Comunista numa idade precoce, Samir Amin irá manter até à sua morte uma ligação orgânica entre a militância política e as suas reflexões teóricas. Sempre pensou “que o combate intelectual é um combate político”[1] e que a “teoria e a prática são indissociáveis”[2]. Esta “postura” é fundada e expressa-se na adesão a um marxismo aberto, ao mesmo tempo, às contribuições das ciências sociais e às lições das diferentes lutas pela libertação dos oprimidos e dominados. A sua contribuição teórica para a problemática do desenvolvimento/subdesenvolvimento insere-se, portanto, desde o início no quadro de uma militância a favor de uma alternativa ao capitalismo.
Segundo Samir Amin, o desenvolvimento “tal como é concebido pelo pensamento burguês dominante é um desenvolvimento capitalista dependente em benefício de uma minoria local, em detrimento das classes populares que empobrece”[3]. Quando deveria ser, de acordo com ele, em benefício das classes populares “em termos materiais, políticos e morais”[4] e “inscrever-se numa perspetiva socialista”»[5].
Amin precisa que o socialismo “não é o capitalismo sem capitalistas”[6] ou um “modo de produção mais eficaz que o capitalismo que permitiria uma taxa de crescimento mais elevada e uma repartição mais equitativa dos rendimentos”.[7] É mais um “estádio superior da civilização humana”[8]. No pensamento de Samir Amin, uma ligação orgânica une o desenvolvimento e a transição para o socialismo.
O objetivo deste artigo é precisamente interrogar-se sobre esta ligação orgânica entre desenvolvimento e transição para o socialismo no pensamento de Samir Amin, tentando responder a duas questões[9]:
1- Como é que ele teorizou esta ligação e em que contexto?
2- Como é que a sua reflexão sobre esta ligação evoluiu ao longo dos tempos?
Começaremos em primeiro lugar por apresentar o contexto particular no qual nasceu esta reflexão de Samir Amin sobre a questão, em seguida abordaremos os fundamentos teóricos, antes de nos interessarmos sobre a sua avaliação da experiência russa e chinese. Terminaremos pelas últimas evoluções que esta reflexão conheceu.”
As origens de uma reflexão original
Nascido numa família abastada (os seus pais eram ambos médicos), Samir Amin considera-se já comunista quando está no liceu[10]. Esta militância precoce é originada numa tripla recusa: recusa da injustiça social, do nazismo e do imperialismo britânico[11]. Ganha corpo durante os seus anos de estudo em França (entre 1947 e 1957) aderindo ao Partido Comunista Francês. Paralelamente, Amin está ativo nas redes anticolonialistas de “estudantes do ultramar”[12], nas quais se encontravam “egípcios e outros árabes e africanos, vietnamitas e outros asiáticos”[13]. O jornal que estes estudantes publicavam[14] “não eram sempre bem vistos pelo “44”, a sede do Comité Central do PCF”[15]. Foi acusado “de todos os tipos de “desvios” nacionalistas ou pequeno-burgueses”[16]. Estas reações vão levar uma parte deles (entre os quais Amin) a rejeitar o que se chamará posteriormente “revisionismo soviético”.
É preciso dizer também que a esta altura, um mal-estar profundo reinava no seio de uma grande parte dos comunistas do Sul devido às posições do “partido irmão” soviético relativamente à questão colonial. Desta forma o relatório Jdanov (1947), que define a política estrangeira da grande “pátria do socialismo” no início da guerra fria, “foi aceite sem reserva pelos partidos comunistas europeus e pelos da América Latina. Pelo contrário, deparou-se imediatamente com resistências dos partidos comunistas da Ásia e do Médio Oriente [17]. À imagem da doutrina Truman, o relatório “partilhava ele também o mundo em duas esferas, a esfera socialista (a URSS e a Europa de Leste) e a esfera capitalista (o resto do mundo)”[18]. “Ignorava as contradições que, no seio da esfera capitalista, opunha os centros imperialistas aos povos e nações das periferias envolvidos nas lutas pela sua libertação”[19]. Conduzirá, segundo Amin, a um apoio soviético “menos entusiasta” nos movimentos de libertação nacional.[20]
O debate sobre o papel destes últimos na luta pelo socialismo, sobre as forças políticas (e portanto sociais) que as deveriam dirigir (comunistas ou burguesas nacionais) e sobre a relação que deveriam ter com o “campo socialista”, agitava na época o movimento comunista no Sul. No seu seio, constituíam-se grupos de reflexão. Amin tinha participado num deles [21]. Segundo ele, este esforço (de reflexão) tinha contribuído para “a formulação da teoria alternativa que se centrava nas iniciativas independentes dos países de Ásia e de África”[22]. Desta forma, Bandoeng não teria “saído diretamente da cabeça dos dirigentes nacionalistas (Nehru e Soekarno em particular, muito menos Nasser), como o deixavam entender os escritos contemporâneos, mas foi o fruto de uma crítica radical de esquerda, conduzida à época no seio dos partidos comunistas”[23].

Samir Amin. Foto de Fraktion DIE LINKE. im Bundestag.
Crítica da ilusão da recuperação
É neste contexto que Amin redige a sua tese de doutoramento. Não “tendo tido de procurar o tema”[24], que já tinha “decidido há muito tempo”[25], ele toma como meta “contribuir para a análise marxista das origens da dinâmica do subdesenvolvimento”[26] A esta primeira questão sobre as causas e os mecanismos da polarização entre o centro e a periferia do sistema capitalista mundial juntar-se-á uma segunda questão que diz respeito à origem do próprio capitalismo: porque é que se formou na Europa e não noutro lado? Responder a estas duas questões será o programa de toda a sua vida[27].
Fá-lo-á sem dogmatismo, afinando as suas respostas, corrigindo-as ou aprofundando-as progressivamente. Os marcos da evolução do seu pensamento são: a sua tese publicada com o título: A acumulação à escala mundial[29] (1970), O desenvolvimento desigual[30] (1973) no qual irá expor, em “termos menos académicos”[31] os resultados da sua tese bem como a sua conceção sobre a formação do capitalismo, O materialismo histórico e a lei do valor[32] (1976), retomado em A Lei do valor mundializada[33] (2011) e Classe e nação[34] (1979), no qual retoma “O desenvolvimento desigual mas acentuando a articulação das transformações sociais asiáticas e africanas, principalmente pré-modernas e da globalização capitalista”[35].
Durante toda a sua vida, não deixará de debater com as principais teorias e/ou modos intelectuais que se foram sucedendo (desde a economia neoclássica, o keynesianismo até ao neoliberalismo, o pós-modernismo e a ecologia). Apoiar-se-á sobretudo na crítica da economia política feita por Marx (afirma até ter lido o Capital de vinte em vinte anos) e a sua conceção materialista da história (denominada também materialismo histórico), criticando as suas falhas e mostrando os seus limites ligados a um certo eurocentrismo[36]. Para ele, ser marxista “é partir de Marx e não parar nele”[37]. Este marxismo aberto servir-lhe-á assim de quadro teórico para responder às duas questões principais que referimos.
Ele analisa o subdesenvolvimento “como o produto da expansão capitalista mundial, não como um atraso no desenvolvimento “capitalista”.”[38]. A polarização, co-substancial à implantação do capitalismo, é então a “expressão da pauperização associada à acumulação à escala mundial”[39]. Esta seria um efeito da lei de valor mundializada[40]. Quanto à formação do capitalismo na Europa, Amin explica-o pela “lei do desenvolvimento desigual das civilizações”[41]. É porque o feudalismo europeu é a forma periférica do “modo de produção tributário” que alcançou a sua forma mais acabada na China, que a nascença do modo de produção capitalista foi possível na Europa. Assim, “regimes menos avançados, porque são por isso mais flexíveis, são suscetíveis de ultrapassar os que são mais avançados que são em geral mais rigídos”[42]. Por isso, a periferia será o lugar no qual a inovação social tem mais probabilidade de emergir. Desde o início, as suas reflexões teóricas são indissociáveis do seu compromisso militante. São também uma intervenção no debate político. Mostram que a alternativa que se apresenta face aos povos da periferia é a seguinte:
“Ou desenvolvimento dependente ou desenvolvimento auto-centrado necessariamente original relativamente ao dos países atualmente desenvolvidos (…) a periferia não pode alcançar o modelo capitalista, está obrigada a ultrapassá-lo”[43].
Samir Amin será por isso muito crítico relativamente às teorias “liberais” do desenvolvimento que na realidade apenas servem para legitimar a pilhagem do “terceiro mundo” mas também face ao desarrollismo ou ao desenvolvimentismo da CEPAL (Comissão Económica para a América Latina e as Caraíbas, com Prebisch à cabeça). Para Amin, este último “exprimia a visão política e cultural da teoria do “alcançar” o capitalismo”[44] e “preconizava a implementação de um burguês (assente sobre as classes médias) anti-imperialista mas nada mais “[45]. Ele reproduzia esta ilusão de um capitalismo nacional autónomo que se encontrava tanto em regimes políticos do terceiro mundo do passado como do presente.
Esta crítica também foi formulada na América Latina pelo que se chamará em seguida de “dependencia” ou “teoria da dependência”[46]. O que levou alguns a classificar Amin como “dependentista”, ignorando dois elementos fundamentais:
1- Ele começou, nos anos 1950 (na sua tese), muito antes da emergência da “dependencia”, a construir o seu próprio quadro teórico inspirando-se na crítica marxiana da economia política para pensar os efeitos da expansão do capitalismo à escala mundial (os efeitos da lei da acumulação à escala mundial ou da lei do valor mundializada).
2- Se o seu pensamento começou por explicar a origem do subdesenvolvimento e da periferização do Sul global, ele confrontou-se sobretudo com a realidade própria das formações sociais africanas e asiáticas. O que o levou até a formular uma “crítica simpática”[47] da “dependencia” mostrando que, de forma diferente da América Latina, “a Àsia e a África foram colonizadas, claro, mas sem colonização de povoamento, exceto na África do Sul, Argélia e Quénia. E o que por isso o problema se colocou” para os seus povos “em termos diferentes”[48]. Estes últimos não tinham de se “livrar de um colonialismo externo”.[49] Desta forma “a fusão da questão nacional e da questão da revolução social” aí “colocava-se em termos diferentes dos da América Latina”[50]. Por isto, ele sublinhava sobretudo a complementaridade (mas não a identidade) entre a “dependencia” e a sua “teoria da acumulação à escala mundial”[51].
Crítica do sovietismo
Um dos efeitos da lei do desenvolvimento desigual em Samir Amin é que a periferia do sistema capitalista mundial (ou seja, o Sul) constitui a “zona das tempestades” (segundo a expressão de Mao) ou o centro da luta revolucionária pelo socialismo. Com efeito, os avanços mais importantes em direção a este parecem menos suscetíveis de se realizar no Norte, uma vez que o proletariado aí beneficia também da renda imperalista. São assim os povos do Sul (no sentido maoista) que são a principal força social capaz de iniciar a transição. Mas isto não significa que Amin seja um “terceiro-mundista”. Não procura “substituir os “povos do terceiro mundo” ao proletariado”.[52].
Em Amin, a transição para o socialismo é indissociável da questão do desenvolvimento. É normal, neste quadro, que o debate sobre a natureza da URSS ocupe uma parte importante da sua reflexão. A sua posição sobre este ponto não parou de evoluir. Do início da sua militância política até ao fim dos anos 1950, considerava a União Soviética como um país socialista:
“Na época em que escrevia a minha tese, ainda era quase impossível analisar seriamente o sistema soviético, cuja ideologia e prática economicista nos escapava em grande medida”.[53]
Adotará em seguida, a partir dos anos 1950, uma posição mais crítica. Os debates que agitam o movimento comunista no Sul sobre o relatório Jdanov, o sucedido às organizações marxistas egípcias sob o nasserismo, [54] tal como o surgimento do conflito sino-soviético são alguns dos elementos que explicam esta inflexão.
Assim, Samir Amin deixa de “considerar que a União Soviética possa ser qualificada como socialista”[55] uma vez que uma parte dos bens produzidos assim como a força de trabalho são ainda mercadorias[56]. Mas a URSS não é capitalista, uma vez que a propriedade do capital não está dividida mas centralizada nas mãos do Estado[57]. Aqui a posição de Amin afasta-se da de Mao, que qualifica a União Soviética de capitalismo de Estado. Segundo ele, esta expressão seria imprópria uma vez que ela “descreve situações muito diferentes”[58]: o capitalismo monopolista de Estado no centro e o capitalismo de Estado desenvolvimentista na periferia por exemplo[59]. Mas esta precisão não impediu Amin de utilizar em seguida estes mesmos termos (capitalismo monopolista de Estado e capitalismo de Estado) para qualificar esta sociedade de classes que emergiu paradoxalmente de uma revolução socialista [60].
A URSS corresponde assim a uma “realidade nova suis generis”[61]: o sovietismo ou o modo de produção soviético cujas principais características são:
“1) Os principais meios de produção – aqui os equipamentos produzidos pelo trabalho social – são objeto de uma apropriação estatal;
2) a força de trabalho é uma mercadoria;
3) os produtos que são objetos de consumo são igualmente mercadorias;
4) os bens de equipamento não são mercadoria, pelo menos na sua origem, mas têm tendência a tornar-se em tal rapidamente”.[62]
Samir Amin coloca a questão do caráter instável ou não deste novo modo de produção. A sua resposta resume-se à convergência dos dois sistemas capitalista e “soviético”; o sovietismo seria assim “a forma suprema do capitalismo”[63]. A centralização do capital inerente ao capitalismo poderia conduzir ao estatismo[64]. Encontra-se aqui a tese de Bukarine do capitalismo monopolista de Estado. Amin fará de seguida a sua auto-crítica sobre a questão[65] que servirá para reformular a sua visão da transição para o socialismo.
Este “desvio” para o “estatismo” tem, segundo ele, a sua origem na rutura da aliança operária e camponesa operada por Estaline através da coletivização forçada dos anos 1930[66] que permitiu “o reforço do aparelho autocrático do Estado”[67] e a formação da “burguesia de Estado soviética”[68] Esta foi involuntariamente facilitada pelo leninismo, que não rompeu completamente com “o economicismo da IIª Internacional”[69]. Assim com Estaline a recuperação (e portanto o crescimento continuo dos meios de produção) ganha predominância sobre a construção de outra sociedade (a transformação das relações de produção). As reformas pós-estalinistas (as kroutchevianas em particular) inspiram-se numa conceção do socialismo como capitalismo sem capitalistas herdada da social-democracia europeia. Nesta perspetiva, o Estado apenas “se substitui ao mercado através de um cálculo a priori antes de alcançar resultados análogos aos que são realizados a posteriori numa economia de concorrência pura e perfeita”[70] (Barone, Lange…).
A via chinesa para o socialismo
Esta avaliação crítica da experiência soviética deve muito ao maoismo. De 1957 a 1980, Amin “partilhou de forma quase integral as análises propostas pelo Partido Comunista Chinês”[71]. Estas ofereciam uma crítica de esquerda do estalinismo “por oposição às críticas de direita propostas pelos reformadores de a época de Khroutchev”[72]. A via chinesa para o socialismo parecia operar um “regresso a Marx”[73] que contrastava com o revisionismo soviético. Para Amin, a contribuição do maoismo era de importância capital para a revivificação de um marxismo mumificado pelo diamat estalinista. Isto acontecia, segundo ele, a dois níveis:
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A teoria da revolução socialista à escala mundial e nacional: o maiosmo opera uma deslocação do centro da revolução mundial para os países do terceiro mundo, considerados como “zona de tempestades”. O que constituiu um prolongamento e um aprofundamento da teoria leninista dos elos mais fracos. À escala nacional, Mao adapta e reformula para estes países a estratégia leninista de uma revolução sem interrupções de etapas. Sob o nome de “revolução nacional democrática popular” esta apoia.se numa ampla aliança das classes populares e nacionais sob a direção do proletariado na base de uma programa que visa ao mesmo tempo a libertação nacional, a revolução agrária e o início de uma transição para o socialismo.
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A construção do socialismo: o maoismo constitui uma rutura com o modelo soviético. Se este último visa prioritariamente alcançar o ocidente, o primeiro “apelava a refletir sobre a transição e a reequilibrar objetivos contraditórios a ele: “alcançar”, ou seja desenvolver prioritariamente as forças produtivas leva a reproduzir muitas dos caracteres essenciais próprios ao capitalismo ou “construir uma nova sociedade”?[74]. Isto surgia na investigação de uma “relação justa entre a indústria pesada de um lado, a indústria ligeira e a agricultura de outro”[75], na tentativa de uma preservação da aliança operária-camponesa, de realização da maior descentralização possível e da redução ao máximo das desigualdades entre rendimentos... Isto era refletido também pela afirmação maoista que a luta das classes contínua durante a construção do socialismo dada a tendência à formação de uma burguesia “vermelha” no Estado e partido. Daí a importância de uma intervenção contínua das massas que tomará a forma de “revoluções culturais”.
Num livro publicado no início dos anos 1989, ou seja pouco antes da viragem “modernizante” de Deng Xiaoping, Amin faz o balanço do maoismo. Compara o modelo chinês qualificado de socialista com os dois outros modelos: estatista e capitalista. Amin afirma que a “estratégia de desenvolvimento da China sobre o conjunto do período 1950-80 representa sem dúvida o maior sucesso de desenvolvimento da nossa época”[76]. Segundo ele, a China conseguiu, em condições históricas muito difíceis, “assegurar um crescimento agrícola considerável em condições naturais desfavoráveis”[77], implementar “os fundamentos de um sistema industrial completo autónomo face ao exterior, capaz, apesar dos seus atrasos e fraquezas, de servir as necessidades fundamentais do consumo popular, da defesa nacional, enfim da modernização da agricultura e da própria indústria.”[78] Resumindo, ela “conseguiu resolver nesta base o que nenhum país do terceiro-mundo, mesmo os mais ricos e desenvolvidos, tinha conseguido iniciar”[79].
Estes resultados são o fruto de uma estratégia de “desenvolvimento nacional auto-centrado”[80] que se apoiou em três elementos: “a abolição da propriedade privada da terra e das fábricas”[81], “a escolha da agricultura como base, ou seja não extrair rendimento aos camponeses forçadamente mas apenas haver trocas iguais entre cidade e campo”[82] e “uma distribuição igual do rendimento”[83]. Este modelo é regido por uma lei de valor nacional e socialista (por oposição a uma lei de valor nacional que caracteriza o modelo estatista e a submissão à lei de valor mundial no modelo capitalista periférico).
No seu balanço do maoismo, Amin não se limita a evidenciar os seus ganhos. Mostra também os seus limites. Dois entres eles são particularmente sublinhados:
“1) a contradição entre, por um lado, o tipo de planificação e de gestão administrativa da economia e, por outro, a vontade de instaurar um verdadeiro poder popular a todos os níveis;
2) a insuficiência da prática democrática”[84].
Isto é devido ao facto de que “a crítica do revisionismo na China nunca foi além desta conclusão que colocaria em causa o julgamento que se poderia fazer do conjunto do período estalinista a partir de 1930”.[85] Em suma, o maoismo não teria rompido completamente com o estalinismoe de uma maneira mais geral com o marxismo da IIIª Internacional.
Para Amin, é à volta da superação destes dois limites que se joga o futuro da experiência chinesa. Se uma certa abertura económica e uma extensão das relações mercantis são desejáveis e necessárias nas condições da China da época, devem ser acompanhadas de uma profunda democratização política e económica: o reforço do poder dos trabalhadores na gestão da economia que articularia plano e mercado e uma democracia socialista que “não seria inferior em nada à democracia burguesa”[86]. Assim, apenas “o aprofundamento de uma democracia de massas constitui o meio de ir além da fase 1950-78.”[87] O que o leva a ser particularmente cético face à viragem empreendida pela direção do partido comunista chinês sob a influência crescente de Deng Xiaoping.

Samir Amin. Foto de Skill Lab.
A longa transição para o socialismo
No mesmo livro, Samir Amin nota que a transição para o comunismo será longa por três razões[88]:
1- os efeitos da lei do desenvolvimento desigual de que já falámos e que fazem da periferia a zona das tempestades e dos avanços para o socialismo como todos os desafios que isso comporta (nomeadamente o desenvolvimento das forças produtivas);
2- “as vias da passagem do sistema de exploração atual para a abolição das classes são totalmente desconhecidas”[89] nos países do centro;
3- “o sistema internacional dos Estados e das nações subsistirá ainda muito tempo”[90].
Esta passagem prefigura a clara evolução da sua perceção sobre a transição para o socialismo explicitada na sua “autobiografia intelectual”:
“Cheguei finalmente, a partir de meados dos anos 1980, a uma conclusão nova: que o marxismo histórico, porque tinha subestimado a gravidade dos problemas criados pela polarização mundial, tinha colocado a questão da transição em termos incorretos (revolução burguesa ou revolução socialista...), enquanto que a verdadeira questão na ordem do dia da história era a de uma longa evolução “para além do capitalismo”, de carácter nacional popular, fundada nas desconexão e no reconhecimento do conflito reaal entre as tendências do capitalismo e as forças que aspiram ao socialismo.”[91]
Esta evolução surge claramente num dos seus livros importantes publicado precisamente em meados dos anos 1980, a saber A desconexão. Aqui se encontra esta mesma ideia de “uma “transição” - do capitalismo e a longo termo – para o socialismo”[92] que “não é linear”[93] cujo “ponto de chegada, ainda muito longínquo”[94], é amplamente desconhecido”[95]. Nas sociedades que conheceram revoluções “socialistas”, o resultado desta transição é incerto. Coexistem aí três tendências: estatista, socialista e capitalista[96]. No caso da URSS, a tendência estatista leva a melhor [97]. Na China, a é “menos desiquilibrada a favor do impasse estatista”[98]. Mas ela “está ameaçada de uma evolução possível do mesmo género”[99]. A transição para o socialismo é assim incerta, complexa, cheia de perigos... Samir Amin vai mais longe já não qualificando a estratégia de desenvolvimento exposta no Futuro do Maoismo como socialista (como o tinha feito anteriormente) mas como via de “desenvolvimento nacional popular que pode conduzir ao socialismo”[100]. Com efeito, a igualdade de rendimentos (que caracteriza o modelo maoista segundo Amin) “não é uma condição suficiente para o desenvolvimento socialista. A questão do poder efetivo dos trabalhadores nos locais de produção e na sociedade política, ultrapassa em muito a da “distribuição do rendimento”[101]. Amin retoma também os mesmos argumentos mobilizados para justificar esta inflexão: Os efeitos da lei de desenvolvimento desigual [102] e a persistência do sistema dos Estados-Nação durante um longo período. Esta evolução na reflexão sobre a estratégia de transição para o socialismo é acompanhada de uma preocupação maior pelas considerações táticas.
Estas “impõem-se por numerosas razões evidentes. A principal delas é que os povos da periferia não estão igualmente amadurecidos para encetar uma desconexão socialista. Entretanto, têm de lidar com a globalização capitalista e, por isso, é necessário lutar por modalidades desta que sejam as menos desfavoráveis ao amadurecimento subsequente da sua libertação”.[103] Neste caso, uma “política eficaz é a que consegue mobilizar” [104] “as contradições secundárias diversas entre centros imperialistas concorrentes, entre burguesias dependentes da periferia, entre os interesses de países que tenham passado por uma revolução socialista e os do sistema capitalista.”[105]
Desta forma, o objetivo imediato é
“tentar modular a evolução do sistema mundial no sentido de uma “ordem mundial melhor”, ou seja menos desigual (nos planos económico, cultural, político e militar) tanto ao nível dos equilíbrios internacionais quanto ao das relações sociais internas nas diferentes sociedades.”[106].
Trata-se de construir um “mundo multipolar”[107]. “A tática considerada constitui uma “política de alargamento das margens de autonomia dos Estados, das nações, dos povos e das classes exploradas”.”[108]
Esta evolução no pensamento de Samir Amin é originada nas mudanças que o mundo conheceu durante o fim dos anos 1970 e a década de 1980: refluxo dos movimentos de libertação nacional,
crise da dívida e implementação de programas de ajustamento estrutural, reformas económicas na China, crise e depois colapso do bloco de leste, ofensiva neoliberal e consolidação da hegemonia americana, emergência de novos movimentos sociais... É como se Samir Amin se desse conta da derrota que a esquerda (no sentido amplo) sofreu a qual devia fazer a sua auto-crítica.[109] O objetivo do comunismo afastava-se cada vez mais. A dificuldade e complexidade da tarefa revela-se claramente. Era preciso portanto deduzir as consequências que se imponham ao nível estratégico e tático.
Amin não cessará em seguida de desenvolver esta reflexão. Critica assim a visão dominante no seio do marxismo histórico de uma passagem relativamente rápida ao socialismo[110]. A construção do socialismo, “tendo em conta a realidade moldada pela implantação imperalista e a diversidade das conjunturas das lutas em curso, só pode ser gradual e diversa”[111]. “Prefere falar de avanços revolucionários na ordem do dia mais do que “revoluções” (cujo termo deixa entender que as soluções que elas trazem são “definitivas” e “totais”.”[112]
A transição é assim uma sucessão de “avanços revolucionários” que podem concretizar um avanço real assim como podem falhar. O socialismo é um possível entre outros e não uma fatalidade histórica. Assim, “o futuro está sempre em aberto”.[113] “Não há leis da história anteriores à própria história”[114]. “Em qualquer momento há diferentes alternativas possíveis e é apenas posteriormente que se impõe a ilusão que era a única possível, aquela cuja realização era inelutável”.[115]
O sucesso da transição para aquilo que ele chama o socialismo do século XXI depende da resolução justa de uma série de contradições e a confrontação bem sucedida com um conjunto de desafios[116]: “a democratização da sociedade libertando-a do domínio da lei do valor”, “a construção do mundo multipolar”, “repensar o Estado no sentido da democratização à escala nacional e mundial” e “a emergência de valores realmente universais”.
Durante esta longa transição, coexistirão duas “lógicas conflituais em combinação e contradição permanentes”[117]: a lógica privada do capital e aquela emergente da apropriação social inerente ao socialismo. Nesta perspetiva, o comunismo não está mais apenas ligado ao proletariado industrial mas “às largas maiorias de trabalhadores, apesar da diversidade dos seus estatutos”.[118]
Na periferia, a desconexão “relativamente ao sistema capitalista mundializado”[119], que “não é sinónimo de autarcia”[120], é uma condição necessária de qualquer avanço socialista” [121]. O desenvolvimento auto-centrado, que daí advém, é percebido como um longo processo conflitual que passará antes de mais pela chegada ao poder de um bloco nacional popular portador de um projeto de soberania popular[122]. Este apoia-se numa economia auto-centrada articulando uma industrialização integrada virada para o mercado interno e uma agricultura camponesa modernizada e revivificada[123]. Visa três objetivos: assegurar o progresso social para as classes populares, criar condições de uma democracia participativa e passar a uma fase de globalização negociada[124]. Este projeto necessita da socialização dos monopólios[125], cuja nacionalização é apenas a primeira fase uma vez que a aposta fundamental é tornar a sua propriedade/gestão realmente [126].
Nesta perspetiva, a China ocupa um lugar importante. Do seu futuro depende em parte o projeto socialista. Amin entende as mudanças nela ocorridas desde o fim dos anos 1970 como um processo contraditório e aberto uma vez que “o combate entre a via socialista, longa e difícil, e a opção capitalista nos locais de trabalho não está certamente “definitivamente ultrapassado”.”[127]. Pensa mesmo que
“a classe dominante na China não é “a burguesis”. Mas a classe dirigente de um partido-Estado, uma classe constituída a partir de uma revolução popular. Nesta classe exprimem-se tendências contraditórias até mesmo doravante tendências consumistas e aspirações burguesas nacionais.”[128]. Para ele, o poder chinês “apesar de alimentar aspirações burguesas permanece contudo ambíguo. A China escolheu, num primeiro tempo, no curso dos anos 1990, inserir-se com sucesso no sistema mundial através da prioridade dada às exportações. Mas a partir de 2002 o tiro é corrigido gradualmente, no sentido de reduzir gradualmente a dependência face às exportações, em termos relativos, enquanto se acentua mais o mercado interno”[129]
Desta forma, apesar da “expansão” das relações de produção capitalistas no seu seio, a China não se teria ainda tornado capitalista. Distinguindo entre Thermidor que “significa um passo atrás para manter vivo o objetivo a longo prazo”[130] a restauração que quer dizer o seu “abandono”[131], Amin julga que a China vive mais uma situação thermidoriana. A restauração ainda não teve lugar como na URSS[132]. Um avanço substancial da revolução chinesa como a nacionalização da terra que permite ao campesinato aceder a esta não foi tocado[133]. Mas a China também não é socialista[134]. Assim “tendências contraditórias” coexistem no seu seio[135].
Alguns questionamentos
Fruto de um contexto particular, o pensamento de Samir Amin constituiu-se à volta da ligação indissociável entre desenvolvimento e socialismo. Este não deixará de evoluir à medida das transformações do mundo contemporâneo sem se afastar dos seus fundamentos teóricos e da militância política que lhe dava ânimo.
Convencido que o capitalismo tinha entrado na sua fase senil[136] em que o seu caráter destrutivo superava o seu caráter construtivo[137], Amin não parará de afirmar, durante quase quatro décadsa, que as duas alternativas que se apresentam à humanidade são as seguintes: revolução ou decadência[138]. A transição para um modo de produção ou é consciente e dominada, neste caso revolucionária, ou não o é e esse é o modelo da decadência.[139] Para que a primeira via prevaleça, a unidade das forças anti-capitalistas na sua diversidade é uma necessidade. Amin será um dos grandes promotores desta unidade apelando, num texto que voltou a divulgar antes de nos ter deixado, à “indispensável reconstrução da Internacional dos trabalhadores e dos povos”[140].
Mas a sua conceção de socialismo e dos problemas da transição dá azo, contudo, a uma série de questões:
1- Os efeitos da lei do desenvolvimento desigual fazem com que o socialismo esteja condenado, segundo Amin, a realizar os seus avanços revolucionários na periferia com todas as dificuldades que daí advêm: a necessidade de alcançar (desenvolver as forças produtivas) e de “fazer outra coisa” ao mesmo tempo, agressões imperialistas... Assim, “as transições socialistas ocorrerão necessariamente “num só país”.”[141] Daí, em parte, o seu caráter “longo”. Esta visão seria o último avatar da teoria num só país na sua versão boukhariana (o célebre “socialismo a passos de tartaruga”) que procurava preservar a aliança operária-camponesa? Algumas fórmulas explícitas de Amin encaminham-se nesse sentido: “Não há alternativa [há transição socialista num só país]; não haverá “revolução mundial”[142] Mas para além do debate que agitou o partido bolchevique sobre esta questão, é incontestável que esta teoria serviu como legitimação ao regime estalinista e aos seus satélites. Como fazer com que a história não se repita? Claro que Amin afirma que “a humanidade não se poderá envolver seriamente na construção de uma alternativa socialista ao capitalismo a não ser que as coisas mudem também no Ocidente desenvolvido.[143] Mas como se pode conceber concretamente esta articulação entre as lutas da periferia e as do centro? Quais são as forças políticas e sociais que podem, neste último, defender esta reivindicação?
2- Uma segunda questão tem a ver com a forma como Amin caracteriza o estalinismo. Este é percebido como sendo uma conceção errónea do marxismo e da construção do socialismo que conduz ao “estatismo”. Algumas fórmulas infelizes utilizadas por Amin que o caracteriza como “socialismo de Estado” [144] parecem ir nesse sentido. Ora, em quase nenhum momento, que eu tenha conhecimento, este “desvio estatista” surge ligado, nos seus escritos, ao processo de “burocratização” do partido e do Estado revolucionário empreendida muito antes dos anos 1930[ 145]. Porque neste último caso, o estalinismo triunfante seria mais a concretização deste processo e não o seu ponto de partido. Seria assim o efeito e o vetor da contra-revolução “burocrática”. A ocultação deste aspeto explica talvez que as razões profundas dos processos de burocratização dos aparelhos “revolucionários” sejam sub-analisadas na reflexão de Amin sobre a democracia [146]. Estaria isto também ligado à incapacidade do maoismo assimilar estas questões devido à sua rutura parcial com o estalinismo? [147]
3- A última questão diz respeito à análise “aminiana” da China contemporânea que não seria, segundo ele, nem socialista nem capitalista. Como se poderia então qualificar? Uma sociedade de transição? Mas a caminho de quê: o socialismo, o capitalismo ou um novo modo de produção baseado em outras formas de exploração? Quais são as relações de produção dominantes na China atualmente? A história do capitalismo não provará que ele pode acomodar-se e até lucrar com forma de propriedade “não capitalistas” (como seria o caso da propriedade da terra na China[148])? O emburguesamento da classe dominante chinesa, saída da revolução e solidamente estabelecida de forma a poder-se reproduzi, que se envolveu direta ou indiretamente na exploração capitalista de milhões de operários chineses em ligação com o capital estrangeiro[149] não será um sinal de dominação do capitalismo?
Estas interrogações desenham três desafios colocados àqueles que esperam continuar o trabalho preciso feito por Samir Amin para pensar o desenvolvimento e o socialismo numa perspetiva do Sul: reatualizar/renovar a reflexão sobre as lutas anti-imperialistas no centro e a sua articulação com os avanços revolucionários na periferia[150], integrar a análise das origens profundas dos processos de burocratização das organizações e dos Estados revolucionários em todo o pensamento sobre o aprofundamento/preservação da democracia/poder popular ou socialista e desenvolver uma abordagem crítica e lúcida sobre as evoluções na China.
Texto publicado na revista Contretemps. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.
Bibliografia:
Demba Moussa Dembélé, Samir Amin : Intellectuel organique au service de l’émancipation du Sud, Dakar, CODESRIA, 2011.
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Samir Amin, Classe et nation dans l’histoire et la crise contemporaine, Paris, Minuit, 1979.
Samir Amin, « La libération nationale et la transition socialiste », Revue L’homme et la société, n°55-58, janvier-décembre 1980.
Samir Amin, « Révolution ou décadence? La crise du système impérialiste contemporain et celle de l’Empire romain », Review (Fernand Braudel Center), Vol. 4, No. 1, Summer, 1980.
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Samir Amin, L’implosion du capitalisme contemporain, Paris, Editions Delga, 2012
Samir Amin, « The Sovereign Popular Project; The Alternative to Liberal Globalization », Journal of Labor and Society, Volume 20, March 2017.
Samir Amin, Le bicentenaire de la naissance de Marx (1818-2018), Paris, Editions Delga, 2018.
Tricontinental: Institute for Social Research, « Globalisation and Its Alternative : An Interview with Samir Amin. », Political Notebook no. 1, 2018
Notas:
[1] Ver a longa entrevista com ele em Demba Moussa Dembélé, Samir Amin : Intellectuel organique au service de l’émancipation du Sud, Dakar, CODESRIA, 2011. p. 66.
[2] Ibidem.
[3] Ibid p. 69
[4] Ibidem. Amin precisa: “Em termos materiais, pela prioridade dada às necessidades essenciais das classes populares, partindo dos mais pobres. Em termos políticos, dando à expressão dos direitos democráticos o lugar maior no exercício do poder. Em termos morais, através da restauração da dignidade dos povos ultrajados”.
[5] Ibidem.
[6] Ibidem.
[7] Ibid. p. 70
[8] Ibidem.
[9] Este texto é a versão revista de uma comunicação apresentada no colóquio temático: “Pensar o desenvolvimento e a mundialização com Samir Amin”, organizado pela Associação Marroquina de Ciências Económicas por ocasião do seu 13º congresso em 28 de junho de 2019.
[10] “Fui um leitor precoce de Marx. Sentia-me politicamente, moralmente, mesmo na época da minha adolescência, próximo do comunismo. Já me declarava comunista quando era adolescente no liceu, sem saber muito bem o que isso podia querer dizer.” Ibid p. 15.
[11] Ver a biografia de Samir Amin in Ibid. p. 4.
[12] Samir Amin, Itinéraire intellectuel regards sur le demi-siècle, 1945-90, L’Harmattan, Paris, 1993. p. 21
[13] Ibidem.
[14] O jornal, que se chamava Etudiants Anticolonialistes, foi publicado entre 1949 e 1953. Era dirigido por Jacques Vergès. Ibidem.
[15] Ibidem.
[16] Ibid. p. 21-22.
[17] Ver o texto de Amin « Pour des initiatives indépendantes des pays du Sud » in Demba Moussa Dembélé, Samir Amin : Intellectuel organique au service de l’émancipation du Sud, op. cit. p. 178.
[18] Ibid. 177.
[19] Ibidem.
[20] “A doutrina Jdanov perseguia um objetivo prioritário: impor a coexistência pacífica e, por este meio, acalmar os ardores agressivos dos Estados Unidos e dos seus aliados subalternos europeus e japoneses. Em contrapartida, a União Soviética aceitaria adotar um perfil discreto, abstendo-se de se ingerir nos assuntos coloniais que as potências imperialistas concebiam como seus “assuntos internos”. Os movimentos de libertação, até a revolução chinesa, não foram apoiados com entusiasmo nesta época e impuseram-se por si mesmos, mas a sua vitória (em particular evidentemente a da China) trazia mudanças nas relações de forças internacionais”.Ibidem.
[21] “Posso, não obstante, trazer um testemunho pessoal que diz respeito a esta história, tendo tido a feliz oportunidade de participar a partir dos 1950 de um dos grupos de reflexão em causa, associando comunistas egípcios, iraquianos e iranianos e alguns outros”.Ibid. p. 178.
[22] Ibidem.
[23] Ibidem.
[24] Samir Amin, Itinéraire intellectuel regards sur le demi-siècle, 1945-90, op. cit. p. 39.
[25] Ibidem.
[26] Ibidem.
[27] Ver a longa entrevista com ele em Demba Moussa Dembélé, Samir Amin : Intellectuel organique au service de l’émancipation du Sud, op. cit. p. 21.
[28] Ibid. p. 60.
[29] Samir Amin, L’accumulation à l’échelle mondiale, Paris, Editions Anthropos, 1970.
[30] Samir Amin, Le développement inégal. Essai sur les formations sociales du capitalisme périphérique, Paris, Minuit, 1973.
[31] Ver a longa entrevista com ele em Demba Moussa Dembélé, Samir Amin : Intellectuel organique au service de l’émancipation du Sud, op. cit. p. 60
[32] Samir Amin, La loi de la valeur et le matérialisme historique, Paris, Minuit, 1977.
[33] Samir Amin, La loi de la valeur mondialisée, Paris, Le Temps des cerises/Delga, 2011.
[34] Samir Amin, Classe et nation dans l’histoire et la crise contemporaine, Paris, Minuit, 1979.
[35] Ver a longa entrevista com ele em Demba Moussa Dembélé, Samir Amin : Intellectuel organique au service de l’émancipation du Sud, op. cit. p. 60.
[36] Ibid. pp. 17-20.
[37] https://www.legrandsoir.info/samir-amin-marx-n-a-jamais-ete-aussi-utile.html
[38] Samir Amin, Itinéraire intellectuel regards sur le demi-siècle, 1945-90, op. cit. p. 39.
[39] Samir Amin, « Capitalisme et système-monde », Sociologie et sociétés, vol. XXIV, no 2, automne 1992 in
[40] Ibid.
[41] Samir Amin, Le développement inégal. Essai sur les formations sociales du capitalisme périphérique, op. cit. p. 336.
[42] Ver a longa entrevista com ele em Demba Moussa Dembélé, Samir Amin : Intellectuel organique au service de l’émancipation du Sud, op. cit. p. 25.
[43] Samir Amin, Le développement inégal. Essai sur les formations sociales du capitalisme périphérique, op. cit. p. 336
[44] Ver a longa entrevista com ele em Demba Moussa Dembélé, Samir Amin : Intellectuel organique au service de l’émancipation du Sud, op. cit. p. 64.
[45] Ibidem.
[46] Sobre a teoria da dependência ver Fernando Henrique Cardoso, « « Théorie de la dépendance » ou analyses concrètes de situations de dépendance » L’Homme et la société, N. 33-34, 1974 e sobretudo Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto, Dependency and Development in Latin America, University of California Press, Berkeley, 1979.
[47] Demba Moussa Dembélé, Samir Amin : Intellectuel organique au service de l’émancipation du Sud, op. cit. p. 66.
[48] Ibidem
[49] Ibidem
[50] Ibidem
[51] Ibid p. 66 . “Eis, não divergências, mas pontos de complementaridade entre a teoria da “dependencia” e a minha teoria da acumulação à escala mundial”.
[52] Samir Amin, Itinéraire intellectuel regards sur le demi-siècle, 1945-90, op. cit. p. 8. Ver também a sua tomada de posição no debate entre Bettelheim e Emmanuel sobre o sujeito revolucionário (proletariados ou nações proletárias) à luz da discussão sobre a troca desigual na longa introdução de L’accumulation à l’échelle mondiale, op. cit. pp. 42-50.
[53] Ibid p. 62.
[54] “Vivi, enquanto egípcio, a experiência nasseriana e, sem nenhum gabarolice da minha parte, quero lembrar que desde 1960 defendia que a lógica do sistema nasseriano deveria conduzir ao que se desenvolveu abertamente a partir de 1971 com a infitah sadatiana (a “abertura”): o regresso ao lar da mercantilização (…). Este julgamento, na época rejeitado como absurdo pela grande maioria dos grupos da esquerda egípcia e internacional levou-me a juntar-me nas grandes linhas à crítica que o PC Chinês fazia em linguagem ainda codificada à direção soviética desde 1957-58”s. Ibid. p. 163.
[55] Ibidem.
[56] Samir Amin, Le développement inégal. Essai sur les formations sociales du capitalisme périphérique, op. cit. p. 325.
[57] Ibidem.
[58] Ibidem.
[59] Ibid p. 325-326.
[60] Qualificativos dos quais ele diz ter “criticado as ambiguidades”. Samir Amin, Itinéraire intellectuel regards sur le demi-siècle, 1945-90, op. cit. p. 165.
[61] Ibid. p. 62.
[62] Samir Amin, Le développement inégal. Essai sur les formations sociales du capitalisme périphérique, op. cit. p. 326.
[63] Samir Amin, Itinéraire intellectuel regards sur le demi-siècle, 1945-90, op. cit. p. 168.
[64] Esta ideia está igualmente desenvolvida em Samir Amin, « La libération nationale et la transition socialiste », Revue L’homme et la société, n°55-58, janvier-décembre 1980, ver a seção sobre a natureza social da sociedade soviética.
[65] “Os factos mostraram que estava errado. Não apenas o regime soviético se revelou instável mas ainda a ofensiva da direita mundial, a partir de 1980, vai num sentido inverso: desregulação, privatização são os seus temas que vão de vento em poupa.” Samir Amin, Itinéraire intellectuel regards sur le demi-siècle, 1945-90, op. cit. p. 169.
[66] Ibid. p. 166
[67] Ibidem.
[68] Ibidem.
[69] Ibidem. Nomeadamente « ses conceptions concernant la neutralité sociale des technologies. » Ibidem. Ver também a análise de Bettelheim daquilo a que ele chama “a formação ideológica bolchevique” in Charles Bettelheim, Les Luttes de classes en URSS – Deuxième période, 1923-1930, Paris, Seuil/Maspero, 1977.
[70] Samir Amin, Le développement inégal. Essai sur les formations sociales du capitalisme périphérique, op. cit. p. 326.
[71] Samir Amin, Itinéraire intellectuel regards sur le demi-siècle, 1945-90, op. cit. p. 101.
[72] Ibid p. 60.
[73] Ibidem.
[74] Ibidem.
[75] Mao Tsé-toung, « Sur les dix grands rapports », 1956.
[76] Samir Amin, L’avenir du Maoïsme, Paris, Minuit, 1981 p. 57.
[77] Ibidem.
[78] Ibidem.
[79] Ibidem.
[80] Ibid p. 7.
[81] Ibidem.
[82] Ibidem.
[83] Ibidem.
[84] Ibid. p. 91.
[85] Ibid. p. 112.
[86] Ibid p. 121
[87] Ibid p. 105.
[88] Ibid. p. 119-120.
[89] Ibidem.
[90] Ibidem.
[91] Samir Amin, Itinéraire intellectuel regards sur le demi-siècle, 1945-90, p. 155.
[92] Samir Amin, La déconnexion, Paris, La Découverte, 1986 p. 97.
[93] Ibidem.
[94] Ibidem.
[95] Ibidem.
[96] Ibid. p. 45.
[97] Ibid p. 46.
[98] Ibidem.
[99] Ibid. p. 136.
[100] Ibid. p. 115.
[101] Ibid p. 116.
[102] “Dito de outra forma, na linha do leninismo, partimos da hipótese de uma transição mundial para o socialismo iniciada por ruturas do sistema nos seus elos mais fracos. Daí a transição permanecer ambígua e incompleta uma vez que a existência do desenvolvimento das forças produtivas permanece real” Ibid p. 191.
[103] Ibid p. 117.
[104] Ibid p. 118.
[105] Ibid p. 117-118.
[106] Ibid p. 118.
[107] Ibidem.
[108] Ibid p. 129.
[109] Ibid p. 175.
[110] Samir Amin, Sur la crise : Sortir de la crise du capitalisme ou sortir du capitalisme en crise, Paris, le Temps des cerises, 2009.
[111] Samir Amin, Du capitalisme à la civilisation, Paris, Syllepse, 2008 p. 37.
[112] Ibidem.
[113] Ibid p. 10.
[114] Ibidem.
[115] Ibidem.
[116] Ibid p. 238-239.
[117] Ibid p. 240.
[118] Ibidem.
[119] Samir Amin, La déconnexion, op. cit. p. 5.
[120] Ibid p. 108. Samir Amin precisa que o sentido que ele atribui à desconexão é a “organização de um sistema de critérios de racionalidade das escolhas económicas fundado sobre uma lei de valor de base nacional e conteúdo popular, independente dos critérios da racionalidade económicas que resultam da dominação da lei de valor capitalista operando à escala mundial.”p. 108
[121] Ibid p. 6.
[122] Samir Amin, « The Sovereign Popular Project; The Alternative to Liberal Globalization », Journal of Labor and Society, Volume 20, March 2017.
[123] Ibid p. 21.
[124] Ibid p. 22.
[125] Samir Amin, L’implosion du capitalisme contemporain, Editions Delga, Paris, 2012.
[126] Ibid. Amin propõe formas de gestão destes monopólios que associam todas as “partes interessadas”: assalariados, clientes, fornecedores, consumidores/utilizadores, poder central, poderes locais...
[127] Samir Amin, du capitalisme à la civilisation, op. cit. p. 52.
[128] Ver a longa entrevista com ele em Demba Moussa Dembélé, Samir Amin : Intellectuel organique au service de l’émancipation du Sud, op. cit. p. 51.
[129] Ibid p. 68
[130] Ver: Tricontinental: Institute for Social Research, « Globalisation and Its Alternative : An Interview with Samir Amin. », Political Notebook no. 1, 2018 p. 19.
[131] Ibid.
[132] Ibid.
[133] Ibid.
[134] Ibid p. 20.
[135] Ibid.
[136] https://www.legrandsoir.info/le-capitalisme-entre-dans-sa-phase-senile.html (Consultado em 07/06/2019)
[137] Samir Amin, Au-delà du capitalisme sénile : Pour un XXIe siècle non-américain, PUF, Paris, 2002.
[138] Samir Amin, « Révolution ou décadence? La crise du système impérialiste contemporain et celle de l’Empire romain », Review (Fernand Braudel Center), Vol. 4, No. 1, Summer, 1980. Ver também a conclusão do seu livro Classe et nation dans l’histoire et la crise contemporaine, op. cit.
[139] Ibid.
[140] http://www.afrique-asie.fr/lindispensable-reconstruction-de-linternationale-des-travailleurs-et-des-peuples/. (Consultado em 05/09/2018).
[141] Samir Amin, Le bicentenaire de la naissance de Marx (1818-2018), Paris, Editions Delga, 2018 p. 16.
[142] Ibid.
[143] Samir Amin, du capitalisme à la civilisation, op. cit. p. 43
[144] Samir Amin, Le bicentenaire de la naissance de Marx (1818-2018), op. cit. p. 59.
[145] Um processo de burocratização por cima mas também por baixo (segundo Marc Ferro). Ver Daniel Bensaid, « Questions d’Octobre. La révolution russe était-elle un coup d’État, condamnée et prématurée ? » in http://danielbensaid.org/Questions-d-Octobre
[146] Enquanto que desde Robert Michels pelo menos existem trabalhos “sérios” que analisam o fenómeno da burocratização do movimento dos trabalhadores e das suas instituições.
[147] O que explica em parte o decorrer e desenlace do episódio “revolução cultural”.
[148] Assim a manutenção deste sistema deixaria a proletarização do campesinato incompleta “fornecendo ao capitalismo transnacional uma mão de obra abundante com salários inferiores ao seu custo de reprodução” (Jean Mathieu, « Prolétarisation incomplète et miracle économique chinois : entre héritage collectiviste et capitalisme transnational », Revue de la régulation [En ligne], 21 | 1er semestre / Spring 2017, mis en ligne le 20 juin 2017, consultado a 10 de dezembro de 2020. URL: http://journals.openedition.org/regulation/12254 ; DOI : 10.4000/regulation.12254). Sobre a história da descoletivização e os seus efeitos no campesinato na China ver também Zhun Xu, From Commune to Capitalism: How China’s Peasants Lost Collective Farming and Gained Urban Poverty, Monthly Review Press, New York, 2018.
[149] Basta seguir os negócios florescentes de certos “príncipes vermelhos”, filhos ou filhas de antigos ou de atuais altos dirigentes do partido comunista chinês.
[150] A última vaga de lutas anti-racistas e anticolonialistas levadas a cabo pelo proletariado/sub-proletariado “não branco” nos países do centro imperialista deveriam estimular a reflexão. Estas categorias parecem ser os aliados mais “próximos” dos povos da periferia. Ver por exemplo: https://venezuelainfos.wordpress.com/2020/08/31/huit-theses-sur-limperialisme-americain-et-les-luttes-anti-imperialistes-au-21eme-siecle-par-ramon-grosfoguel/ (consultado em 01/09/2020).