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30 anos depois de se demitir, Gorbachov critica expansionismo da Nato e arrogância dos EUA

Putin diz que o colapso da URSS foi “a maior catástrofe geopolítica do século XX”. Na Rússia, há quem diga que o ex-presidente foi o “traidor” responsável por isso. Gorbachov defende que não podia começar uma guerra civil, lamenta não ter conseguido implementar as reformas e critica a vontade dos EUA de construir “um novo império”.
Gorbachov há dez anos atrás. Foto de Veni/Flickr.
Gorbachov há dez anos atrás. Foto de Veni/Flickr.

25 de dezembro de 1991, Mikhail Gorbachov falava a um país que já não existia de facto para se demitir de um cargo que parecia óbvio que não podia manter. Esse momento faria dele o último presidente da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Quase imediatamente a seguir, na Praça Vermelha substituía-se a bandeira soviética pela bandeira tricolor da Federação Russa.

Em agosto desse ano, um golpe de Estado falhado da linha dura do seu partido desautorizara-o e dera o protagonismo político a Boris Ieltsin, o dirigente da Federação Russa. A crise económica afetava o país e os separatismos cresciam. A 8 de dezembro, os líderes da Rússia, da Ucrânia e da Bielorrússia tinham declarado o fim da URSS e a criação de uma nova entidade, a Comunidade dos Estados Independentes. Quando outras oito Repúblicas Soviéticas se juntaram a este grupo, Gorbachov surgia como cada vez mais isolado.

Nas suas memórias, o ex-presidente auto-criticava-se por não ter conseguido um melhor desenlace da situação. Nelas escreveu: “ainda lamento ter falhado levar o barco que estava sob meu comando para águas calmas, falhado em completar as reformas do meu país.” “Glasnost” e “Perestroika” não seriam palavras de futuro. Mas o último presidente da URSS parecia não lamentar a decisão que tomou nesse dia: “se tivesse decidido apoiar uma parte das estruturas armadas, isso teria desencadeado inevitavelmente um conflito político agudo, tangido de sangue e de consequências negativas de longo alcance”.

30 anos depois, a decisão continua a ser tudo menos consensual no seu país. O atual poder russo caracteriza esse momento como “a maior catástrofe geopolítica do século XX”. Putin jura não querer reconstruir um espaço do tipo URSS pela força mas declarou recentemente que “a queda de União Soviética foi o colapso da Rússia histórica”, tendo-se “perdido, em grande medida, o que se tinha construído ao longo de um milénio”, nomeadamente “40% do território, das capacidades produtivas e da população”.

Não é de admirar assim que, alguns russos vejam Gorbachov como o traidor que destruiu uma potência mundial e muito menos se inclinem para a narrativa do herói trágico que evitou uma guerra civil. A propósito da efeméride, a agência noticiosa France-Presse recolheu alguns (e obviamente sem pretensões de serem significativos) testemunhos de moscovitas. Por exemplo, Valentina Shmeleva de 84 anos é uma das que o classifica como “traidor”: “Gorbachov destruiu a União Soviética e o bêbado do Ieltsin ajudou”. E Evgeny Dotsenko, um eletricista de 46 anos, ainda hoje lamenta o fim da URSS: “nasci e cresci na União Soviética e gostava de viver nela. Tudo era gratuito: a educação, os cuidados de saúde, tudo”. Parece que Gorbachov não agrada aos defensores da nova ordem russa nem aos nostálgicos da velha União Soviética.

Aos 90 anos, em declarações à agência estatal russa RIS Novosti, Gorbachov vai mais além do que este balanço e critica “o clima de triunfalismo do Ocidente, especialmente dos Estados Unidos” depois do fim da URSS. Para ele, estes “aumentaram a sua arrogância e auto-confiança” declarando-se “vencedores da Guerra Fria”. O problema maior é que “os “vencedores” decidiram construir um novo império. Daí a ideia da expansão da Nato”.

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