Apesar de haver uma Praça com o seu nome – Praça José Fontana, onde se situa o antigo Liceu Camões – não se pode dizer que seja um nome muito conhecido, o que é injusto.
Conhecem-no os historiadores, os políticos, os que se interessam pelos acontecimentos da história do movimento operário, da revolução industrial, dos prelúdios da revolução republicana e, muito particularmente, todos os que se fixam no estudo desse capítulo da História de Portugal, da Europa e do Novo-Mundo, isto é, da América.
Fora deste âmbito e fora desta época, ele permanece desconhecido.
Quando, em 1979, comecei a estudar a época de José Fontana, veio-me à ideia essa Praça, em Lisboa, aliás mais conhecida por “Largo do Matadouro” e “Largo do Liceu Camões”.
Ia finalmente saber de quem se tratava.
A maior parte dos nomes imortalizados nas ruas das nossas cidades não goza do privilégio de serem conhecidos de todos os portugueses, nem sequer de todos os habitantes da cidade que os imortalizou.
E eis a primeira surpresa: era um cidadão suíço!…
Claro que a minha curiosidade, estimulada desta maneira, esmerou-se.
Para deslindar este primeiro mistério, tudo foi devorado: jornais da época, livros de contemporâneos, arquivos, bibliotecas.
Sim, senhor, confirmava-se: nascera em Cabbio, no Ticino – o cantão italiano da Suíça.
Eu já tinha pensado na Itália, por causa do nome: FONTANA.
Na verdade, não me tinha lembrado da Suíça. Muito bem. Sendo assim, parti para Cabbio.
Felizmente, os Suíços são um povo muito bem organizado com uma administração pública fácil, sem complicações burocráticas. Não sei o que eles próprios têm a dizer sobre isto, mas posso afirmar, na minha condição de estrangeira, que não tive dificuldade nenhuma em obter as informações que procurava, em consultar os Arquivos Cantonais e Notariais que se localizam em Belinzona, nem os Arquivos Paroquiais de Cabbio. Pelo contrário, em todos os lados, além de uma total e sempre solícita boa-vontade, a minha pesquisa encontrava ainda um entusiasmo irmão do meu, uma curiosidade pelo assunto igual à minha.
Tudo, nesses locais, foi assim devorado: livros do Registo da População, Inventários das Famílias, livros do Recenseamento Eleitoral, Arquivos Notariais, enfim, todas as fontes de informação demográfica referentes à aldeia de Cabbio, distrito de Mendrísio, cantão de Ticino, no Vale do Muggio.
Fui a Cabbio diversas vezes, no decorrer desses dez anos. Mas esse primeiro contacto foi mais uma viagem de reconhecimento: procurei documentos, tirei fotografias, falei com pessoas, visitei a igreja e o cemitério de Cabbio, andei pelas ruas, olhei para as casas, contemplei as paisagens, senti os costumes…
E de tal modo me entreguei a esta pesquisa humana que comecei a amar aquele homem, de quem os contemporâneos náo se cansavam de dizer que era generoso, bom, inteligente e afável.
Então, como a aldeia de Cabbio não tinha mudado de fisionomia, nem sequer variado muito de número de habitantes, comecei a imaginá-lo por entre todo aquele ambiente.
Nasceu no dia 28 de Outubro de 1840.1
Encaminhei-me para a Igreja onde, naquele momento, fazia 139 anos, mais dia menos dia, que ele tinha sido baptizado. Entrei e «povoei» a nave da Igreja com as descobertas que, entretanto, tinha feito nos arquivos.
O pai de José Fontana nasceu a 14 de Julho de 1793. Só dez anos depois é que ele viria a ser confrontado com a necessidade de aceitar a nova nacionalidade suíça que lhe viria a ser imposta pelo Acto de Mediação, ou optar por manter a nacionalidade italiana com que tinha nascido.
Assim, todos os italianos ticineses que não se manifestassem de modo contrário, adquiririam automaticamente a nacionalidade suíça, a partir de 1803. José Fontana nasce suíço, porque seu pai aceitou essa nova nacionalidade.
Durante a leitura do seu assento de baptismo, estava-me reservada a terceira surpresa: a mãe era portuguesa, natural de Odemira, e membro afastado da família Bertrand, uma família de comerciantes livreiros, oriundos de França, estabelecidos em Lisboa desde o século XVIII. Chamava-se Maria Clara Bertrand Bonardelli, tendo-se o nome da mãe, mais tarde, italianizado: Bertrandi, talvez por influência de uma convivência com italianos que, ao que parece, teria sido muito intensa.
Ela própria casou, em primeiras núpcias, com um italiano, Orselini, de quem ficou viúva e, tanto quanto se sabe, sem filhos.
José Fontana foi o terceiro filho do segundo casamento de Maria Clara. A primeira filha, Marchina, nasce em 1824. Tinha dezasseis anos quando o irmão nasceu. A segunda filha, Maria Balbina Gesualda, nasce em 1831. Tinha já nove anos quando nasceu aquele irmãozinho a quem deram o nome de Giuseppe Silo Domenico.
Eram certamente uma família respeitada. Há vestígios disso nas entrelinhas da história, por exemplo: o pároco, Domenico Fontana, quis ser, ele próprio, padrinho da criança, pelo que delegou os poderes para o baptizar, no sacerdote Serafim Bulla, da paróquia de Muggio, e incluiu o seu nome, Domenico, no nome do baptizando.
Durante as pesquisas nos arquivos, muitas outras surpresas me estavam reservadas; outros nomes portugueses foram aparecendo, o que não me admirou, porquanto, em geral, os imigrantes atraem sempre outros conterrâneos.
O avô paterno de José Fontana, Pietro Bonardelli, também era italiano, não sendo portanto de estranhar que o primeiro marido de Maria Clara o fosse igualmente.
Havia, nesse fim do século XVIII e princípios do século XIX muitos estrangeiros (sobretudo, comerciantes), franceses, italianos, ingleses, holandeses, atraídos pelas riquezas do Portugal expansionista que nós éramos, e decorrentes do nosso comércio com o Oriente e com o Brasil.
Aquela igreja de Cabbio, dedicada ao Salvador, estava cheia de familiares e amigos de Giovanni Baptista Fontana, comerciante conceituado, com negócios em Lisboa; e de familiares: seu irmão, Lorenzo Fontana, igualmente comerciante igualmente conceituado, com negócios no Uruguai; e sua irmã, Maria Antónia Fontana, que foi madrinha do pequeno Giuseppe.
Muitos desses convidados eram portugueses, residentes em Cabbio e nas aldeias vizinhas; outros eram suíços, com ligações a Portugal; outras relações ainda, por interesses de trabalho ou por relações de amizade.
Procurei a escola onde ele poderia ter aprendido as primeiras letras. O edifício lá estava, no Largo da Igreja; mas havia muito tempo que se tinham instalado aí os serviços autárquicos, isto é, os serviços administrativos da Junta de Freguesia (Comune) de Cabbio.
Naquele dia, o presidente da Junta de Freguesia (síndico) de Cabbio estava ausente e não pude falar com ele. Mas falei com a secretária que também se chama… Fontana. Ela própria acabou por me confirmar, mais tarde, que este apelido sempre foi muito frequente no Ticino.
Depois desta minha primeira visita, o marido desta senhora andou a fazer pesquisas genealógicas, mas não encontrou quaisquer ligações com a família de José Fontana.
Esta família (pai, mãe e três filhos) deve ter vivido em Cabbio até José Fontana ter a idade de sete anos. Há, na verdade, um documento notarial que nos informa que Maria Clara Fontana, viúva de Giuseppe Baptista Fontana, residente em Cabbio, vendeu todos os seus bens a Catharina Fontana, Domenico Fontana, Antonio Bulla e Cristina Fontana, todos residentes em Cabbio. Esta venda processa-se em 20 de Setembro de 1847; e os bens vendidos constam de uma casa e seus móveis, assim como as terras que a circundam.
Naquele primeiro contacto, como havia eu de poder adivinhar a comoção que viria a sentir, alguns anos mais tarde, quando o «síndico» me mostrasse uma casa, dizendo-me: «É esta. Condiz com a descrição feita pelo notário no acto de venda, e condiz também com os nomes dos proprietários vizinhos, alguns dos quais são herdeiros das anteriores famílias que nunca venderam nada».
Actualmente a casa pertence a um professor que a comprou há anos e que a tem usado para passar férias.2
Não é possível descrever em linguagem convencional o que senti ao olhar aquela casa. Entrando o portão, atravessei o jardim e sentei-me num dos bancos de pedra que o ornamentam. «Vi» Maria Clara, ajudada por Marchina, a filha mais velha, a tratar do marido e dos outros filhos, Gesualda e Giuseppe.
«Vi-os todos» a almoçar sob o caramanchão, numa sombra suave, ao abrigo do sol dos Alpes Suíços. «Olhei», comovida, as cenas familiares que se desenrolavam diariamente naquele pequeno jardim.
Não tenho dados que me ajudem a imaginar como foi a infância de José Fontana. No entanto, sabendo que o pai, nascido em 1793, fez testamento em 1842, isto é, com apenas 49 anos, somos levados a pensar que só uma razão poderá explicar essa vontade de fazer testamento perante o notário, numa idade pouco avançada: está doente.
Com efeito, apesar de, até agora, não ter encontrado o documento de registo do seu óbito, sabemos, pelo referido acto notarial de venda, que, em Setembro de 1847, Maria Clara está viúva.
Por outro lado, esta informação não é mais do que a confirmação de um dado anterior. Na verdade, o «Libro de Registro della Popolazione della Republica e Cantone del Ticino Distretto di Mendrisio, Circolo di Caneggio, Comune di Cabbio», na página 67, registo nº 85, diz-nos que, em 1846, data em que este livro foi redigido ou recopiado, Maria Clara, filha de Pietro Bonardelli e Mariana Betrandi, era viúva de Giovanni Baptista Fontana.
Assim sendo, o pai de José Fontana morreu depois de 1842 e antes de 1847, ano em que a sua viúva vende todos os bens com entrega imediata ao proprietário», o que parece pode significar que Maria Clara e seus filhos se preparavam para partir. José Fontana tinha então 7 anos, a idade de ir para a escola.
Dos documentos conhecidos, o que alude à presença de José Fontana em Portugal, com data mais recuada, é o artigo publicado no Diário Popular, por ocasião da sua morte. Com efeito, numa sumária descrição do acontecimento, o articulista diz que José Fontana «trabalhava há mais de 20 anos na Livraria Bertrand».
Que terá feito durante esse período de 9 anos, isto é, entre os seus 7 (tendo nascido em 1840) e os 14, 15, o máximo 16 anos de idade (tendo falecido em 1876)?
Em Portugal, os mais antigos vestígios conhecidos, da presença de José Fontana, datam de 1870, e são os seus escritos nos jornais da época: A Federação, O Protesto, O Pensamento Social.
Antes disso, há alusões citadas por autores que se dedicam ao estudo da História do Século XIX:
Luís Vianna Filho, na sua biografia A Vida de Eça de Queirós (Rio de Janeiro: Editora "Nova Fronteira", 1984), evocando existência do Cenáculo, cuja confraternização decorre na década de 60, e onde Eça de Queiroz se evidencia mais a partir de 1866/7, fala-nos da chegada de José Fontana a essa Tertúlia:
«O Cenáculo, naquela época, sofria uma influência profunda de Antero de Quental, o qual, para bem conhecer a vida e os sofrimentos dos operários que pretendia amparar com o socialismo, fora trabalhar em Paris, como tipógrafo, no jornal “Le Siècle”. Agora, retornava mais arreigado às ideias que transmitia aos apóstolos… A figura era a mesma de Coimbra: usava uma enorme cabeleira encrespada, de um louro avermelhado, que lhe invadia a testa; uma barba frisada, intensa, que lhe trepava pelas faces; tinha uns olhos muito claros, alegres, irónicos, maliciosos – ou abstractos e perdidos» (in: Jaime Batalha Reis, Anos de Lisboa e in: In Memoriam de Antero de Quental, p. 442).
«Os companheiros adoravam-no. E durante meses, por longas horas até às madrugadas, todos os grandes problemas do universo eram discutidos e agitados. A boémia dissipava-se ao sopro das ideias e das convicções de Antero, e Eça de Queirós lembraria essa conversão dos gentílicos:
«Antero chegara numa fria manhã, e logo o aclamaram os convivas (...). Porém, ele desembarcara em Lisboa como um Apóstolo do Socialismo, a trazer a palavra aos gentílicos, e em breve nos converteu a uma vida mais alta e mais fecunda. Nós fôramos até aí, no Cenáculo, uns quatro ou cinco demónios cheios de incoerência e de turbulência (...) Sob a influência de Antero, logo dois de nós, que andávamos a compor uma ópera bufa contendo um novo sistema do Universo, abandonámos essa obra de escandaloso delírio e começámos a estudar Prudhon, nos três tomos da ‘Justiça e Revolução na Igreja’, quietos, à banca, com os pés em capacho, como bons estudantes.
«A revolução convivia no Cenáculo. E em meio àquele punhado de revolucionários utópicos, contava-se José Fontana, empregado da Livraria Bertrand, muito alto, muito magro, sempre vestido de preto e, cerrada a Livraria, trazendo novas da revolução que deveria irromper na próxima semana.
«Ligado à Associação Internacional dos Trabalhadores, não raro acompa avam-no, desconfiados e temerosos, agentes internacionais, todos eles embebidos das doutrinas de Marx, e desejosos de conversarem com Antero.
Dentro em pouco, Oliveira Martins publicaria ‘Portugal e o Socialismo’, no fundo, o ideário daquela juventude reformista.
«Para o Cenáculo, 1869 trazia o signo das viagens inesperadas.
O primeiro a partir foi Antero de Quental. Convidado por Joaquim Negrão, pescador de atum, artista, negociante, aventureiro, capitão de navios, embarcou em Julho, num pequeno pesqueiro, ‘Carolina’, rumo a Nova lorque. Ia conhecer a nascente e discutida civilização dos puritanos da "Mayflower"» (in: Luís Vianna Filho, obra citada).
A poderem confirmar-se documentalmente todas as datas romance biográfico que Luís Vianna Filho fez da vida do grande escritor e romancista, Eça de Queiroz, teríamos de a chegada de José Fontana a Portugal, durante a década de 60, com a idade de 20 e poucos anos.
Os seus contemporâneos, nomeadamente Azedo Gneco que privou com ele quase permanentemente, dizem, é certo, que ele chegou a Portugal «muito jovem». Como já vimos, há o testemunho de um jornal que, ao noticiar a sua morte, nos informa de que ele «trabalhava na Livraria Bertrand havia de 20 anos», o que remeteria a sua chegada a Portugal, a década de 50, muito provavelmente, 1855 ou 1856. Não há, porém, documentos conhecidos hoje (1989) que nos permitam traçar todo o itinerário da sua vida.
Para onde foi quando saiu de Cabbio?
Em que se baseavam os seus contemporâneos portugueses para terem deixado escrito que ele tinha sido operário relojoeiro? Possivelmente, apenas como resultado de conversas com ele…
Teria mesmo vindo trabalhar em Lisboa, na Livraria Bertrand, inicialmente, como tipógrafo? Talvez sim, visto que a mãe era membro da família Bertrand…
Que fez e por onde andou entre 1847 (presumível saída de toda a família, de Cabbio, onde nunca mais voltou) e 1870, ano em que os jornais portugueses começam (?) a publicar os seus escritos, para além de trabalhado na livraria Bertrand?
Onde adquiriu os conhecimentos que, indiscutivelmente tinha, de política, de economia, de sociologia?
Que línguas falava?
Terá frequentado a escola? Onde?
Onde e em que circunstâncias conheceu os meios operários, dos países da Europa com quem se manteve sempre e contacto?
Durante toda a minha infância acompanhei o meu Pai, no dia 1º de Maio, na sua romagem ao Cemitério dos Prazeres Era, para mim, uma cerimónia fascinante à qual comecei a assistir com oito anos de idade, sem contudo a compreender. O meu Pai levava-me, sem explicações prévias, sem justificações, sem apresentação de teorias. Limitava-se a esperar que eu lhe fizesse perguntas, satisfazendo então cabalmente, a minha curiosidade.
Havia sempre muitas pessoas, nuns anos mais, noutros anos menos. Algumas caras até começavam a ser conhecidas, além daquelas que falavam com o meu Pai, que brincavam comigo, e que tinham uns gestos, uns sorrisos e uns olhares que eu achava cheios de mistério. Além disso, eu surpreendia frequentemente ligeiros e discretos acenos de cabeça que, algumas vezes, poderiam ser interpretados como pedidos de licença para avançar por entre grupos de pessoas, ou então, uma casual saudação entre desconhecidos, momentaneamente ligados por um interesse comum.
Havia também uma pessoa, diferente em cada ano, que um discurso. Falava de Liberdade, de Igualdade de Direitos, de Emancipação dos Trabalhadores e dos que se tinham sacrificado por todas essas causas.
À medida que os anos iam passando, eu ia começando a penetrar estes mistérios e, naturalmente, como de uma árvore brotam primeiro, as flores e, depois, os frutos, graças a todo este conjunto de coisas, acrescentadas das leituras, do ensino e da educação que ia recebendo, comecei a distinguir beleza das ideias contidas na filosofia da justiça social, da igualdade de oportunidades, dos direitos fundamentais da pessoa humana, comecei a repudiar as segregações, as diferenciações, tudo quanto é injusto e mesquinho.
Por tudo isso, quando, em 1979, descobri José Fontana, comecei a acumular na memória as mais gratas e melhores recordações dos serões passados a folhear os jornais do século XIX, a copiar pequenas notícias, a «peneirar» livros com narrativas dessa época, à procura de indícios, de fotografias, de datas, de nomes, de acontecimentos.
E foi assim que se me deparou mais uma extraordinária surpresa: ele está sepultado em Lisboa, no Cemitério dos Prazeres.
A minha primeira romagem à sepultura de José Fontana foi no dia 9 de Julho de 1982. Ainda tenho (julgo que o guardarei para sempre), o bilhete de direito de entrada no cemitério.
Estava um dia quente de um verão já maduro, com os 36º que, ultimamente, são a temperatura constante dos verões de Lisboa. Não soprava a mais leve aragem. As pessoas, que tinham de circular a pé pelas ruas, procuravam as sombras seguiam, mesmo assim, em passo lento, com as energias um tanto condicionadas pelo peso do calor que se abatia sobre o pavimentos, sobre as árvores e sobre as criaturas.
Um cemitério é sempre um lugar sereno, aprazível. Por que será? Nunca é ventoso, nem quente, nem demasiado fresco. Parece querer ser amável com os vivos que o visitam.
Atravessei o grande átrio e perguntei ao porteiro onde era os Serviços Administrativos. Uma Secretaria, como tantas outras… Esta existe para informar se há espaços disponíveis para enterrar os mortos: locais em campo (chão-de-terra) ou gaveta, terreno livre para construir novos jazigos, etc.
Também deve haver outros assuntos acerca dos quais esta secretaria pode ser solicitada: transferências, limpezas, placa inscrições, prazos, compras e vendas, etc.
Mas eu vinha fazer uma pergunta com mais de 100 anos: onde está José Fontana?
Ao ouvir a apresentação do meu problema à funcionária do balcão de acolhimento, uma voz, vinda lá de dentro, fez-se ouvir:
– José Fontana! Grande Homem! Herói do Movimento Operário! Está aqui… está, sim senhor! Temo-lo aqui!
Era uma voz sem idade, que soava com um misto de respeito e de espanto. Para mim, foi a voz do passado, a voz do dia do funeral de José Fontana, a voz da multidão de amigos que juntaram nesse cemitério, no dia 3 de Setembro de 1876, porque essa voz nunca se concretizou aos meus olhos.
Era possivelmente o chefe da secretaria, ou um funcionário mais experiente, com mais anos de serviço, que conhecia melhor os livros do Arquivo do cemitério. Não apareceu cá fora, mas mandou-me os Livros de Registo (dois) que contêm informações sobre a entrada desse Grande Homem, Herói do Movimento Operário, que se chamou José Fontana, no Cemitério Ocidental da cidade de Lisboa, no dia 3 de Setembro de 1876, tal como consta no Livro nº 10 dos Registos de Enterramentos do Cemitério Ocidental de Lisboa – Cemitério dos Prazeres que funciona desde 1835.
A folhas 37, consta o seguinte registo:
Nome: José Fontana
Naturalidade: Suíço
Idade: 40 anos3
Estado civil: Casado
Profissão: Negociante
Morada: Rua da Figueira, nº 14
Paróquia: Mártires
Entrada no Cemitério – 6h da tarde do dia 3 de Setembro de 1876
Foi sepultado – Logo
Na cova nº 4278
Data da morte – 11h 30 do dia 2 de Setembro de 1876
Causa da morte – Ferimento por arma de fogo
Hora determinada para o enterramento – 24 horas depois do falecimento
Autoridade que passou o bilhete – Regedor
Observações – Enterro civil, Caixão de chumbo
Reformado em 72 de Setembro de 1881, pago com ressalva Chapa no 9485
No Livro nº 13 dos Registos de Jazigos do Cemitério Ocidental de Lisboa – Cemitério dos Prazeres – a folhas 15, consta seguinte registo:
Em 18 de Julho de 1883, a Câmara Municipal de Lisboa ven deu a Constâncio Augusto Pereira, o jazigo no 3015, situado na rua 14, do lado direito, por 23$000 (vinte e três mil reis).
Em 30 de Março de 1884, os restos mortais de José Fontana foram transferidos do coval no 4278 para o jazigo no 301 por subscrição pública e iniciativa da Associação dos Trabalhadores, segundo nos informa César Nogueira, no seu livro Notas para a História do Socialismo em Portugal, citando Luís de Figueiredo.
O primeiro subscritor, Constâncio Augusto Pereira, fez doação desse jazigo à Câmara Municipal de Lisboa, seu actual proprietário.
O jazigo consta de um pedestal com diversas inscrições e de um braço humano segurando um facho com a chama tudo em pedra. Nele se pode ler:
Inscrição
A José Fontana que faleceu em 1876
ASSOCIAÇÃO dos TRABALHADORES por subscrição pública
Assinatura: Fez Sérgio A. Barros
Rua Ferragial de Cima, nº 16/18
Junto do jazigo, encontram-se ainda duas ofertas em bronze:
- COOPERATIVA INDÚSTRIA SOCIAL, 30-3-1884
- A José Fontana, oferece
CLASSE dos ESTUCADORES, 1-5-1897
E indicaram-me o caminho para o jazigo no 3015, situado rua nº 14, mesmo ao fundo, do lado direito, em frente do de Azedo Gneco.
Segui, à sombra daqueles vetustos ciprestes que conferem sempre aos cemitérios uma atmosfera de serenidade, de segurança, com o seu grandioso aspecto de velhos patriarcas, detentores da sabedoria que lhes permite esperar, sem inquietações, a passagem do tempo.
Quando, há 134 anos, o Cemitério dos Prazeres, na presença mais de um milhar de pessoas, quase todas operários socialistas, recebeu esse homem notável para o guardar para sempre, teve de lhe destinar o coval nº 4278, onde ele ficou sepultado até ao dia 15 de Março de 1884 (Registo de um do Livros do Cemitério).
Nessa data, numa homenagem promovida pelo operariado português que, mediante subscrição pública, mandou construir para ele um pequeno mausoléu significativo da incomensurável admiração, da profunda estima e do enorme respeito que a sua memória nunca deixou difundir em todo os que pensem um pouco no que ele fez e em quem ele foi nessa data, José Fontana passou a poder ser recordado ness jazigo diante do muro que domina a zona ocidental da cidade de Lisboa.
Conserva diversas manifestações de homenagem: uma inscrição no pedestal e algumas ofertas em bronze enferrujado pelo tempo, de associações operárias saudosas e agradecidas pelo que ele fez por todos os operários, como seres humanos: a devolução da consciência dos direitos desses homens e dessas mulheres.
Essas manifestações estão descritas atrás. Mas o que mais me comoveu, pelo seu significado cultural e social, foi um pequeno ramo de flores frescas que começavam a murcha sob o calor estival daquele Julho. Quem as pôs ali tinha tido o cuidado, filial e ingénuo, de lhes meter os pés um saco de plástico com água, agora quase evaporada pelo calor.
E foi com lágrimas nos olhos que pensei, de mim para mim, que José Fontana não está esquecido.
No entanto, sabe-se muito pouco da sua vida, da sua obra e da sua pessoa. Tudo quanto é possível reconstituir da sua biografia, tem de ser respigado das notícias que nos são transmitidas pelos seus contemporâneos, que o acompanhavam nas lides associativas e sindicais, que privavam com ele muitas horas por dia, que o escutavam nas reuniões onde ele, incansavelmente, ia espalhando os ideais socialistas, os ideais de democracia e de liberdade que ele tinha recebido e assimilado, primeiro nessa terra onde nasceu e onde cresceu pelo até aos sete anos, nessa Suíça livre e neutra onde, já há mais de um século, ninguém corria o risco de ser preso por causa das suas ideias; onde Voltaire foi viver para poder ser livre; onde os perseguidos políticos imprimiam os panfletos divulgadores do seu ideário quando não os podiam imprimir nos seus próprios países.
Quase nada se sabe da sua vida pessoal.
Era casado, diz o registo do cemitério. Sua mulher chama-se Cecília, dizem algumas cartas escritas pelo próprio.
Tinha nacionalidade suíça, diz o mesmo registo do cemitério, e ele próprio, segundo a transcrição de um discurso político publicado num jornal do seu tempo: «sou suíço»!
Sabemos que morou na rua do monte Olivete e que trabalhou na Livraria Bertrand, primeiro como operário-tipógrafo, mais tarde como gerente, até à sua morte…
Os seus contemporâneos transmitem-nos, no entanto, permanentemente e sem contradições, uma enorme admiração, uma profunda e inabalável amizade por este homem que descrevem como «bom, sensível, de inteligência brilhante, com um poder de comunicação e de persuasão invulgar, notável como orador, sagaz como analista das situações, dotado de uma intuição fora do comum...»
A sua casa, na rua do Monte Olivete, foi certamente o local das reuniões de preparação das grandes iniciativas, visto que quando a Secção Portuguesa da Associação Internacional dos Trabalhadores foi criada, era conhecida por «Secção do Monte Olivete». No entanto, na ocasião do seu funeral, o Livro dos Registos de Enterramentos diz que ele morava na Rua da Figueira, nº 14.
«A Rua do Monte Olivete chamava-se Rua de Nossa Senhor do Monte Olivete, no almanaque de 1800. É a terceira rua à direita, quando se entra na Rua da Patriarcal Queimada, vindo do Rato, e termina na Travessa da Conceição, junto da Praça da Flores.», ensina o Itinerário Lisbonense de 1818 (Ruas de Lisboa por LJ. Gomes de Brito. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1935).
Ainda existe hoje, como se pode ver no "Roteiro de Lisboa": pertence à Freguesia de S. Mamede. Começa na Rua de Marco Portugal e acaba na Rua da Escola Politécnica. (Lisboa: Anuário Geral de Portugal, 7979).
Quanto à Rua da Figueira, não se sabe, ao certo, como historiá-la. Com efeito, se temos, ainda hoje, a Praça da Figueira que nenhuma dúvida pode levantar aos habitantes de Lisboa, da rua do mesmo nome, o Itinerário Lisbonense diz simples mente: «fica por detrás do lado oriental do Rocio». (sic)
Gomes de Brito informa-nos ainda: «Já encontramos o Beco da Figueira no ‘Sumário’, incluído na Freguesia de Santa Justa. E a Estatística de 1552 fala na rua da Figueira, sem, no entanto, a localizar.”
O actual Roteiro de Lisboa indica-nos uma Calçadinha da Figueira na Freguesia de S. Miguel, a qual começa na Calçadinha de S. Miguel e termina na Rua de Norberto Araújo.
Todavia, e apesar de ser apenas uma alusão de passagem num dos jornais que noticiam a morte de José Fontana, parece ser mais lógica a referência a uma Rua da Figueira ao Chiado, e lateral da Livraria Bertrand.
Na verdade, parece tratar-se da rua onde se situava o armazém da Livraria, onde José Fontana disparou o tiro que lhe pôs termo à vida, isto é, a actual Rua Anchieta.
Também é possível que o jornal, que lhe chama Rua da Figueira, o tenha feito por gralha ou nervosismo do jornalista, naquela circunstância emocional.
Pelo próprio José Fontana, sabemos que, em 6 de Dezembro de 1872, ele morava na rua do Arco de S. Mamede, nº 31 (carta a Sousa Brandão, transcrita por César Nogueira na revista Seara Nova, nº 1254/1255).
Porém, se pouco se sabe da vida de José Fontana, aquilo que se conhece das suas actividades basta para lhe tributarmos toda a admiração e o respeito que lemos nos escritos dos seus contemporâneos.
Luís de Figueiredo, que era ainda criança quando o pai o levava a assistir às reuniões da Associação Fraternidade Operária, então sediada na Calçada da Estrela, nº 10, descreve-o assim:
«O vulto de José Fontana era daqueles que nunca se esquecem mais, uma vez encontrados na vida. Tinha um não sei que de nobre e simpático, que o inundava de uma tonalidade doce meiga que o fazia atraente e vago.
Quando ele falava vagarosamente, espaçando as palavras, e seguindo-as nos ares com o seu grande dedo, comprido e descarnado, recorrendo à parábola e pintando, comovido, as miséria dos operários, o desalinho do lar e as lágrimas dos filhos, tomava um aspeto singular, como de um sonhador iluminado.
Se tivesse nascido noutra época, Fontana seria talvez um asceta, um inspirado – tal é, pelo menos, a forma como o reconstrui no meu cérebro à distância de um par de anos!» (Almanaque José Fontana, 1885).
A actividade associativista e cooperativista de José Fontana desenvolveu-se entre 1870 e 1876. Ela foi decisiva para o incremento do Movimento Operário, pela multiplicação de Associações de Classe e de Cooperativas de Actividades Profissionais. Ela foi igualmente decisiva para a consciência da necessidade de separação das actividades políticas das Actividades Sindicais.
Primeira parte do livro “Um republicano chamado José Fontana” de Maria Manuela Cruzeiro. Publicado pela Fonte da Palavra, março de 2011.
Notas
1 E não em 1841, como rezavam, ainda em 1990, as placas que, em cada esquina da Praça José Fontana, em Lisboa, indicam o nome deste Largo. A data foi rectificada nesse ano, durante as comemorações do centésimo quinquagésimo aniversário do seu nascimento, desenroladas sob o patrocínio da fundação José Fontana.
2 Convém lembrar que esta investigação começou a ser feita em 1979 e a primeira edição desta biografia foi publicada em 1990, para comemoração do 150º aniversário do nascimento de José Fontana.
3 Trata-se de um erro. José Fontana nasce em 28 de Outubro de 1840, como está dito atrás, e morre em 2 de Setembro de 1876. Tem portanto 36 anos.