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Bérgamo, o massacre que os patrões não quiseram evitar

A área de Itália mais devastada pela covid-19 é um grande polo industrial. Nunca foi declarada zona vermelha devido às pressões dos empresários. O custo em vidas humanas foi catastrófico. Artigo de Alba Sidera.
Trabalhadora italiana costura máscara de proteção. Abril de 2020. Foto de FABIO FRUSTACI/EPA/LUSA.
Trabalhadora italiana costura máscara de proteção. Abril de 2020. Foto de FABIO FRUSTACI/EPA/LUSA.

Há imagens que marcam uma época, que ficam gravadas no imaginário coletivo de um país. A imagem que os italianos não poderão esquecer durante muitos anos é a que fotografaram os habitantes de Bérgamo a partir das suas janelas na noite de 18 de março. Setenta camiões militares cruzaram a cidade no meio de um silêncio sepulcral, uns atrás dos outros, em marcha lenta em sinal de respeito: transportavam cadáveres. Levavam-nos a outras cidades fora da Lombardia porque o cemitério, o tanatório, a igreja convertida em tanatório de emergência e o crematório em funcionamento 24 horas por dia já não eram suficientes. A imagem plasmava a magnitude da tragédia em curso na área de Itália mais afetada pelo coronavírus. No dia seguinte, o país amanheceu com a notícia de que era o primeiro no mundo em mortes oficiais por covid-19, a maioria na Lombardia. Mas porque acontece precisamente em Bérgamo esta situação tão dramática? O que se passou nesta zona para que em março de 2020 tenham ocorrido mais 400 por cento de mortos do que no mesmo mês do ano anterior?

A 23 de fevereiro, os casos positivos de coronavírus na província de Bérgamo eram apenas 2. Numa semana, chegavam já aos 220; quase todos em Val Seriana. Em Codogno, uma povoação lombarda onde a 21 de fevereiro se detetou o primeiro caso oficial de coronavírus, bastaram 50 casos diagnosticados para encerrar a cidade e declará-la zona vermelha. Por que não se fez o mesmo em Val Seriana? Porque neste vale do rio Serio se concentra um dos polos industriais mais importantes de Itália e a entidade patronal industrial pressionou todas as instituições para evitar que se encerrassem as suas fábricas e perdesse dinheiro. E assim, por incrível que pareça, a zona com mais mortes por coronavírus por habitante em Itália – e da Europa – nunca foi declarada zona vermelha, apesar do espanto dos presidentes de câmara que a reivindicavam e dos cidadãos que agora exigem responsabilidades. Os médicos de família de Val Seriana são os primeiros a falar de forma clara: se se tivesse declarado zona vermelha, como aconselhavam os especialistas, tinham-se salvado centenas de pessoas, asseguram, impotentes.

A história é ainda mais sombria: quem tem interesse em manter as fábricas abertas são, em alguns casos, os mesmos que têm interesses nas clínicas privadas. A Lombardia é a região italiana que melhor representa o modelo de mercantilização da saúde e foi vítima de um sistema corrupto de grande escala liderado pelo que foi seu governador durante 18 anos (de 1995 a 2013), Roberto Formigoni, membro destacado do Comunhão e Libertação. Era do partido de Berlusconi, que o definia como “governador vitalício da Lombardia”, mas contou sempre com o apoio da Liga, que governa a região desde que Formigoni saiu, acusado – e depois condenado – por corrupção na área da saúde. O seu sucessor, Roberto Maroni, iniciou em 2017 uma reforma da saúde que cortou ainda mais nos investimentos na saúde pública e que praticamente aboliu a figura do médico de família, substituindo-a pela de “gestor”. “É verdade, nos próximos 5 anos desaparecerão 45.000 médicos de família, pois, quem vai ainda ao médico de família?”, disse destemido em agosto do ano passado o político da Liga, Giancarlo Giorgetti, então vice-secretário de estado do Governo Conte-Salvini.

A epidemia na zona de Bérgamo, a chamada Bergamasca, iniciou-se oficialmente na tarde de domingo de 23 de fevereiro, ainda que os médicos de família – na primeira linha da denúncia da situação – asseguram que já desde finais de dezembro atendiam muitíssimos casos de pneumonias anómalas em pessoas até de 40 anos. No hospital Pesenti Fenaroli, de Alzano Lombardo, um município de 13.760 habitantes a poucos quilómetros de Bérgamo, nesse 23 de fevereiro chegaram os resultados dos testes de coronavírus de dois pacientes internados: eram positivos. Dado que ambos haviam estado em contacto com outros pacientes e com médicos e enfermeiros, a direção do hospital decidiu encerrar portas. Mas, sem nenhuma explicação, reabriram-nas poucas horas depois, sem desinfetar as instalações nem isolar os pacientes com covid-19. E mais: o pessoal médico esteve uma semana a trabalhar sem proteção; um número elevado de profissionais de saúde do hospital contagiou-se e espalhou o vírus pela população. Os contágios multiplicaram-se por todo o vale. O hospital originou o primeiro grande foco de infeção: os pacientes admitidos por um simples problema na anca acabavam por morrer por infeção de coronavírus.

Os presidentes dos dois municípios mais afetados de Val Seriana, Nembro e Alzano Lombardo, esperavam a cada dia às sete da tarde que lhes chegasse a ordem para confinar a população, que era o que haviam acordado. Tudo estava pronto: as ordens redigidas, o exército mobilizado; o chefe da polícia informou-os dos turnos de patrulhamento e as tendas de campanha foram montadas. Mas a ordem nunca chegou, e ninguém soube explicar porquê. Por outro lado, chegavam chamadas contínuas dos empresários e proprietários das fábricas da região, preocupadíssimos, querendo evitar a todo o custo o encerramento das suas atividades. Não se escondiam.

Sem nenhum pudor, a 28 de fevereiro, em plena emergência por coronavírus – em 5 dias foi atingido o número de 110 infetados oficiais na região, já fora de controlo –, a entidade patronal da indústria italiana, a Confindustria, iniciou uma campanha nas redes sociais com o hashtag #YesWeWork. “Temos de atenuar a situação, fazer entender à opinião pública que a situação se está a normalizar e que as pessoas podem voltar a viver como antes”, disse o presidente da Confindustria Lombardía, Marco Bonometti, nos meios de comunicação social.

No mesmo dia, a Confindustria Bergamo lançou a sua própria campanha dirigida aos investidores estrangeiros para convencê-los de que ali não se passava nada e que nem a brincar iam encerram. O seu slogan era inequívoco: “Bergamo non si ferma / Bergamo is running” (Bérgamo não para).

Confindustria. Foto do instagram da organização.

A mensagem do vídeo promocional para os parceiros internacionais era um absurdo: “Foram diagnosticados casos de coronavírus em Itália, mas como em muitos outros países”, minimizavam. E mentiam: “O risco de infeção é baixo”. Atiravam as culpas aos meios de comunicação social pelo injustificado alarmismo, e enquanto mostravam operários a trabalhar nas suas fábricas presumiam que todas as fábricas continuariam “abertas e em plena produção, como sempre”.

Apenas cinco dias depois estalou o enorme surto de contágios e mortes que acabou por ser o principal de Itália e da Europa. Mas nem assim retiraram a campanha, e muito menos consideraram fechar as fábricas. A Confindustria Bergamo agrupa 1.200 empresas que empregam mais de 80.000 trabalhadores. Todos foram expostos ao vírus, obrigados a ir trabalhar, em grande parte sem medidas adequadas – amontoados, sem distância de segurança nem material de proteção –, colocando-se a si e a todos em se redor em perigo.

O presidente do município de Bérgamo, Giorgio Gori, do Partido Democrático, também se havia unido ao clamor de não fechar a cidade e, a 1 de março, incentivava as pessoas a encher as lojas do centro com o slogan “Bérgamo não para”. Mais tarde, confrontado com as evidências da catástrofe, arrependeu-se e reconheceu que havia tomado medidas demasiado suaves para não prejudicar a atividade económica das poderosas empresas da região.

A 8 de março, os contágios oficiais na Bergamasca aumentaram, numa semana, de 220 para 997. À tarde começaram a surgir rumores que o Governo queria isolar a Lombardia. Depois de horas de caos em que muitos abandonaram Milão em debandada, Giuseppe Conte apareceu, já de madrugada, numa confusa conferência de imprensa através do Facebook para anunciar o decreto. Não era o que esperavam os presidentes dos municípios de Val Seriana: nada de zona vermelha, apenas laranja. Ou seja, restringiam-se as entradas e saídas dos municípios, mas toda a gente podia continuar a ir trabalhar.

Dois dias depois o confinamento estendeu-se a toda a Itália da mesma forma. E nada mudou na zona da Bergamasca, onde os contágios cresciam e cresciam ao mesmo ritmo imparável do das suas fábricas, a funcionar a todo o vapor. “Quando todos na região, sobretudo em Nembro e Alzano Lombardo, davam como certo que a zona vermelha seria declarada, algumas empresas importantes da região fizeram pressão para atrasá-la o mais possível”, conta Andrea Agazzi, secretário geral do sindicato FIOM Bérgamo, no programa Report, da RAI. E acrescenta: “A Confindustria jogou as suas cartas e o Governo escolheu de que lado estava”.

Os contágios e as mortes aumentaram de forma imparável, especialmente nas zonas industriais da Lombardia situadas entre Bérgamo e Brescia. Exatamente um mês depois do primeiro caso oficial de coronavírus em Itália, no sábado, 21 de março, atingiu-se o triste recorde de quase 800 mortos diários. Os governadores da Lombardia e Piamonte – outro grande polo industrial – declararam que a situação era insustentável e que era necessário parar a atividade produtiva. Conte, que até então se havia mostrado contrário à medida, apareceu de noite circunspeto para dizer que sim, agora sim, fechar-se-iam “todas as atividades económicas produtivas não essenciais”.

A Confindustria mobilizou-se de imediato e iniciou uma ofensiva de pressão ao Governo. “Não se podem fechar todas as atividades não essenciais”, diziam numa carta ao Premier na qual detalhavam as suas exigências. Os industriais conseguiram que o decreto demorasse 24 horas a ser aprovado e que Conte aceitasse as suas condições. De facto, o Governo tinha escolhido a que lado se ia juntar, e não era ao dos trabalhadores.

Os sindicatos, em bloco, puseram-se em pé de guerra e ameaçaram fazer uma greve geral se não fosse cumprido o encerramento real das atividades produtivas não essenciais. A Confindustria conseguiu que se acrescentasse à lista de atividades que podiam continuar a funcionar muitas que não eram de primeira necessidade, como as da indústria das arma e munições. Além do mais, incluíram uma espécie de cláusula que permitia, na prática, que qualquer empresa que declarasse ser “funcional” para uma atividade económica essencial pudesse permanecer aberta. Isto fez com que em apenas um dia, em Brescia, a outra província lombarda atingida pelo coronavírus, mais de 600 empresas que não estavam na lista de essenciais iniciassem os trâmites para poder continuar em funcionamento.

“Não entendo os motivos pelos quais os sindicatos querem fazer greve. O decreto já é muito restritivo: que mais há a fazer?”, disse, pouco empático, o presidente da Confindustria, Vincenzo Boccia. E acrescentou: “Já perdemos 100.000 milhões de euros por mês; não parar a economia beneficia todo o país”. Annamaria Furlan, secretária-geral do sindicato CSIL, tratou de explicar-lhe: “Sou sindicalista há 40 anos e nunca pedi o encerramento de nenhuma fábrica, mas agora é a vida das pessoas que está em perigo”.

Os trabalhadores das fábricas iniciaram protestos e paralisações enquanto os sindicatos negociavam com o Governo, que acabou por reconsiderar. Retiraram-se algumas atividades da lista das mais de oitenta consideradas essenciais, como a indústria armamentista ou os call-centres que vendem por telefone produtos não solicitados, e restringiu-se a indústria petroquímica. Também se acordou que não era suficiente a auto-certificação de uma empresa para passar a ser considerada funcional para uma empresa essencial, e o compromisso de tutelar o direito à saúde dos trabalhadores que continuassem nas fábricas. Contudo, permaneceram pontos ambíguos no decreto e há uma zona cinzenta que permite que muitas fábricas continuem abertas. Do mesmo modo, muitos operários continuam a trabalhar sem a devida distância de segurança e sem o material de proteção adequado.

As fábricas da Bergamasca continuaram praticamente todas abertas até 23 de março, quando os contágios oficias na região já eram quase 6.500. Uma semana depois, a 30 de março, e apesar do decreto de encerramento de “todas as atividades produtivas não essenciais”, havia 1.800 fábricas abertas e 8.670 infetados oficiais na região.

Chamemos pelos nomes as fábricas que não quiseram fechar. Uma das empresas da região é a Tenaris, líder mundial no fabrico de tubos e serviços para a exploração e produção de petróleo e gás, com uma faturação de 7.300 milhões de dólares e sede legal no Luxemburgo. Emprega 1.700 trabalhadores na sua fábrica da Bergamasca e pertence à família Rocca, com Gianfelice Rocca, o oitavo homem mais rico de Itália, como proprietário. Na província de Bérgamo, como em toda a Lombardia, a saúde privada é muito forte. Na Bergamasca, em concreto, metade dos serviços de saúde passam pelo privado. As duas clínicas privadas mais importantes da região, que faturam mais de 15 milhões de euros anuais cada, pertencem ao grupo San Donato – cujo presidente é nada mais nada menos que o ex-vice-primeiro ministro italiano Angelino Alfano, ex-sucessor de Berlusconi – e ao grupo Humanitas. O presidente da Humanitas é Gianfelice Rocca, também proprietário da Tenaris, a indústria que não quis mandar os seus trabalhadores para casa. A saúde privada bergamasca não foi chamada a participar na emergência do coronavírus até 8 de março, quando, por decreto, tiveram de adiar todos os serviços não urgentes. Só então começaram a ter lugar para os pacientes com covid-19.

Brembo é outra grande empresa com fábricas na Bergamasca. Pertence à poderosa família Bombassei, também metida na política: Alberto, o filho do fundador, foi deputado pelo Scelta Civica, o partido de Mario Monti. Tem 3.000 trabalhadores nas suas fábricas da zona de Bérgamo, onde produzem travões de carros. Faturam 2.600 milhões de euros. Não quiseram fechar.

A Val Seriana foi industrializada em grande medida por empresas suíças há mais de 100 anos, pelo que a presença de fábricas vinculadas à Suíça é ainda importante. Outra grande empresa que tem mais de 6.000 trabalhadores em Itália, mais de 850 na Bergamasca, é a ABB, com capital suíço e sueco. Líder em robótica, fatura mais de 2.000 milhões de euros. A 30 de março continuava aberta com toda a normalidade.

Persico, empresa italiana que produz componentes para o ramo automóvel, com 400 trabalhadores e 159 milhões de faturação, tem sede em Nembre, o município com mais mortes por covid-19 por habitante de Itália. Pierino Persico, o proprietário, foi um dos que mais se opôs a que ali fosse declarada zona vermelha.

Em Nembro, em março de 2019 morreram 14 pessoas. No mesmo mês deste ano morreram 123 (um aumento de 750 por cento). E ainda assim, os infetados oficiais são apenas 200. Em Alzano Lombardo, em março de 2019 morreram 9 pessoas; este março, 101. Na cidade de Bérgamo (de 120.000 habitantes) os mortos este março foram 553, enquanto que em março de 2019 foram 125. Os dados de infetados não são fiáveis porque não se fazem testes, e a Proteção Civil italiana – que faz a contagem – adverte que os números devem ser multiplicados pelo menos por dez. Segundo um estudo publicado pelo Giornale de Brescia, nesta província lombarda a cifra de infetados será 20 vezes superior ao oficial, ou seja, cerca de 15 por cento da população. E o mesmo se passa com o número de mortos. Segundo este estudo, será o dobro dos oficiais, ou seja, 3.000 apenas na província de Brescia. A falta de testes – aos vivos e aos mortos – impossibilita uma contagem fiável. O que de facto se sabe é que Itália é o país do mundo com mais falecidos por covid-19, à volta de 18.000, e a maioria são da região do norte industrial.

Neste momento, frente a milhares de cadáveres e a uma população que começa a converter a sua dor em raiva, todos sacodem as culpas. O governador da Lombardia, o leghista Attilio Fontana, culpa o governo central e assegura que não foi mais restritivo porque não o deixaram. Na verdade, se quisesse poderia tê-lo sido, como o foram os governadores de Emilia Romagna, Lazio e Campania, que decretaram zonas vermelhas nas suas regiões. A verdade é que nenhuma autoridade esteve à altura, exceto os presidentes dos municípios pequenos, que foram os únicos a reconhecer – e a denunciar publicamente – as pressões dos industriais, que os assediavam com chamadas para tentar de todas as formas evitar a prolongar a paralisação das fábricas. Numa Bérgamo ferida e ainda em choque, os cidadãos começam a organizar-se para pedir que se esclareçam os acontecimentos e que alguém assuma, pelo menos, a responsabilidade de ter permitido que os interesses económicos se sobrepusessem à saúde – ou seja, à vida – dos trabalhadores da bergamasca. Muitos deles, a propósito, precários.

Alba Sidera é jornalista. Trabalha com o jornal catalão El Punt Avui, com o Contexto e com o Mèdia.cat. É autora do livro “O fascismo persistente.”

Texto publicado no site ctxt.es a 10 de abril.

Tradução de João Garcia Rodrigues para o Esquerda.net.

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