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Ativistas em protesto à porta da COP25

A denúncia da presença do lóbi dos combustíveis fósseis nas negociações da cimeira e a resposta ao assassinato de dois líderes indígenas brasileiros deram o mote a vários protestos à margem da cimeira do clima em Madrid.
Ativistas indígenas à porta da COP25
Ativistas indígenas à porta da COP25 na ação de bloqueio esta segunda-feira. Imagem Extinction Rebellion.

Para além dos debates na Cimeira Social do Clima, os milhares de ativistas que se encontram em Madrid para exigir justiça climática têm organizado várias ações de protesto ou de desobediência civil para chamar a atenção para a falta de ação dos governos face à emergência climática.

Esta segunda-feira, dezenas de ativistas manchados de líquido negro, simbolizando o petróleo, carvão e gás, deitaram-se à porta da cimeira em protesto contra a presença das multinacionais dos combustíveis fósseis nos corredores do poder e da decisão desta COP25.

“Empresas contaminantes fora da COP” foi o slogan usado para atrair a atenção de quem tentava entrar no encontro. A ação de protesto foi organizada pelos grupos Ecologiastas en Acción, Asamblea Antimilitarista de Madrid e a Plataforma Desarma Madrid. Em declarações ao portal espanhol Público, um dos participantes sublinhou que “o patrocínio da cimeira oferece não apenas a oportunidade perfeita para estas multinacionais lavarem a sua imagem pública, apresentando-se como empresas responsáveis e comprometidas com o meio ambiente, mas também lhes permite aumentar o seu poder de influência nas negociações” em curso na COP25.

Ação contra os patrocinadores poluidores na COP25. 
Ação contra os patrocinadores poluidores na COP25. Imagem publicada pela Plataforma Desarma Madrid/Facebook.

A presença dessas multinacionais é visível no espaço na cimeira, incluindo na “zona verde” onde se juntam as organizações sociais e ambientais observadoras. Por entre os slogans da COP 25, pode ver-se um painel luminoso com a palavra Iberdrola e ao lado um painel branco com a marca da Endesa, considerada pelo Observatório para a Sustentabilidade como a empresa que mais contribui para a crise climática em Espanha.

Entre os patrocinadores da COP25 há também multinacionais da indústria automóvel, como a Volkswagen, uma das marcas responsáveis pela fraude nas emissões de CO2 dos seus automóveis, o BBVA, que está entre os grupos financeiros que mais investem em combustíveis fósseis, e entidades como o banco Santander, a Suez, Mapfre, Indra, Iberia e Siemens, entre outras.

Toxic Tour esta quinta-feira em Madrid. Toxic Tour esta quinta-feira em Madrid. Foto Friends of the Earth International/Flickr

Os protestos contra a presença destas empresas sucedem-se desde o início da cimeira, com os ambientalistas a promoverem a ação “Toxic Tour”, que percorria as sedes de algumas destas empresas em Madrid, denunciando-as pela poluição que emitem e pelo risco em que colocam o planeta. Mas depois do sucesso da primeira “Toxic Tour” na quinta-feira, a polícia decidiu interromper a segunda edição no sábado, identificando os ativistas que apresentavam o currículo ambiental da primeira etapa do dia, a sede do banco Santander. Face à ameaça da polícia de identificar e multar todos os presentes, a organização — Ecologistas en Acción, Observatório de Multinacionales en América Latina, Corporate Europe Observatory, Gastivists e Banktrack — decidiu cancelar essa excursão e as que já tinha agendadas.

Extinction Rebellion tentou acampar à porta da cimeira

Na madrugada de terça-feira, dezenas de ativistas do movimento Extinction Rebellion tentaram acampar junto à entrada da cimeira, como forma de protesto contra o assassinato de ativistas e defensores dos territórios indígenas. A tentativa de acampar à porta da COP25 foi frustrada pela ação policial, que retirou as tendas e identificou os participantes. Estes mantiveram-se no local até à abertura das portas da cimeira.

Este fim de semana foram assassinados a tiro dois líderes indígenas Guajajara no estado brasileiro do Maranhão. Os atiradores dispararam à passagem de um grupo de indígenas em motocicletas junto à aldeia El Betel, na Terra Indígena Cana Brava, que fica no município de Jenipapo dos Vieiras. Para além das duas vítimas mortais, o ataque feriu mais duas pessoas do mesmo grupo. Trata-se do segundo ataque mortal contra indígenas Guajajara em pouco mais de um mês, após o assassinato do guardião da floresta Paulo Paulino Guajajara no início de novembro.

O assassinato marcou também a ação dos grupos indígenas presentes em Madrid, através de um protesto na segunda-feira com bloqueio do acesso à COP ao início da tarde. “Já não é tempo de discutir, precisamos de uma estratégia de proteção territorial. Nós temos os nossos próprios mecanismos, sabemos defender as nossas terras. Somos apenas 5% da população, mas somos os maiores protetores da biodiversidade brasileira” afirmou Sandro Kayapó, da Minga Indígena, ao portal El Salto.

O bloqueio à COP contou com a presença do barco que tem sido a imagem dos protestos do Extinction Rebellion em Londres. O coletivo diz que os ataques aos guardiões da floresta, que protegem as terras da ação devastadora dos madeireiros, “fazem parte de uma estratégia a longo prazo do governo de Bolsonaro para debilitar a atual proteção legal e abrir as terras à exploração por parte do agronegócio”. Só em 2018, foram assassinadas pelo menos 164 ativistas em defesa dos territórios, a maior parte integrantes de comunidades indígenas, dizem as organizações ecologistas.

Termos relacionados COP-25 em Madrid, Ambiente
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