixoto.
Foto de José Luís Peixoto.

Esperamos pelo barco entre gente com carrinhos de compras cheios. Aproveitaram esta hora da manhã para vir a Olhão comprar mantimentos. O barco chega carregado de marinheiros, homens que atiram cordas, que fazem funcionar alavancas. Seguimos no interior de uma corrente, escolhemos quatro assentos que não fiquem muito perto do motor, ruído e cheiro a gasolina.

A Ria Formosa é o contrário do motor, existe serena por baixo da nossa passagem ruidosa, das nossas toneladas de aço. A Ria Formosa é uma cor com horizonte. Ou, pelo menos, é algumas cores, poucas e simples, limpas, uma dessas cores é o horizonte.

Aportamos na Ilha da Armona como se chegássemos de uma grande viagem, trazemos notícias de outro mundo. É esse o olhar que o nosso barco recebe, estamos vestidos com roupas que não fazem sentido ali.

Felizmente, esperam-nos na ilha. Avançamos na rua principal, pequeno caminho onde não cabe mais do que duas ou três pessoas ao lado umas das outras. Às vezes, temos de desviar-nos para dar passagem a uma bicicleta. Olhamos para todo o lado: as casas, as peles bronzeadas. A população é composta por duas linhagens: os que vêm passar o dia e os que ficam quando parte o último ferry, os residentes, povo das ilhas. Porque vamos acompanhados, sentimos que somos meio-residentes. Não estamos perdidos. Ao seguirmos o nosso amigo, é como se conhecêssemos tudo.

Passamos em casa para deixar o que não precisamos e continuamos para o nosso primeiro passeio, dunas, céu, mar e, no regresso, gente diante de grelhadores, grupos de pessoas que já almoçam em mesas diante das casas. Logo a seguir, nós somos essas pessoas: arroz de lingueirão em tronco nu.

A Ilha da Armona também é arroz de lingueirão em tronco nu, fato de banho molhado, sal. As vozes cruzam-se sobre a mesa. Em algum momento do futuro haveremos de recordar este momento.

A areia queima os pés. Na costa contrária ao porto, chegamos a uma praia com chapéus de sol, e prosseguimos, chegamos a uma praia com algas, e prosseguimos, e chegamos a um enorme areal onde estamos sozinhos. O cão é o primeiro a entrar na água. Seguimo-lo imediatamente, o cão abraça-se aos donos. Somos seis pessoas com água pelo pescoço, sentados no chão, a nossa pele tem uma temperatura líquida. Desenvolvemos conversas que começámos à mesa ou, depois, ao longo do caminho até aqui. Parece que são essas conversas que levam a tarde, cada vez mais branda, como as nossas vozes.

Muito ocasionalmente, passa uma pessoa, o fim das ondas toca-lhe os tornozelos. O cão vai ter com ela, segue-a durante alguns metros, quer festas. Ao longe, os donos pedem desculpas a esse transeunte de fato de banho, mas ninguém se incomoda. É um cão encantador, chama-se Albuquerque.

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