As “férias da vacina” são o novo símbolo da desigualdade na pandemia

27 de March 2021 - 11:34

Enquanto 130 países onde vivem 2,5 mil milhões de pessoas não receberam uma única dose de vacinas, os ricos contornam as regras para se vacinar mais rapidamente. Isto é apenas um sintoma de um mundo no qual bem-estar e sobrevivência não são direitos básicos, mas mercadorias para serem compradas e vendidas. Por Adele Walton.

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Jato Privado da companhia aérea Emirates. Foto de Roderick Eime/Flickr.
Jato Privado da companhia aérea Emirates. Foto de Roderick Eime/Flickr.

Passado um ano desde o início da pandemia, o anúncio da vacina foi um farol de esperança. Empresas como Pfizer, Moderna e AztraZeneca têm distribuído a vacina à escala global. No entanto, com as previsões de que a maioria dos países pobres não alcançará a imunidade em massa contra o vírus até pelo menos 2024, a desigualdade global – que já vinha crescendo há anos antes do surto – parece destinada a ser consolidada por uma divisão entre os vacinados ricos e não-vacinados pobres.

Talvez a manifestação mais óbvia e deprimente desse desequilíbrio seja a nova tendência de “férias da vacina”: oportunidades para os ricos furarem a fila.

Um clube de elite que começou a oferecer aos membros com 65 anos ou mais férias vacinais em janeiro é o Knightsbridge Circle, cujos membros supostamente têm um património líquido médio de 800 milhões de dólares. Com destinos que vão desde os Emirados Árabes Unidos à Índia e Madagascar, esses privilégios estão disponíveis apenas para aqueles que podem pagar a taxa de 40.000 libras. (No Reino Unido, as restrições nacionais a viagens classificam esses tipos de viagem como ilegais – mas o dinheiro pode garantir imunidade tanto ao vírus quanto às regras.)

No entanto, a rápida campanha de vacinação na Grã-Bretanha significa que os milionários locais não têm aproveitado essas ofertas tanto quanto poderiam. Nos países do Norte Global, onde o processo de vacinação tem sido mais lento, como no Canadá, as “férias da vacina” revelam-se mais populares.

No mês passado, o CEO do maior fundo de pensões do Canadá, Mark Machin, renunciou após ignorar as restrições e viajar para o Dubai para tomar a vacina, enquanto em janeiro, um executivo de casino canadiano e a sua esposa, atriz, viajaram para uma cidade remota habitada pela comunidade indígena de White River para furar a fila da vacina: fingiram ser trabalhadores de um motel local e foram vacinados antes de voar de volta, no seu avião fretado, para a sua luxuosa casa em Vancouver.

Um problema muito maior

Por mais tentador que seja protestar contra os indivíduos que usam e fornecem esses serviços, as “férias da vacina” são apenas sintomas de um problema muito maior. Eles são a marca de um mundo no qual o bem-estar e a sobrevivência não são direitos básicos que deveriam estar disponíveis a todos publicamente – são mercadorias para serem compradas e vendidas.

Na Grã-Bretanha, a Covid-19 tornou a correlação entre saúde e riqueza inevitável. Pessoas pobres têm maior probabilidade de morrer de Covid; áreas pobres têm maior probabilidade de apresentar altas taxas de infecção. Não é porque essas pessoas não podem pagar um voo para o Dubai para as “férias da vacina”; é por causa dos cortes nos serviços de saúde pública nas áreas mais pobres promovidos pela austeridade, baixos valores de baixas médicas, empregos precários, habitações sobrelotadas e racismo institucional – entre muitos, muitos outros factores inter-relacionados.

E essas divisões estão agora a ser ampliadas em escala global. Em fevereiro, o presidente Joe Biden anunciou um pacote de quatro mil milhões de dólares para o programa humanitário COVAX, que foi projetado no ano passado para melhorar a distribuição entre países ricos e pobres.

Apesar disso, a COVAX só começou a sua implementação nesse mesmo mês, ficando muito atrás das implementações de vacinação já em andamento no Norte Global.

A COVAX é uma alternativa à renúncia de patentes para as vacinas, que muitos acreditam que atingiria a imunidade global para a Covid muito mais rápido. O problema é que dispensar patentes prejudica o lucro de ricas empresas farmacêuticas. Os EUA e o Reino Unido, que juntos alcançam a marca dos quatro principais países com as maiores doses de vacinação administradas até agora, têm argumentado contra as isenções na Organização Mundial do Comércio, alegando que isso impediria o investimento privado. As prioridades aqui são claras; entretanto, cerca de 130 países ainda não receberam uma única dose sequer.

O grande desestabilizador

A conversa de estarmos “todos juntos” esteve omnipresente nas respostas das assessorias de imprensa dos governos durante a pandemia, mas as ações da classe política e dos seus pares ricos fizeram pouco para tornar essa conversa em realidade.

A realidade é que a pandemia tem mostrado continuamente que a desigualdade de riqueza dita, nos termos mais rígidos, quem consegue viver e quem deve correr o risco de morrer. (Claro, não é apenas um problema para as pessoas pobres: o que nenhum dos jet-setters quer admitir é que deixar outros não-vacinados por longos períodos de tempo, localmente ou no exterior, aumenta a probabilidade de uma mutação do vírus que é imune ao seu caro – ou lucrativo – golpe de furar a fila da vacina.)

As desigualdades na saúde são sintomáticas de um sistema capitalista que intencionalmente falha em atender às necessidades mais básicas de algumas pessoas, enquanto esbanja luxos para outras. Os métodos capitalistas de distribuição são inerentemente injustos e, em tempos de crises de saúde, isso tem consequências devastadoras para aqueles que ocupam posições mais baixas na escala sócio-económica.

A democracia da saúde, por outro lado, significa garantir que todos tenham oportunidades iguais de alcançar um padrão decente de saúde e bem-estar para si mesmos – mas isso não pode acontecer enquanto as lógicas capitalistas que reforçam as desigualdades nos lucros da saúde têm permissão para impulsionar a distribuição destes serviços.

A Covid-19 não foi o “grande equalizador” que alguns previram que seria em março de 2020. Ao invés disso, provou que as elites farão tudo o que puderem para impedir a existência de um mundo igualitário – e que somos nós que devemos lutar para que isso aconteça.


Adele Walton é escritora e estudante de Desenvolvimento Internacional. O seu trabalho é publicado no blog da Verso, na Huck Magazine e no The Independent. Traduzido por Felipe Kusnitzki para a Jacobin Brasil. Adaptado pelo Esquerda.net para português de Portugal.

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