Na primeira declaração sobre política externa enquanto presidente norte-americano, Joe Biden anunciou o fim do apoio do seu país às operações militares da coligação dirigida pela Arábia Saudita que luta contra os rebeldes Houtis no Iémen. Na sua intervenção destacou que a administração que lidera vai reforçar “os esforços diplomáticos para acabar com a guerra”, considerando que esta “criou uma catástrofe humanitária e estratégica”. Na mesma declaração, esta quinta-feira, cancelou a retirada de tropas da Alemanha.
Trata-se da inversão de duas políticas levadas a cabo por Donald Trump. O secretário de Estado Antony Blinken acrescentou a estas a retirada dos Houtis da lista de organizações consideradas terroristas onde tinham sido colocados nos últimos dias de governo do anterior presidente.
Na sequência da altura de postura do governo norte-americano foi nomeado um novo responsável diplomático, Timothy Lenderking, que será enviado especial para o país.
Na sexta-feira, a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, acrescentou deu mais um golpe simbólica na aliança com os sauditas ao declarar: “claro que esperamos que a Arábia Saudita melhore os seus registos sobre direitos humanos. Isso inclui libertar presos políticos como as defensoras dos direitos das mulheres”.
Contudo, o fim do apoio às operações ofensivas desta guerra e de “vendas relevantes de armas”, não significa que o EUA deixem de apoiar a Arábia Saudita. O próprio Biden, na sua declaração, fez questão de matizar dizendo que os norte-americanos continuarão a apoiar aquele país contra ataques de mísseis, de drones e “outras ameaças por parte do forças abastecidas pelo Irão em vários países”.
E também a retirada dos Houthis da lista de organizações terroristas não significa que estes tenham passado a ser vistos com melhores olhos. Antony Blinken esclareceu que "esta decisão não tem nada a ver com o que pensamos dos Huthis e da sua conduta condenável, que inclui ataques a civis e o rapto de cidadãos norte-americanos", acrescentando que a decisão se deve "unicamente às consequências humanitárias desta designação de última hora pela administração anterior, que as Nações Unidas e as organizações humanitárias têm desde então deixado claro que iria acelerar a pior crise humanitária do mundo".
Do lado Houthi, há quem saúde a decisão do fim do apoio aos ataques mas sobretudo espera-se para ver. O chefe do Comité Revolucionário Supremo dos Houthis, Mohammed Ali al-Houthi, escreveu no Twitter que “qualquer jogada que não alcance resultados no terreno acabando com o bloqueio e a agressão permanece uma formalidade”. Um tom diferente de Hamid Assem, um dos responsáveis Houthis em Sanaa, usou em declarações à AFP: “esperamos que seja o começo de uma decisão que visa acabar com a guerra no Iémen”. O movimento apelou ao fim dos ataques externos ao país.
A Arábia Saudita envolveu-se no conflito do Iémen em março de 2015. Os rebeldes Houthis tinham conquistado o poder e entrado na capital Sanaa em setembro de 2014. A Arábia Saudita envolveu os Emirados Árabes Unidos e outros estados da região na defesa do governo de Abd-Rabbu Mansour Hadi por si apoiado. O ocidente providenciou armas e o Irão está do lado dos rebeldes fazendo com a guerra escalasse e durasse, sendo avaliada como a maior catástrofe humanitária atual pela ONU. O número de mortes é estimado em 233 mil. Atualmente 80% da população necessita de apoio alimentar e está à beira da fome.