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A extrema-direita e a economia do medo

Para escapar às regras contra o discurso de ódio de plataformas como o YouTube e Facebook, a extrema direita tem migrado para serviços sem qualquer filtragem de conteúdos. Artigo de Tiago Teixeira.
A extrema-direita e a economia do medo
Fotografia de QuoteInspector/Flickr.

A internet é uma ferramenta que permite a milhares pessoas interagirem entre si. Podemos ter acesso à informação de que necessitamos através de um só click. Mas as coisas positivas também podem ter os seus contras. O internauta pode facilmente aceder a conteúdos sem filtro, nem intermediação. 

O Facebook e o Youtube têm implementado algumas regras para conter o discurso de ódio nas suas plataformas que, apesar de limitadas e insuficientes, fizeram com que várias personalidades da extrema-direita migrassem para outros serviços, fugindo a qualquer filtragem de conteúdos. 

Como noticiado na revista Visão, um dos exemplos mais paradigmáticos é o serviço de streaming Dlive, que tem sido usado como abrigo da extrema-direita. Outro caso é o podcaster Nick Fuentes. Fuentes é negacionista do holocausto, considera que a segregação racial é o melhor para a comunidade negra e que os direitos religiosos estipulados na constituição norte-americana não foram pensados para quem professa o Islão. É dos que mais dinheiro faz com a plataforma Dlive, segundo dados fornecidos pela plataforma Social Blade. Na mesma tabela podemos verificar que a maior parte do TOP 10 é preenchido por pessoas ligadas à extrema-direita.

O famoso youtuber PewDiePie passou a usar exclusivamente a plataforma Dlive, após várias acusações de antissemitismo e racismo. Resultado: a Dlive cresceu 67% em apenas dois meses. Em teoria, as regras da plataforma também proíbem a discriminação por raça, etnia ou orientação sexual. Mas ao que parece é mais fácil banir uma conta por problemas de copyright do que pelo discurso de ódio.

A rede social Parler também atrai militantes da extrema direita. Este site foi divulgado por apoiantes ligados a Trump, como o senador Rand Paul, Ted Cruz, ou os filhos do presidente dos EUA. O próprio presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, tem conta nesta plataforma. Cá em Portugal, a rede social foi divulgada por André Ventura. É considerada uma espécie de alternativa ao Twitter. Aliás, na homepage da plataforma consta uma mensagem de boas-vindas onde se anuncia que não se “censuram ideias, partidos políticos ou qualquer tipo de ideologia”. Consequentemente, afirmam orgulhosamente não limitar o discurso de ódio ou propagação de notícias falsas. Assim, procuram atrair pessoas que foram barradas em outras plataformas, aumentando o alcance desta rede. 

É sabido que uma notícia que possa suscitar medo em quem a lê consegue atingir mais alcance do que um post escrito com objetividade jornalística. A extrema-direita sabe como lucrar neste meio e explorar o medo,  uma “arma” que pode ser fatal para a democracia. É um caso paradigmático em que os meios justificam os fins. Infelizmente muitos órgãos de comunicação social ampliam os soundbytes vindos destes campos, acabando por lhes dar os ganhos que procuram. Saibamos aprender a não morder o isco.   

Sobre o/a autor(a)

Técnico de informática e militante do Bloco de Esquerda.
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