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Desmontar o palco da extrema-direita

A esquerda tem um papel: combater a fragilidade programática do “Chega”, denunciando os seus tiques fascistas. Ter que fazer política sem frases feitas e sem disseminar ódio serão as maiores dificuldades da extrema-direita no Parlamento. Texto de Alexandre Fernandes.
Parlamento (hemiciclo) – Foto IPPAR, disponível na wikipedia
Parlamento (hemiciclo) – Foto IPPAR, disponível na wikipedia

Nas manifestações e nas ruas gritava-se que “não passarão”, mas o evitável – e não o inevitável - aconteceu: já passaram no nosso país.

A extrema-direita chega em 2019 ao parlamento português e pela conjuntura europeia e mundial não é garantido que seja apenas um episódio de quatro anos com um fim anunciado, o que torna a luta dura e complexa na esquerda no combate à extrema-direita.

Surge então a discussão na sociedade portuguesa de como lidar com o “Chega”. Dar ou não dar palco à sua voz, às suas ideias e ao seu populismo?

Em primeiro lugar, é preciso interiorizar que o palco já lá está. Não é nem será a esquerda a dar-lhe palco, mas sim a Assembleia da República e, como é evidente, toda a comunicação social e consequentemente, as redes sociais que são cada vez mais mobilizadoras para determinar orientações ideológicas e pontos de vista relativamente à política e aos partidos portugueses.

Não podemos adotar a ideia que este fenómeno desaparecerá se fingirmos que ele não existe, portanto é necessário adotar estratégias a curto e longo prazo.

A primeira estratégia é focar no que é realmente importante para a vida das pessoas: serviços públicos de qualidade para toda a população, “destroikar” a legislação laboral, sendo esta a única alternativa para haver um verdadeiro aumento e valorização de salários, e um Estado Social e uma Segurança Social fortes, para responder às necessidades das pessoas, construindo uma verdadeira alternativa de esquerda socialista fazendo oposição ao PS e à direita.

Necessitamos de ter um debate e um combate alargado sobre o controlo público dos setores em que existe dinheiro público, discutir o serviço da dívida e ter igualmente um debate alargado sobre os constrangimentos das instituições europeias que impedem sistematicamente que o país cresça, tal como questionar hoje e sempre o sistema capitalista. É, também, estarmos nas ruas nas diferentes manifestações anti-racistas, feministas e LGBTI, estando do lado de todos os movimentos sociais que estão do lado da resistência anti-fascista.

A segunda estratégia é desmontar o palco do líder do Chega e ir ao encontro da sua falta de base argumentativa de qualquer coisa que defenda, ou seja, racionalizar o seu discurso ao invés de permitir que a “emoção” vença junto das pessoas, porque sabemos bem que a “política das emoções” é altamente apetecível num país que cada vez se sente menos representado pelos partidos políticos.

No programa “Expresso da Meia Noite” da SIC Notícias, o líder do Chega, num momento inédito de populismo e sem contradição ou oposição, dizia que queria uma redução do número de deputados no Parlamento e até disse que abdicava do seu lugar se essa redução existisse, tendo em conta que isso prejudicaria os pequenos partidos, isto tudo para “desafogar” os portugueses dos custos que os deputados apresentam.

O líder do Chega avança com esta proposta porque sabe muito bem que na sociedade portuguesa existe uma diabolização relativamente aos deputados: “não fazem nada”; “não cumprem o que fazem”; “só têm privilégios…”, alimentando a ideia falsa que a concentração da riqueza se encontra na Assembleia da República e que os deputados vivem de privilégios.

Se o tema é a democracia representativa, deixemo-nos de frases feitas e vamos ter um debate verdadeiramente sério:

1. Quais são os custos públicos que o “Chega” fala relativamente à composição da Assembleia da República e onde estão os cálculos da redução que fala?

2. Qual é o método alternativo de representação que apresenta?

3. Sabe o “Chega” onde está verdadeiramente a concentração da riqueza em Portugal, isto para desmistificar que os deputados recebem “ordenados milionários”, ideia que os próprios alimentam?”

4. Quais são os “privilégios” dos deputados e apresente quais são os “privilégios” que vão abdicar, visto elegeram um deputado!?”

O mesmo para os serviços públicos. O “Chega” poderá ter razão na análise dos problemas que existem em setores da sociedade, quando fala do desinvestimento no Serviço Nacional de Saúde ou da carga fiscal, mas quais são as suas alternativas para cada problema? Ou na questão da etnia cigana tão discutida nos dias de hoje: se existem problemas na comunidade cigana, aponte quais são com cálculos e clareza argumentativa e indique quais as soluções que apresenta, porque é para isso que os partidos políticos servem na Assembleia da República.

Mais: quais são as implicações e custos para a visão-fantasia do “Chega”, quando nos dizem que tudo se resolve com o “fim da impunidade” e com a privatização dos serviços públicos?

Tudo isto deve ser desmontado, porque parar o populismo é combater os populistas com frontalidade e exigir propostas políticas concretas.

Só assim é possível desmascarar as ideias pré-concebidas e as “frases feitas”: politizando verdadeiramente os assuntos do país. É exigir proposta, argumentação e sustentabilidade no que defende.

A esquerda tem um papel: combater a fragilidade programática do “Chega”, denunciando os seus tiques fascistas. Ter que fazer política sem frases feitas e sem disseminar ódio serão as maiores dificuldades da extrema-direita no Parlamento, portanto vamos trabalhar nisso.

É imperativo não fingir que eles não existem, mas sim estar pronto para combatê-los quando assim for necessário. Isso só se faz com uma alternativa de esquerda verdadeiramente socialista, forte e organizada.

Texto de Alexandre Fernandes, estudante Universitário de Sociologia no ISCTE

Aderente do Bloco de Esquerda

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