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Somos a voz adormecida que precisa de ser acordada

Se somos os mais preparados, então saibamos utilizar essa ferramenta para transbordar o papel do estudante enquanto agente passivo de um futuro mercado de trabalho explorador e excludente. Por António Soares, ativista estudantil na Universidade do Minho.

A Universidade prepara-nos para o quê? Ou melhor, deve preparar-nos para um mercado de trabalho selvagem ou para sermos cidadãos prontos a interpretar o mundo? Não queremos ser mais os homens e as mulheres passivas e conformadas com a esta sociedade patriarcal e capitalista.

Em 1968, tivemos na Europa enormes movimentos estudantis que abalaram o sistema. Em Portugal, estas revoltas dos estudantes nas universidades abanaram a Ditadura Salazarista. A guerra assombrava todos os jovens, que mesmo assim, não abdicaram do seu espírito crítico. Lutavam por um futuro de liberdade. A nossa bitola de ação não pode ser determinada pelas ações. A transformação social olha sempre para a frente, imagina um futuro melhor Mas não devemos, nós, que vivemos no pós Revolução de Abril, questionar-nos sobre a apatia generalizada que se vive no meio estudantil? Para começar, podemos começar por tentar responder a estas duas questões: A culpa é nossa? O modelo de ensino que temos tem algo que ver com isso?

É um sentimento generalizado que há um certo desfasamento entre aquilo que nos é proposto a aprender e os seus moldes com o que procuramos para o nosso futuro. Há, com certeza, muito que ainda precisa de ser mudado. Do lado de cá, que é como diz, aquilo que só depende de nós, falta voltarmos a imaginar um mundo coletivamente. Temos que fazer renascer o movimento estudantil nas nossas universidades. Lutar contra as propinas, combater a inflação imobiliária e usar a nossa voz para defender quem, infelizmente, já não se senta ao nosso lado no auditório porque foi forçado a desistir. Só uma atitude solidária e de horizontalidade para com os nossos colegas nos dará mais força enquanto comunidade para agir.

Pensar coletivamente um mundo melhor obriga, desde logo, a uma postura diferente entre pares. Nas nossas faculdades assistimos às piores práticas entre colegas. A praxe, autoritária como é, serve como um bom exemplo disso. Imaginem, agora, que o vigor desses gritos pressupunham uma reivindicação  por justiça social, pela igualdade e pelos direitos comuns. Hoje a luta seria mais forte e a nossa voz não só iria ser ouvida como impossível de ser ignorada. Em cada esquina, um amigo. Em cada esquina, um pedido de apoio, mesmo que silencioso. Ainda vamos a tempo de mudar o ensino. Ainda vamos a tempo de pensar naqueles que não têm a possibilidade de pagar propinas e/ou a renda de uma casa.

Temos que fazer do ensino nas universidades um ensino crítico. É urgente não desperdiçar a oportunidade: Continuar a ser iguais a todos os outros ou ser diferentes e marcar a história. E ela escreve-se em cada pormenor da nossa vida enquanto estudante, desenha-se nos locais onde vivemos.
Como estudante na Universidade do Minho, preocupa-me que, em Braga, estudantes que não têm a possibilidade de viver perto da universidade têm que apanhar dois transportes para chegar ao Campus e não existe um passe especial para isso. Onde é que está a justiça no ensino que se diz para todos mas acaba por ser só para alguns? O passe social foi um grande passo na AML e AMP, mas há outras regiões que são esquecidas. O passe de comboio de Guimarães-Santo Tirso é de 35€ mensais. O passe social para estudantes é de 30€ e abrange todos os transportes. O direito à mobilidade é essencial para combater as assimetrias territoriais e sociais.
Todos temos direito a estudar no Ensino Superior, que pode e deve ser de qualidade e para todos e todas, sem exceções. Sem discriminações de natureza étnica, sexual ou de género. Mas para isso precisamos de acordar a voz adormecida e mostrar que somos realmente a “geração mais preparada de sempre”. Se somos os mais preparados, então saibamos utilizar essa ferramenta para transbordar o papel do estudante enquanto agente passivo de um futuro mercado de trabalho explorador e excludente. Nas universidades vamos à luta sem medo e, apesar do clima de medo, nunca estamos sozinhos. O ensino superior vai muito além de um diploma. É a oportunidade de usar a nossa voz.

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Resto dossier

Transformar a Academia

Transformar é a palavra de ordem para os temas deste dossier: Democratização do governo das instituições de Ensino Superior, combate à precariedade laboral, a luta anti-propinas, por mais financiamento público e uma Ação Social que não deixe ninguém de fora.  E a centralidade do conhecimento científico para enfrentar a crise que vivemos. Dossier organizado por Luís Monteiro.

O Ensino da Economia na Universidade portuguesa

O ensino da economia nas universidades portuguesas é acanhado, acrítico e desligado dos verdadeiros desafios que a disciplina se propõe a enfrentar. Por André Francisquinho, Estudante de Economia na UNL.

 

Somos todos bem-vindos (?)

Há barreiras enormes no acesso ao ensino superior para os alunos do ensino regular, quer pelo método de seleção, alojamento, propinas, despesas. Nos cursos profissionais, a situação não é diferente. Apenas 18% dos estudantes do ensino profissional prosseguem estudos para o Ensino Superior. Por Eduardo Couto, Ativista Estudantil e LGBTI+, estudante do Ensino Profissional
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Por uma gestão democrática do ensino superior

É precisamente a ausência de democracia e poder real nas mãos dos estudantes, que o sabem concentrado num sistema piramidal e em interesses alheios ao serviço público, que os tem afastado da participação. Por Eduardo Esteves, estudante de Direito na UP, e Pedro Moura, estudante de Ciência política na UM.

Saúde Mental no contexto universitário

Quando se é jovem e se está a começar uma vida como estudante do ensino superior, é-nos exigida a paz de espírito, o controle e a felicidade porque com a nossa idade ‘’ainda não existe experiência de vida suficiente para se estar mal”. No entanto, os números não mentem. Por Catarina Ferraz, ativista estudantil e social. Aluna do Ensino Superior.

 

Somos a voz adormecida que precisa de ser acordada

Se somos os mais preparados, então saibamos utilizar essa ferramenta para transbordar o papel do estudante enquanto agente passivo de um futuro mercado de trabalho explorador e excludente. Por António Soares, ativista estudantil na Universidade do Minho.

 

Sobre a gestão da Carreira Docente (concursos e progressão)

Talvez por tradição, a gestão de carreiras no Ensino Superior é notavelmente singular porque parece que estas instituições têm um procedimento que mais organização nenhuma tem em Portugal ou no estrangeiro. Por Rui Penha Pereira, Docente do Ensino Superior
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RJIES: tirar o esqueleto do armário

As instituições que adotaram o regime fundacional passaram a reger-se pelo direito privado em várias áreas, nomeadamente, na gestão financeira, patrimonial e do pessoal. A passagem a este regime revelou-se sinónimo de precarização das relações laborais de docentes, não-docentes e investigadores. Por Tomás Marques, estudante universitário e ativista estudantil.

 

Humanizar e Artestizar

As humanidades e artes continuam a ser os cursos a quem se pergunta o que fará da vida com isso. São áreas deficitárias que, enquanto se gasta dezenas de milhões para atrair (com cursos de gestão e afins) estudantes de países ricos, mantêm alunos de faculdades de Letras ou de Belas Artes a conviver com a degradação e até com a insalubridade. Por Pedro Celestino, Ativista Estudantil na Universidade de Lisboa

 

Para uma mudança do paradigma: o ensino superior a Nordeste

As instituições de ensino superior e as unidades de investigação desenvolvem as suas atividades recorrendo ao “exército” de bolseiros de investigação criado pela FCT que dá cobrimento ao já velho corpo docente que é, muitas vezes, um entrave à legalização da contratação dos recentes doutorados. Por Pedro Oliveira, Assistente convidado (precário) no Instituto Politécnico de Bragança.

A Universidade: do Elitismo à sua Democratização

Não podemos continuar a assumir, de uma forma indireta, que o aumento do número de alunos no Ensino Superior em Portugal vale por si só. É preciso saber, ao mesmo tempo, aumentar a qualidade desse Ensino. Por Catarina Rodrigues, estudante e ativista.

“Dura Praxis, Sed Praxis”

Desde o horrível caso do Meco, que a sociedade civil se debruçou sobre este fenómeno social com outros olhos. Mas o que é, ao certo, a praxe? Um grupo de estudantes? Uma “instituição” académica? Uma seita? Uma tradição? Por Miguel Martins, ativista social e estudantil. Estudante do Ensino Superior
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O mal-estar da Universidade

Esta é a realidade de toda uma geração: a precarização dos Assistentes Convidados, dos Bolseiros, dos Investigadores. Aliciados pelas promessas dos ganhos futuros, iludem-se continuamente enquanto lubrificam as engrenagens da sua própria máquina de exploração. Por Pedro Levi Bismarck, Arquiteto e Docente Precário na Universidade do Porto

 

A Universidade em tempo de crise: democracia precisa-se!

A entrada em vigor do RJIES traduziu-se em perda de autonomia institucional, diminuição da participação democrática nas decisões e precariedade nas relações laborais de docentes, investigadores e outros trabalhadores.  Por Ernesto Costa, Professor Catedrático da Universidade de Coimbra

 

O que é que o COVID-19 nos ensinou sobre a Ciência?

Depois desta pandemia passar, tem de ser pensada a criação de um programa de literacia cientifica. Não precisamos todos de perceber a fundo a investigação toda que se faz, deixemos isso aos investigadores profissionais. Mas seremos um país melhor se toda a gente perceber conceitos básicos de Ciência. Por Ana Isabel Silva, Investigadora do i3s e Ativista contra a Precariedade

 

A politização da mentira

Apenas com a informação mais atual, trazida pelas pessoas mais capazes para a fornecer, que já debateram, analisaram e trabalharam entre elas os dados apresentados, é que podemos decidir da melhor forma como efectivamente deve estar estruturada e organizada a nossa realidade. Por Rodrigo Afonso Silva, ativista estudantil e membro da Greve Climática Estudantil

 

Desigualdade de género no Ensino Superior

Apesar de as mulheres, no geral, serem mais graduadas que os homens – existem mais mulheres licenciadas, mestres ou doutoradas do que homens - , são ainda quem ganha menos e quem tem menos acesso a posições de liderança dentro e fora das Instituições de Ensino Superior. Por Leonor Rosas, estudante universitária, ativista estudantil e feminista.

 

O Ensino Superior Politécnico em Portugal

Com o passar do tempo o ensino superior politécnico e o ensino universitário sofreram uma aproximação em algumas áreas científicas que se materializou no ministrar de licenciaturas de caráter semelhante. Mas esta aproximação não resultou numa uniformização ao nível do ensino e da carreira docente. Por Rui Capelo, estudante do Instituro Politécnico de Setúbal.

O (Sub)Financiamento do Ensino Superior e a Propina

Devido ao subfinanciamento crónico do Ensino Superior, houve um aumento cada vez maior do peso das propinas no financiamento das IES. Por consequência, apesar de a Propina poder variar entre o valor mínimo e máximo, tendo as IES autonomia nesta decisão, o valor fixado é sempre muito próximo do máximo, de forma a contrapor o subfinanciamento. Por Ana Isabel Francisco, Ativista Estudantil na FCT UNL.

 

O mantra da “Autonomia Responsável”

O confinamento ou o Estado de Emergência não podem servir de pretexto para comprimir a fraca vivência democrática que o RJIES trouxe ao Ensino Superior. Por Luís Monteiro, Museólogo e Deputado do Bloco de Esquerda.

O regresso à anormalidade

A projetificação da ciência é a consequência direta da construção de um modelo que desconsidera a segurança laboral e que, por isso mesmo, se torna desumano e ineficaz. Esse modelo tem sido materialmente estimulado pelas instituições financiadoras em Portugal e na União Europeia. Por Miguel Cardina, Historiador e Investigador do CES-UC.

A Ciência Desconfinada

Como vamos “desconfinar” a ciência? Volta para o seu cantinho semi-escondido? Continuará ser um sector cronicamente subfinanciado? Continuará a ser a campeã da precariedade? Ou terá finalmente o reconhecimento que merece? Por Teresa Summavielle, Investigadora do i3S.