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Bolívia: Auditoria da OEA aponta irregularidades, mas não põe em causa vitória de Morales

O relatório da auditoria promovida pela Organização dos Estados Americanos centra as suas suspeitas nos últimos 5% dos votos contados, que ampliaram a vantagem de Evo Morales acima da fasquia dos 10% face ao opositor. MAS reúne congresso extraordinário este sábado.
Palácio do governo em La Paz. Foto de Pierre Doyen/Flickr

Foram divulgados esta semana os resultados da auditoria promovida pela Organização dos Estados Americanos ao processo de contagem dos votos nas eleições de outubro na Bolívia. A OEA diz que não pode validar o resultado, tal como já o tinha feito antes da auditoria, recomendando a repetição da eleição.

No relatório da auditoria são apontadas várias irregularidades, como a introdução de servidores não previstos na infraestrutura tecnológica da contagem de votos, a decisão do Tribunal Eleitoral de suspender a transmissão dos resultados preliminares na noite eleitoral — que deu lugar à desconfiança e aos protestos nas ruas que abriram caminho ao golpe que afastou Evo Morales da presidência —, mas também irregularidades em várias atas eleitorais.

“A análise estatística realizada revela que a vitória na primeira volta de Evo Morales foi estatisticamente improvável, e que a sua proclamação aconteceu devido a um aumento massivo e inexplicável dos votos no MAS nos 5% finais da contagem”, apontam os auditores da OEA, reconhecendo que “sem esse aumento, embora o MAS tivesse conseguido a maioria dos votos, não alcançaria a diferença de 10% necessária para evitar a segunda volta”.

Esta alteração na tendência de voto nas últimas urnas contadas “é extremamente invulgar e coloca em causa a credibilidade do processo”, conclui a auditoria, acrescentando que “as manipulações e irregularidades assinaladas não permitem ter a certeza sobre a margem de vitória do candidato Morales sobre o candidato Mesa”.

Para os apoiantes de Morales, há uma explicação para essa diferença na tendência dos resultados. “Os auditores não compreendem o peso que chegam a ter os votos da área rural” em Morales, afirma Henry Párraga, dirigente do Movimiento Al Socialismo (MAS) ao jornal La Voz Tarija. Para este dirigente do partido de Morales, as conclusões da auditoria são tardias e contradizem as declarações anteriores do secretário-geral da OEA, que tinha dito que houve uma “grande fraude” nas eleições. “No caso de Tarija não houve nenhum tipo de fraude de acordo com o relatório da OEA”, acrescentou o dirigente do MAS.

MAS reúne apoiantes este fim de semana em Cochabamba

Para este sábado está marcado um congresso nacional do partido de Evo Morales, o primeiro da sua história sem a presença do presidente deposto e do seu vice, Alvaro Garcia Linera, exilados no México desde o golpe patrocinado pela direita com apoio do exército. O encontro de Cochabamba irá juntar não apenas militantes do partido, mas também ativistas e organizações sociais que estiveram ao lado de Morales.

O objetivo do encontro é preparar a participação nas eleições que deverão ter lugar no próximo ano e responder à perseguição política de que o partido tem sido alvo por parte dos atuais detentores do poder. Entre os nomes apontados para a corrida presidencial estão vários deputados e senadores, além dos ex-ministros Luís Arce e David Choquehuanca, a presidente do Senado Eva Copa ou o ex-embaixador em Haia Eduardo Rodríguez.

Este congresso realiza-se numa altura em que a direita que tomou as rédeas do governo continua a ameaçar o principal partido da Bolívia de não poder vir a participar nas eleições. A partir do México, Evo Morales acusou os líderes golpistas de terem medo da força do partido e dos movimentos sociais.

Comissão Interamericana de Direitos Humanos quer investigar massacres de Em Alto e Cochabamba

Esta semana, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) afirmou que não existem garantias por parte do governo saído do golpe que permitam uma investigação imparcial à repressão levada a cabo por polícias e militares após a renúncia de Evo Morales.

Francisco José Eguiguren, relator da organização, apelou à constituição de um grupo internacional e interdisciplinar de peritos para investigar os acontecimentos dessas semanas, nomeadamente “os dois massacres já verificados, um em El Alto e outro em Cochabamba”, onde foram mortalmente baleadas pelo menos 14 pessoas.

Eguiguren afirma ser “muito alarmante constatar que um destes massacres aconteceu no dia seguinte ao anúncio de um decreto muito questionável, no qual o governo interino aprovou a intervenlção das Forças Armadas, que estariam isentas de investigação e responsabilidade”.

Uma delegação de juristas e ativistas argentinos apresentou esta quinta-feira na sede do sindicato de jornalistas de Buenos Aires o relatório preliminar da sua visita à Bolívia para verificar as violações dos direitos humanos após o golpe. A delegação queixou-se das ameaças do ministro Arturo Murillo e a ação de milícias que os impediram de contactar a população nalguns locais previstos no seu programa.

Estes observadores registaram a ação de “grupos de choque dedicados diariamente a violentar as comunidades originárias que habita em La Paz”, com disparos a partir de helicópteros. Muitos dos feridos recusam-se a ir ao hospital com receio de serem detidos à chegada.

Uma delegação da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos do Parlasur — o parlamento dos países do Mercosur — calculou esta semana que desde a tomada de posse do novo governo, a repressão tenha feito 32 mortos, 832 feridos e 1513 detidos.

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