Está aqui

Saúde Mental no contexto universitário

Quando se é jovem e se está a começar uma vida como estudante do ensino superior, é-nos exigida a paz de espírito, o controle e a felicidade porque com a nossa idade ‘’ainda não existe experiência de vida suficiente para se estar mal”. No entanto, os números não mentem. Por Catarina Ferraz, ativista estudantil e social. Aluna do Ensino Superior.

Parte-se do princípio de que o Ensino Superior é símbolo de uma nova fase na vida de quem nele consegue ingressar. E parte-se do princípio, também, que todas e todos deveríamos ter direito a prosseguir estudos no Ensino Superior sob as mesmas condições. No entanto, a situação do Ensino Superior em Portugal é marcada por um desenvolvimento pouco democrático, fraco, desigual e dependente de uma agenda que nem sempre se coaduna com o interesse público. É sobre essa premissa que escrevo sobre um tema preocupante e pouco abordado: a saúde mental no contexto do Ensino Superior.

Ainda hoje, em Portugal, o estado de saúde mental é vista como um tabu sensível, que revela uma suposta fraqueza que deve ser escondida ou guardada. Quando se é jovem e se está a começar uma vida como estudante do ensino superior, é-nos exigida a paz de espírito, o controle e a felicidade porque com a nossa idade ‘’ainda não existe experiência de vida suficiente para se estar mal”. No entanto, os números não mentem. De ano para ano, assiste-se a um aumento de problemas mentais diagnosticados nos estudantes universitários e esses números podem ser justificados por uma maior pressão e competição no acesso ao ensino superior, pelo afastamento do círculo social ao qual os alunos estão acostumados, por motivos pessoais que os impedem de conseguir um melhor aproveitamento escolar, por motivos financeiros ou até mesmo por motivos de integração na universidade em que se encontram. 

A pressão e a competição no acesso ao ensino superior, que tem vindo a crescer nos últimos tempos, anda, em grande parte dos casos, de mão dada com as desigualdades e fragilidades financeiras de cada família. Os alunos de famílias mais favorecidas têm tendência a entrar nos cursos de maior prestígio e com maiores médias de acesso e, em contrário, os alunos de famílias com menos poder financeiro, têm tendência a não conseguir fazê-lo, entrando em cursos de médias inferiores. Isto acontece devido ao acesso a aulas extra e a explicações fora do ambiente escolar, no ensino secundário, que apenas alguns podem pagar, ou à inflação de notas, maioritariamente no ensino privado, frequentemente adotado por famílias mais abastadas.

Obviamente, os alunos que não conseguem ingressar na universidade e/ou no curso pretendido, devido a estes fatores externos, sentem-se mais abalados e fragilizados. O afastamento do seu círculo social habitual, o acrescer de responsabilidades e a pressão da integração são também temas relevantes quando falamos da saúde mental dos alunos.

Grande parte dos estudantes é obrigado a fazer as malas e instalar-se numa casa, apartamento ou residência, normalmente a preços exorbitantes, enquanto lhes restam as chamadas e as mensagens com os amigos e família que deixam para trás. Inicialmente, o êxtase pode levar ao esquecimento do nervosismo de ter a sua própria habitação e, consequentemente, o dobro da responsabilidade. A integração na universidade é fulcral e a entrada tem de ser feita com o pé direito (quando, às vezes, seria mais vantajoso uma entrada com o pé esquerdo).

O método de “integração” mais conhecido e até apoiado pelos órgãos das universidades é a praxe. A pressão social da maioria sobre os que pensam diferente torna o esquema mais pernicioso do que parece. Muitos participam porque acreditam não existir outro mecanismos para aceder a resumos partilhados, apoio pedagógico entre os alunos, espaços de convívio. Depois de um ano sob essas condições e a aprender de quem, por vezes, menos sabe, os alunos do primeiro ano já se sentem integrados pois fizeram amigos. Isto, claro, se concordarem com tudo o que lhes é dito. É o melhor dos dois mundos para quem está apostado em moldar o mundo à imagem da obediência e da força. A luta por um novo modelo de integração nas universidades, necessária para aqueles que não se querem ver obrigados a participar em atividades da praxe, é fraca e tem sofrido silenciamento por parte das instituições, das associações académicas e dos estudantes envolvidos em atividades de praxe.

Se estas impossibilidades, desigualdades e falta de investimentos se mantiverem, mantendo-se também o número crescente de entradas nas universidades, nunca conseguiremos ter um Ensino Superior que se diga totalmente democrático e igualitário e solidário. Com o crescer de diagnósticos em estudantes universitários, é também fundamental um sistema que apoie os alunos e, acima de tudo, que lhes ofereça acompanhamento psicológico, e ajuda financeira, nos casos onde essas medidas sejam necessárias.

(...)

Resto dossier

Transformar a Academia

Transformar é a palavra de ordem para os temas deste dossier: Democratização do governo das instituições de Ensino Superior, combate à precariedade laboral, a luta anti-propinas, por mais financiamento público e uma Ação Social que não deixe ninguém de fora.  E a centralidade do conhecimento científico para enfrentar a crise que vivemos. Dossier organizado por Luís Monteiro.

O Ensino da Economia na Universidade portuguesa

O ensino da economia nas universidades portuguesas é acanhado, acrítico e desligado dos verdadeiros desafios que a disciplina se propõe a enfrentar. Por André Francisquinho, Estudante de Economia na UNL.

 

Somos todos bem-vindos (?)

Há barreiras enormes no acesso ao ensino superior para os alunos do ensino regular, quer pelo método de seleção, alojamento, propinas, despesas. Nos cursos profissionais, a situação não é diferente. Apenas 18% dos estudantes do ensino profissional prosseguem estudos para o Ensino Superior. Por Eduardo Couto, Ativista Estudantil e LGBTI+, estudante do Ensino Profissional
.

 

Por uma gestão democrática do ensino superior

É precisamente a ausência de democracia e poder real nas mãos dos estudantes, que o sabem concentrado num sistema piramidal e em interesses alheios ao serviço público, que os tem afastado da participação. Por Eduardo Esteves, estudante de Direito na UP, e Pedro Moura, estudante de Ciência política na UM.

Saúde Mental no contexto universitário

Quando se é jovem e se está a começar uma vida como estudante do ensino superior, é-nos exigida a paz de espírito, o controle e a felicidade porque com a nossa idade ‘’ainda não existe experiência de vida suficiente para se estar mal”. No entanto, os números não mentem. Por Catarina Ferraz, ativista estudantil e social. Aluna do Ensino Superior.

 

Somos a voz adormecida que precisa de ser acordada

Se somos os mais preparados, então saibamos utilizar essa ferramenta para transbordar o papel do estudante enquanto agente passivo de um futuro mercado de trabalho explorador e excludente. Por António Soares, ativista estudantil na Universidade do Minho.

 

Sobre a gestão da Carreira Docente (concursos e progressão)

Talvez por tradição, a gestão de carreiras no Ensino Superior é notavelmente singular porque parece que estas instituições têm um procedimento que mais organização nenhuma tem em Portugal ou no estrangeiro. Por Rui Penha Pereira, Docente do Ensino Superior
.

 

RJIES: tirar o esqueleto do armário

As instituições que adotaram o regime fundacional passaram a reger-se pelo direito privado em várias áreas, nomeadamente, na gestão financeira, patrimonial e do pessoal. A passagem a este regime revelou-se sinónimo de precarização das relações laborais de docentes, não-docentes e investigadores. Por Tomás Marques, estudante universitário e ativista estudantil.

 

Humanizar e Artestizar

As humanidades e artes continuam a ser os cursos a quem se pergunta o que fará da vida com isso. São áreas deficitárias que, enquanto se gasta dezenas de milhões para atrair (com cursos de gestão e afins) estudantes de países ricos, mantêm alunos de faculdades de Letras ou de Belas Artes a conviver com a degradação e até com a insalubridade. Por Pedro Celestino, Ativista Estudantil na Universidade de Lisboa

 

Para uma mudança do paradigma: o ensino superior a Nordeste

As instituições de ensino superior e as unidades de investigação desenvolvem as suas atividades recorrendo ao “exército” de bolseiros de investigação criado pela FCT que dá cobrimento ao já velho corpo docente que é, muitas vezes, um entrave à legalização da contratação dos recentes doutorados. Por Pedro Oliveira, Assistente convidado (precário) no Instituto Politécnico de Bragança.

A Universidade: do Elitismo à sua Democratização

Não podemos continuar a assumir, de uma forma indireta, que o aumento do número de alunos no Ensino Superior em Portugal vale por si só. É preciso saber, ao mesmo tempo, aumentar a qualidade desse Ensino. Por Catarina Rodrigues, estudante e ativista.

“Dura Praxis, Sed Praxis”

Desde o horrível caso do Meco, que a sociedade civil se debruçou sobre este fenómeno social com outros olhos. Mas o que é, ao certo, a praxe? Um grupo de estudantes? Uma “instituição” académica? Uma seita? Uma tradição? Por Miguel Martins, ativista social e estudantil. Estudante do Ensino Superior
.

 

O mal-estar da Universidade

Esta é a realidade de toda uma geração: a precarização dos Assistentes Convidados, dos Bolseiros, dos Investigadores. Aliciados pelas promessas dos ganhos futuros, iludem-se continuamente enquanto lubrificam as engrenagens da sua própria máquina de exploração. Por Pedro Levi Bismarck, Arquiteto e Docente Precário na Universidade do Porto

 

A Universidade em tempo de crise: democracia precisa-se!

A entrada em vigor do RJIES traduziu-se em perda de autonomia institucional, diminuição da participação democrática nas decisões e precariedade nas relações laborais de docentes, investigadores e outros trabalhadores.  Por Ernesto Costa, Professor Catedrático da Universidade de Coimbra

 

O que é que o COVID-19 nos ensinou sobre a Ciência?

Depois desta pandemia passar, tem de ser pensada a criação de um programa de literacia cientifica. Não precisamos todos de perceber a fundo a investigação toda que se faz, deixemos isso aos investigadores profissionais. Mas seremos um país melhor se toda a gente perceber conceitos básicos de Ciência. Por Ana Isabel Silva, Investigadora do i3s e Ativista contra a Precariedade

 

A politização da mentira

Apenas com a informação mais atual, trazida pelas pessoas mais capazes para a fornecer, que já debateram, analisaram e trabalharam entre elas os dados apresentados, é que podemos decidir da melhor forma como efectivamente deve estar estruturada e organizada a nossa realidade. Por Rodrigo Afonso Silva, ativista estudantil e membro da Greve Climática Estudantil

 

Desigualdade de género no Ensino Superior

Apesar de as mulheres, no geral, serem mais graduadas que os homens – existem mais mulheres licenciadas, mestres ou doutoradas do que homens - , são ainda quem ganha menos e quem tem menos acesso a posições de liderança dentro e fora das Instituições de Ensino Superior. Por Leonor Rosas, estudante universitária, ativista estudantil e feminista.

 

O Ensino Superior Politécnico em Portugal

Com o passar do tempo o ensino superior politécnico e o ensino universitário sofreram uma aproximação em algumas áreas científicas que se materializou no ministrar de licenciaturas de caráter semelhante. Mas esta aproximação não resultou numa uniformização ao nível do ensino e da carreira docente. Por Rui Capelo, estudante do Instituro Politécnico de Setúbal.

O (Sub)Financiamento do Ensino Superior e a Propina

Devido ao subfinanciamento crónico do Ensino Superior, houve um aumento cada vez maior do peso das propinas no financiamento das IES. Por consequência, apesar de a Propina poder variar entre o valor mínimo e máximo, tendo as IES autonomia nesta decisão, o valor fixado é sempre muito próximo do máximo, de forma a contrapor o subfinanciamento. Por Ana Isabel Francisco, Ativista Estudantil na FCT UNL.

 

O mantra da “Autonomia Responsável”

O confinamento ou o Estado de Emergência não podem servir de pretexto para comprimir a fraca vivência democrática que o RJIES trouxe ao Ensino Superior. Por Luís Monteiro, Museólogo e Deputado do Bloco de Esquerda.

O regresso à anormalidade

A projetificação da ciência é a consequência direta da construção de um modelo que desconsidera a segurança laboral e que, por isso mesmo, se torna desumano e ineficaz. Esse modelo tem sido materialmente estimulado pelas instituições financiadoras em Portugal e na União Europeia. Por Miguel Cardina, Historiador e Investigador do CES-UC.

A Ciência Desconfinada

Como vamos “desconfinar” a ciência? Volta para o seu cantinho semi-escondido? Continuará ser um sector cronicamente subfinanciado? Continuará a ser a campeã da precariedade? Ou terá finalmente o reconhecimento que merece? Por Teresa Summavielle, Investigadora do i3S.