EUA mandaram explodir gasoduto Nord Stream, diz jornalista Seymour Hersh

10 de February 2023 - 10:12

O veterano jornalista que denunciou o massacre norte-americano em My Lai, no Vietname, e os abusos da CIA na prisão secreta de Abu Grahib, no Iraque, implica agora a marinha dos EUA e da Noruega nas explosões submarinas do gasoduto russo.

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Imagem da fuga do gás após a explosão do gasoduto.

O mistério à volta das explosões submarinas que danificaram o gasoduto Nord Stream, através do qual a Rússia abastecia a Europa com gás, tem sido alvo de investigações por vários países, até agora inconclusivas. Esta quarta-feira, o veterano jornalista Seymour Hersh estreou-se na plataforma Substack com uma reportagem que aponta o dedo aos Estados Unidos por terem ordenado o ato de sabotagem, com a colaboração da marinha norueguesa.

De acordo com a sua investigação, que se apoia em relatos de uma fonte anónima "com conhecimento direto do planeamento operacional", os mergulhadores da marinha dos EUA colocaram explosivos C4 no gasoduto durante um exercício naval conjunto da NATO em junho do ano passado. Três meses depois, os explosivos foram detonados através de uma bóia hidroacústica lançada por um avião da marinha norueguesa.

Contactada pelo jornalista, a Casa Branca reagiu através da porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, Adrienne Watson, classificando o artigo de Hersh de "totalmente falso e uma ficção completa". Posição oposta teve a porta-voz da diplomacia russa, Maria Zakharova, considerando que "a Casa Branca deve comentar todos estes factos".

Segundo a investigação, o planeamento da operação demorou meses e escolheu aquela equipa da marinha sediada na cidade do Panamá para assim escapar à necessária autorização da liderança do Senado e da Câmara dos Representantes em relação a operações secretas.

No entanto, no mês anterior à invasão da Ucrânia, a secretária de Estado dos Assuntos Políticos, Victoria Nuland, tinha avisado numa conferência de imprensa que "se a Rússia invadir a Ucrânia, o Nord Stream 2 não avançará seja de que maneira for". E a menos de três semanas da invasão, o próprio presidente Biden afirmou no final de um encontro com o chanceler alemão Olaf Scholz na Casa Branca que "se a Rússia invadir, não haverá Nord Stream 2. Vamos acabar com ele".

Se as palavras de Biden deixaram estupefactos os que planeavam a missão secreta, como diz Hersh, abriu por outro lado uma oportunidade, já que podia deixar de ser considerada uma operação secreta do ponto de vista legal e assim a comunicação ao Congresso norte-americano deixava de ser obrigatória. A ordem para avançar, diz a fonte citada na notícia, veio do diretor da CIA William Burns.

O exercício naval conjunto da NATO foi visto como a ocasião perfeita para colocar os explosivos, com a equipa especial de mergulhadores a ser incluída na operação. E a Noruega serviu de aliado ideal, pois além do alinhamento político com os EUA - o líder da NATO, Jens Stoltenberg, tinha antes chefiado o governo norueguês durante oito anos - também teria a ganhar com o fim do fornecimento do gás russo aos países europeus, ao poder dessa forma alargar a  quota de mercado das suas exportações de gás. A experiência da marinha norueguesa foi determinante na escolha dos locais exatos onde colocar os explosivos e também na sua detonação, que primeiro esteve prevista para acontecer através de um temporizador de 48 horas colocado nos explosivos. Mas uma súbita mudança de planos de Washington, considerando que esse tempo seria demasiado curto e tornaria óbvia a autoria da sabotagem, levou à solução da detonação remota três meses depois através das bóias hidroacústicas.

A embaixada norueguesa não respondeu às perguntas enviadas por Seymour Hersh.