Adensa-se o mistério do envolvimento de Bolsonaro no assassinato de Marielle

30 de October 2019 - 19:01

Os dois executores do crime encontraram-se no condomínio onde reside o presidente; um deles informou ao porteiro que ia à casa de Bolsonaro. Alguém dessa casa autorizou a entrada. Não pode ter sido Bolsonaro, que estava em Brasília. Mas quem foi? Por Luis Leiria.

porLuís Leiria

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Bolsonaro passou quase todos os 23 minutos da intervenção que fez na madrugada a partir da Arábia Saudita a insultar e ameaçar a Globo.
Bolsonaro passou quase todos os 23 minutos da intervenção que fez da madrugada a partir da Arábia Saudita a insultar e ameaçar a Globo.

O Brasil tem 8.511.000 km² de superfície. Ronnie Lessa, acusado de ser o autor dos disparos que mataram a vereadora Marielle Franco, do Rio de Janeiro, no dia 14 de março de 2018, morava (agora está preso) no mesmo quilómetro quadrado, no mesmo condomínio, e a poucos metros do presidente Jair Bolsonaro. Pode-se dizer que a vizinhança não prova nada, ninguém escolhe os vizinhos que lhe calham na rifa, ninguém pode ser responsabilizado pela ação do vizinho, nem mesmo quando ele é um assassino de aluguer. Mas que é muita coincidência, é.

Uma reportagem da Rede Globo, emitida na noite desta terça-feira, veio adensar o mistério do possível envolvimento do presidente Jair Bolsonaro no assassinato da vereadora do PSOL e do seu motorista, Anderson Gomes.

Segundo apuraram os jornalistas daquela rede de TV, o outro acusado de ter participado no crime, como motorista do carro, Élcio de Queiroz, encontrou-se com Ronnie Lessa na tarde do crime no condomínio Vivendas da Barra; para que o porteiro o deixasse entrar, informou que ia para a casa 58, justamente a residência do presidente. O porteiro ligou para esta residência, e alguém, que o porteiro reconheceu como o “seu Jair” autorizou a entrada. Élcio de Queiroz, porém, não se dirigiu à residência 58 e sim à 66, de Ronnie Lessa. O porteiro, que acompanhava a movimentação pelas câmaras de segurança, estranhou e ligou de novo para a casa 58. Mais uma vez, segundo o seu depoimento, o “seu Jair” disse ao porteiro que sabia onde ele ia.

Os dois saíram pouco depois no carro de Lessa e posteriormente trocaram-no por aquele que seria usado no crime.

Álibi de Bolsonaro não resolve tudo

Há porém uma contradição neste depoimento, que a reportagem da Globo também identifica: é que naquele mesmo dia Bolsonaro estava em Brasília e participou de duas votações na Câmara dos Deputados. Não podia, pois, estar ao mesmo tempo no Rio de Janeiro.

O condomínio, porém, regista em áudio todas as comunicações da portaria com as casas. A polícia está a tentar recuperar essa gravação, para tentar perceber de quem é a voz que respondeu, da casa 58, respondeu ao porteiro. É que mesmo não estando o então deputado federal em casa, alguém respondeu da sua residência. E alguém autorizou a entrada de Élcio Queiroz no condomínio e tranquilizou depois o porteiro quando este verificou que o carro de Queiroz não se dirigia à casa 58.

Há ainda um outro componente potencialmente explosivo nestas revelações: é que a simples menção do nome do presidente da República nas investigações obriga a transferi-las para o Supremo Tribunal Federal. O Ministério Público do Rio de Janeiro já consultou o presidente do STF, Dias Toffoli, sobre se podia prosseguir as investigações, mas este ainda não deu resposta, diz ainda a reportagem da Globo.

Live’ da Arábia Saudita

Às 4 horas da madrugada de Riade, na Arábia Saudita, onde se encontrava em visita oficial, o presidente respondeu à reportagem da Globo num tom de voz exaltado e mostrando perda de controlo emocional em diversas ocasiões.

Afirmou que de nada podia ser acusado por não ter estado no Rio de Janeiro naquele dia, e acusou o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, de ter passado a informação para a Globo, vendo nesse ato uma forma de tentar destruir Bolsonaro e família para se candidatar às próximas eleições para a Presidência da República.

Mas o alvo dos ataques da intervenção destemperada de 23 minutos do presidente foi a Rede Globo, a quem Bolsonaro acusou repetidamente de “patifaria” e “canalhice”, de tentar fazer tudo para derrubá-lo, de não dar tréguas nos ataques a ele e à família, chegando mesmo a ameaçar a rede de TV de não lhe revalidar a concessão em 2022.

Reação do PSOL

Juliano Medeiros, Presidente Nacional do PSOL, em nota divulgada aos meios de comunicação, considerou grave a informação veiculada pelo Jornal Nacional, exigindo esclarecimentos imediatos. “O PSOL nunca fez qualquer ilação entre o assassinato e Jair Bolsonaro. Mas as informações veiculadas hoje são gravíssimas. O Brasil não pode conviver com qualquer dúvida sobre a relação entre o Presidente da República e um assassinato. As autoridades responsáveis pela investigação precisam se manifestar. Exigimos respostas. Exigimos justiça para Marielle e Anderson”.

Por sua vez, o deputado federal Marcelo Freixo, também do PSOL, afirmou que a denúncia, se for confirmado o depoimento do porteiro, é gravíssima, não por envolver diretamente Bolsonaro, que estava em Brasília, mas porque “é fundamental saber quem estava na casa de Bolsonaro, quem autorizou, segundo o relato do porteiro, que um dos assassinos de Marielle algumas horas antes da execução entrasse no condomínio”. Freixo defendeu ainda a importância de que o presidente do Supremo, Dias Toffoli, autorize a continuidade da investigação.

Luís Leiria
Sobre o/a autor(a)

Luís Leiria

Jornalista do Esquerda.net