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Argentina: assim desaba o neoliberalismo

Ações das empresas perderam 80% do valor. Todos os setores económicos estão destroçados — inclusive petrolíferas e bancos. Crise social é dramática. Resta apenas uma dúvida: haverá bloqueio das contas bancárias, como em 2001? Por Alfredo Zaiat/Página 12/Outras Palavras.
Capilla del Monte, Córdoba, Argentina, novembro de 2014. Foto: Juan Montiel/Flickr.
Capilla del Monte, Córdoba, Argentina, novembro de 2014. Foto: Juan Montiel/Flickr.

São 97 as grandes empresas argentinas com ações cotadas na bolsa de valores de Buenos Aires. Os preços dessas ações definem o valor de mercado de cada uma delas. Em janeiro de 2018 o total desses valores alcançava 116 mil milhões de dólares. O índice MerVal atingia então o recorde de 1800 pontos. O dia seguinte às eleições "primárias, abertas, simultâneas e obrigatórias" (PASO), realizadas a 11 de agosto, foi quando se descobriu o tamanho da bolha especulativa criada pelo governo do presidente Mauricio Macri, através da emissão descontrolada de títulos de dívida pública pela taxa de juro mais alta do planeta; mecanismo, ademais, alavancado pela lavagem de capitais e pela reclassificação do mercado local de fronteiriço para emergente. Esvaziou-se se o balão e as cotações vieram por aí abaixo. O capital em ações derreteu do pico de 116 mil milhões para uns magros 24 mil milhões de dólares.

Este é um dos indicadores possíveis para medir o tamanho da catástrofe económica do ciclo político macrista: uma destruição de capital na ordem dos 92 mil milhões de dólares, para investidores locais e estrangeiros. A dimensão do estrago não deixa dúvidas: as empresas locais cotadas em bolsa perderam 80% do seu valor.

A recuperação das cotações nos últimos dias não muda as perdas no mercado nem a aversão que neste momento os grandes investidores nutrem diante do mercado argentino. A corrida contra os seus ativos continua.

A economia macrista não poupou da destruição nenhum nicho. Ela atingiu por igual as grandes empresas do país, como os bancos Galicia, BBVA, Macro e Supervielle, as empresas de energia Pampa, Edenor e Central Puerto, a petrolífera YPF, a empresa de telecomunicações Telecom, a Aluar, única processadora de alumínio primário do país, a agroindustrial Cresud e a operadora de TV por cabo Cablevisión, entre outras.

O preço das empresas argentinas está agora ao nível de uva mijona para tentar os grandes compradores internacionais. Resta ver se isso produzirá mais um desembarque desses capitais, tal como ocorreu nos anos 90, depois da hiperinflação, e no começo do presente século, depois do "corralito", da hiperdesvalorização do peso e da moratória da dívida. Nessa altura, as vendas ou transferências de controlo fizeram-se com os valores das empresas marcadamente desvalorizados.

55 e 55

O Instituto Argentino do Mercado de Capitais elabora um relatório diário da capitalização da bolsa, expressa em pesos. Ao cotejar esses dados com o câmbio diário obtém-se o valor em dólares das empresas locais. A sequência do ritmo de evaporação desse capital é notável:

  • Em janeiro de 2018 somava 116 mil milhões de dólares.
  • A 9 de agosto, a sexta-feira anterior às eleições PASO, era de 52,5 mil milhões de dólares.
  • A 12 de agosto, a segunda-feira depois da votação, caiu para 35,4 mil milhões de dólares.
  • No último dia de agosto, tinha caído para 23,7 mil milhões de dólares, uma queda de 55% desde 9 de agosto.

Estes números são bastante eloquentes para desmontar outra estratégia confusionista do discurso do governo, que afirma que as PASO foram o detonador das turbulências no mercado financeiro. Como se pode observar, desde o pico das cotações acionistas até à véspera das eleições primárias, a capitalização em bolsa já tinha caído 55%. Este é o período em que a economia macrista ficou sem financiamento voluntário externo, precipitando uma forte corrida às divisas e contra os ativos argentinos. O governo pôde adiar a agonia lançando mão do imenso empréstimo concedido pelo Fundo Monetário Internacional.

A fuga de capitais já estava lançada, e esses dólares do FMI teriam por objetivo apenas garantir que o percurso até as eleições de outubro deste ano não fosse traumático. No entanto, praticamente esgotados esses recursos, e com o cenário político-eleitoral emergente das PASO a atiçar os grandes fundos de investimento ― sobretudo depois de terem sido enganados com as sondagens tendenciosas do governo ―, a fuga não fez outra coisa senão acelerar.

Um fator não mencionado é que a queda foi mais violenta porque, nos meses prévios às PASO, o Banco Central tentou controlar a flutuação cambial subindo a taxa de juro, estimulando o carry trade [N.T.: investimento especulativo extremamente volátil que consiste em contrair empréstimos a juros baixos em economias de moeda estável e aplicar o dinheiro em mercados de juros altos; no entanto, se a moeda local desse segundo mercado se desvalorizar, a manobra não compensa, podendo produzir grandes perdas; assim, esses capitais fogem ao menor sinal de desvalorização cambial. Essa manobra, segundo analistas, é o que caracteriza boa parte dos 28 mil milhões de dólares que entraram na economia brasileira nos últimos 12 meses]. Ao mesmo tempo, o vice-diretor do Banco Central, Gustavo Cañonero (ex Deutsche Bank, ex sócio argentino do fundo Templeton) e o secretário de Economia, Santiago Bausili (ex Deutsche Bank e JP Morgan), insistiram em estimular os fundos especulativos de Wall Street para entrar neste carrossel, garantindo-lhes uma porta de escape com contratos em dólar futuro (que o Banco Central havia produzido em grande quantidade). Essa missão concretizou-se em fins de junho passado, com o aval do então ministro das Finanças, Nicolás Dujovne. Deste modo alimentaram de dólares a máquina de respiração em cuidados intensivos da economia macrista, insuflando ainda mais a bolha especulativa que, quando estourou, foi ainda mais furibunda.

A segunda fase da derrapagem da bolsa começou quando o governo Macri sofreu uma derrota pesada das urnas e, com um presidente ainda mal desperto e em negação do que havia sucedido, decidiu não interferir, deixando o mercado cambial inteiramente descontrolado. O que a seguir veio abaixo, como consequência imediata, foram as cotações das ações e títulos públicos.

Com a reentrada em cena da hiperdesvalorização da moeda, agora sob a égide de Macri, tornou-se visível para qualquer um que o modelo de valorização financeira inaugurado em dezembro de 2015 se tinha esgotado. A corrida que tinha começado no final do primeiro trimestre do ano passado, quando Wall Street fechou a torneira de dólares para a economia argentina, precipitou-se então a uma velocidade fulminante. O saldo final foi que, em menos de um mês, a capitalização em dólares das ações recuou os outros 55% do saldo.

A diferença entre um período e outro na fuga de ativos mercantis está apenas na velocidade, mas o saldo é o mesmo: em cada etapa, o valor de mercado das empresas argentinas caiu 55% em dólares, face aos respetivos pontos de partida (janeiro de 2018 num caso, 9 de agosto de 2019 no outro). No total, a queda acumulada em 20 meses de crise é de 80%.

Recorde

A agência de informação financeira Bloomberg publicou um ranking das quebras de bolsa mais violentas no mundo. O registo cobre 94 bolsas desde 1950. Dos primeiros cinco lugares, a bolsa argentina ocupa dois. A quebra mais impressionante foi a do Sri Lanka, em 1989, quando começou uma guerra civil nesse país asiático: o recuo foi de 61,7%.

Nos dois lugares seguintes situam-se os desabamentos do índice de ações MerVal. O dia de 12 de agosto passado foi o segundo pior deste ranking, com uma queda de 48%, seguido pelo colapso de 2002, de 45,2%. Em quarto lugar vem a bolsa do Cazaquistão, que também em 2002 contabilizou uma quebra de 38,6% num só dia. Fechando a lista vem a bolsa da Mongólia, que em 2004 recuou 35,4% num dia.

Fazer parte deste ranking não deixa em muito boa posição os protagonistas do mercado local, nem os seus reguladores, que permitiram e facilitaram o inchaço de uma fenomenal bolha especulativa. O atual estouro, com a euforia inicial, o pânico que se seguiu e, finalmente, o crash, tem as mesmas características do que ocorreu na Bolsa de Buenos Aires noutros ciclos neoliberais.

A era de José Alfredo Martínez de Hoz [ministro ultraliberal da Economia, colocado no posto pelo golpe militar de 1976] teve um começo festivo para
a bolsa, com altas impressionantes nas cotações. De 1976 a 1980, a bolsa passou pelos melhores quatro anos da sua história, com centenas de empresas cotadas e o índice geral em dólares a subir de 342 para 11 252 pontos. Deve-se lembrar, no entanto, a fabulosa desfasagem cambial que, com elevadas altas de preço, insuflou artificialmente o valor das empresas. Nesses quatro anos, alguns valores iniciais chegaram a aumentar 31 vezes. As quebras estrepitosas do Banco de los Andes e do Banco de Intercambio Regional, com a posterior rutura da tabela cambial, provocaram a quebra da bolsa [e a crise económica de 1981, que também deixou uma gigantesca dívida externa, assumida por meios fraudulentos]. De 1980 a 1985 a bolsa recuou ao índice de 536 pontos em dólares, ou seja, uma queda de 95% a partir do pico da ditadura militar.

Dois anos

Após dois anos de governo, Fernando de la Rúa renunciou devido ao descarrilamento de um modelo social e financeiramente insustentável. Não teve auxílio internacional que lhe permitisse continuar na Casa Rosada.

Com dois anos de mandato, Mauricio Macri também esteve à beira do precipício do default, mas a mão salvadora do Fundo Monetário Internacional, numa operação ordenada pelos Estados Unidos de Donald Trump, resgatou-o de um final igual ao de De la Rúa.

Esses dólares que permitiram evitar a quebra fizeram Macri iludir-se com a ideia de que seria um candidato competitivo à reeleição, revelando incapacidade de entender os sinais de deterioração generalizada que se vinham acumulando nas frentes financeira, económica, sociolaboral e política.

Macri teria terminado como De la Rúa se não surgissem os dólares do FMI. Só não vai acontecer agora a mesma coisa, em termos institucionais, devido à proximidade da eleição presidencial, e porque a oposição triunfante está a manobrar a situação com extrema prudência. Mas o desastre económico que Macri deixa será igual ou pior.

O colapso do sistema financeiro local, com a destruição recorde de capital "fictício", tem origem no frenesim especulativo iniciado pelo governo Macri num novo ciclo de endividamento, o mais vertiginoso da história argentina, e com a fabulosa pedalada do carry trade. Essa é a causa remota para entender o crash financeiro. A causa imediata foi o resultado eleitoral das PASO, que funcionou como um banho de realidade sobre as consequências de um modelo de valorização financeira que já tinha implodido.

Devastação

O estouro da bolha especulativa macrista foi devastador para o capital financeiro. Provocou uma perda monumental na carteira de investidores públicos e privados, ao mesmo tempo que castigou duramente os instrumentos financeiros do mercado. Os detalhes são estonteantes:

  • Como mencionado, a capitalização em bolsa caiu 80%. A perda de valor das principais empresas locais foi de 92 mil milhões de dólares.
  • O património dos Fundos de Investimento encolheu de perto de 250 para 155 mil milhões em pesos entre os dias 27 e 30 de agosto, com alguns deles a encolher até 62%.
  • A dívida pública de curto prazo, em pesos e em dólares, teve um default. O deslizamento das paridades de todos os títulos provocou perdas imensas para bancos, investidores e fundos internacionais.
  • O novo "corralito" das Letes [Letras do Tesouro] gerou uma crise de liquidez em empresas e províncias, que perderam acesso a recursos previstos para o pagamento de salários e contas dos fornecedores.
  • O risco do país disparou para mais de 2500 pontos, o que significa que os grandes operadores de mercado projetam que o default [incumprimento de obrigações da dívida] será ainda mais pronunciado.
  • A situação da dívida em dólares das províncias é crítica, uma vez que a hiperdesvalorização exige um aumento substancial de recursos em pesos para fazer face ao pagamento de juros e capital (o caminho do refinanciamento, de momento, está fechado). Um caso crítico é o da administração da província de Buenos Aires, de María Eugenia Vidal [do partido de Macri], que contabilizava uma dívida de 12 mil milhões de dólares no primeiro trimestre deste ano.
  • O controle cambial que teve de ser imposto deprimiu a atividade do mercado de futuros Rofex [mercado futuro de commodities de Rosario, o maior da Argentina].
  • Um quarto dos depósitos em dólares saiu do sistema bancário. De 9 de agosto a 4 de setembro, por exemplo, debitaram-se 8,33 mil milhões. E não há qualquer sinal neste momento de que a sangria se vá deter.
  • Os depósitos em pesos, por sua vez, estão a ser liquidados pela desvalorização e pelo choque inflacionista. Os débitos em prazos fixos em pesos do setor privado somaram 82,22 mil milhões ao baixar 6,8% nesse mesmo período.
  • As reservas do Banco Central continuam a cair para níveis críticos, com escassas possibilidades de receber o esperado antídoto do crédito de aproximadamente 5,4 mil milhões de dólares do FMI. O stock bruto na sexta-feira, 6 de setembro, era de 50,55 mil milhões de dólares. Havia baixado 15,76 mil milhões, ou 23,8% do total contabilizado em 9 de agosto.

Imperícia

Com um presidente desorientado com a surra que levou nas PASO, desferindo socos em todas as direçõessem acertar nenhum, a administração da crise torna-se mais complexa. Melhor dizendo, ela acelera-se e agudiza-se. Na segunda-feira, 12 de agosto, teve início uma sequência de medidas desesperadas. A primeira foi não intervir no mercado cambial para moderar a desvalorização. Foi uma decisão política que Macri expôs na conferência de imprensa dessa tarde, acompanhado do seu companheiro de lista presidencial, Miguel Ángel Pichetto. O slogan de campanha que então lançou foi o de que a barafunda desse dia nos mercados era culpa do triunfo eleitoral da oposição, a Frente de Todos peronista.

Provocada mais uma ronda de hiperdesvalorização, a corrida contra o peso intensificou-se e, por conseguinte, o Banco Central começou a perder reservas em grande quantidade. Com o FMI cada vez mais distante, a opção tomada para obter mais dólares no Banco Central foi incumprir os compromissos da dívida em pesos e em dólares no curto prazo. Essa medida, que dinamitou os fundos de investimento incapazes de dar uma resposta imediata aos resgates, instalou o pânico nos mercados e a corrida cambial mudou-se para os bancos. Só então é que se implementou o controle cambial.

Para contornar tamanho caos no sistema, a sequência deveria ter sido outra. Primeiro, era preciso impor o controle cambial, para zelar pelas reservas, garantir o pagamento das dívidas, e proteger os depósitos no sistema bancário. Desse modo, ter-se-ia evitado a corrida fulminante em direção aos depósitos em dólares.

Macri, aconselhado pelo ex-ministro de finanças e ex-presidente do Banco Central, Luis Caputo, resistiu à imposição de restrições cambiais e ordenou o default. Essa foi mais uma contribuição de Caputo para o desastre financeiro do macrismo. O caos que essa decisão provocou levou Macri a finalmente impor limites à compra de dólares, mas de uma forma que não impede a sangria das reservas, pois garante uma via de fuga com a possibilidade de compra de até 10 mil dólares mensais.

Com um tal nível de imperícia técnica, dogmatismo político e, em especial, vontade de continuar a facilitar a fuga de capitais, Macri acelerou uma corrida que já ganhou uma dinâmica própria e um desenlace dramático.

Alfredo Zaiat é jornalista e economista argentino. Artigo publicado originalmente em Página 12. Tradução brasileira para Outras Palavras por Ricardo Cavalcanti-Schiel. Adaptado para a norma portuguesa por José Borges Reis.

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