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Humanizar e Artestizar

As humanidades e artes continuam a ser os cursos a quem se pergunta o que fará da vida com isso. São áreas deficitárias que, enquanto se gasta dezenas de milhões para atrair (com cursos de gestão e afins) estudantes de países ricos, mantêm alunos de faculdades de Letras ou de Belas Artes a conviver com a degradação e até com a insalubridade. Por Pedro Celestino, Ativista Estudantil na Universidade de Lisboa

Pensar o ensino e a investigação académica é pensar o que queremos para o futuro das nossas sociedades, ou se queremos um futuro para as nossas  sociedades. Afinal este depende das pessoas, e as pessoas dependem daquilo que conhecem, pois é o saber que possuem que condiciona as escolhas que podem tomar (e efectivamente tomam) individual ou colectivamente, nas mais variadas questões como a educação, a economia ou a saúde. É principalmente no ensino superior e na investigação académica onde, por excelência, além de se reproduzir o conhecimento adquirido se faz a criação de novos saberes, consequentemente, é no ensino superior e na investigação que se escolhe os saberes de amanhã. Segue-se que muitas das escolhas que faremos amanhã estão condicionadas pelo que escolhemos aprender e investigar hoje. Daqui a importância de uma robusta e abrangente aposta na educação e investigação.

Mas num cenário triste na generalidade do ensino superior e investigação académica creio podermos afirmar haver áreas que estão particularmente mal servidas, entre elas as humanidades e as artes. Entenda-se, disciplinas como filosofia, historia, musica, pintura, línguas e literaturas, código artístico, dança, antropologia, design ou arqueologia entre tantas mais. Ou seja, consideramos que no mundo de amanhã estes saberes pouco importam e as escolhas que estes nos poderiam permitir são de pouca monta.

A mensagem política é clara, não precisamos de questionar a sociedade, pensar em ética ou no bem comum. Nem precisamos de saber de onde viemos ou como somos, pois o passado apenas demonstra que são as pessoas que criam linhas nos mapas e não as linhas no mapas que criam pessoas. Nem de compreender o outro ou sequer comunicar com o outro, cifrões dizem-nos todo o que necessitamos saber sobre o outro. Para quê a arte se não servir para inundar o espaço público com publicidade ou normaliza-lo. Ou submetermos a nossa privacidade e formas de comunicação e pesquisa à tecnologia centralizada e privada de uma forma que faria corar de inépcia a nova linguagem orweliana. Finalmente, não é necessário pensar a verdade ou nos factos, as bases de dados bastam para invadir a mente com todo o tipo de falsidades e eleger o nosso capitalista ou fascista preferido.

Mas pelo contrario creio que, pelo menos em parte, o papel sócio-cultural das humanidades e artes é pensarmos nisto tudo.

É preciso debater o bem para a economia ser uma ferramenta orientada para o mesmo. Filosofar sobre a verdade para combater o obscurantismo que se avizinha. Deixar a arte e cultura fluir para  podermos realmente compreender e relacionarmo-nos com o outro, afinal tão semelhante a nós. Para perceber que do outro lado apenas existem pessoas como nós separadas por acidentes históricos e não por um nacionalismo essencialista e bacoco. Precisamos de um novo mundo e para esse as artes e humanidades abrem-nos muitas possibilidades para darmos um sentido a vida, para lá de nos explorarmos até à exaustão para o enriquecimento de alguns e fornecer-nos  ferramentas para vivermos neste planeta, antes que seja esgotado pelo capitalismo nas suas várias desumanidades.

Mas as humanidades e artes continuam a ser os cursos a quem se pergunta o que fará da vida com isso. São áreas deficitárias que, enquanto se gasta dezenas de milhões para atrair (com cursos de gestão e afins) estudantes de países ricos, mantêm alunos de faculdades de Letras ou de Belas Artes a conviver com a degradação e até com a insalubridade e vida animal rasteira e indesejável, tal é a falta de condições materiais. Às quais se junta um corpo docente envelhecido, menor e sustentado pela precariedade dos mais jovens. Letras em Lisboa foi até abandonada a experiências neo-liberais de inspiração norte americana, e tem agora 3 semestres por ano (!), acho que ninguém percebeu realmente para que serve o terceiro semestre, além do potencial de mais cursos (pagos) de Verão, mas é certo ter-se perdido semanas de aulas e aprendizagem nos restantes e cerca de um mês inteiro para a realização de teses de licenciaturas. Por fim, nas bolsas e concursos de investigação continuam a ser as menos abrangidas, quase residuais, e avaliadas da mesma forma que saberes completamente distintos, o que e pessoalmente suspeito não ser a forma mais própria.

Criar um mundo melhor amanhã passa também por apostar hoje na educação e investigação sem a submeter aos ditames do mercado e do capital, reconhecendo as humanidades e artes como fundamentais e merecedoras de respostas públicas fortes e de um investimento digno e duradouro.

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Resto dossier

Transformar a Academia

Transformar é a palavra de ordem para os temas deste dossier: Democratização do governo das instituições de Ensino Superior, combate à precariedade laboral, a luta anti-propinas, por mais financiamento público e uma Ação Social que não deixe ninguém de fora.  E a centralidade do conhecimento científico para enfrentar a crise que vivemos. Dossier organizado por Luís Monteiro.

O Ensino da Economia na Universidade portuguesa

O ensino da economia nas universidades portuguesas é acanhado, acrítico e desligado dos verdadeiros desafios que a disciplina se propõe a enfrentar. Por André Francisquinho, Estudante de Economia na UNL.

 

Somos todos bem-vindos (?)

Há barreiras enormes no acesso ao ensino superior para os alunos do ensino regular, quer pelo método de seleção, alojamento, propinas, despesas. Nos cursos profissionais, a situação não é diferente. Apenas 18% dos estudantes do ensino profissional prosseguem estudos para o Ensino Superior. Por Eduardo Couto, Ativista Estudantil e LGBTI+, estudante do Ensino Profissional
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Por uma gestão democrática do ensino superior

É precisamente a ausência de democracia e poder real nas mãos dos estudantes, que o sabem concentrado num sistema piramidal e em interesses alheios ao serviço público, que os tem afastado da participação. Por Eduardo Esteves, estudante de Direito na UP, e Pedro Moura, estudante de Ciência política na UM.

Saúde Mental no contexto universitário

Quando se é jovem e se está a começar uma vida como estudante do ensino superior, é-nos exigida a paz de espírito, o controle e a felicidade porque com a nossa idade ‘’ainda não existe experiência de vida suficiente para se estar mal”. No entanto, os números não mentem. Por Catarina Ferraz, ativista estudantil e social. Aluna do Ensino Superior.

 

Somos a voz adormecida que precisa de ser acordada

Se somos os mais preparados, então saibamos utilizar essa ferramenta para transbordar o papel do estudante enquanto agente passivo de um futuro mercado de trabalho explorador e excludente. Por António Soares, ativista estudantil na Universidade do Minho.

 

Sobre a gestão da Carreira Docente (concursos e progressão)

Talvez por tradição, a gestão de carreiras no Ensino Superior é notavelmente singular porque parece que estas instituições têm um procedimento que mais organização nenhuma tem em Portugal ou no estrangeiro. Por Rui Penha Pereira, Docente do Ensino Superior
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RJIES: tirar o esqueleto do armário

As instituições que adotaram o regime fundacional passaram a reger-se pelo direito privado em várias áreas, nomeadamente, na gestão financeira, patrimonial e do pessoal. A passagem a este regime revelou-se sinónimo de precarização das relações laborais de docentes, não-docentes e investigadores. Por Tomás Marques, estudante universitário e ativista estudantil.

 

Humanizar e Artestizar

As humanidades e artes continuam a ser os cursos a quem se pergunta o que fará da vida com isso. São áreas deficitárias que, enquanto se gasta dezenas de milhões para atrair (com cursos de gestão e afins) estudantes de países ricos, mantêm alunos de faculdades de Letras ou de Belas Artes a conviver com a degradação e até com a insalubridade. Por Pedro Celestino, Ativista Estudantil na Universidade de Lisboa

 

Para uma mudança do paradigma: o ensino superior a Nordeste

As instituições de ensino superior e as unidades de investigação desenvolvem as suas atividades recorrendo ao “exército” de bolseiros de investigação criado pela FCT que dá cobrimento ao já velho corpo docente que é, muitas vezes, um entrave à legalização da contratação dos recentes doutorados. Por Pedro Oliveira, Assistente convidado (precário) no Instituto Politécnico de Bragança.

A Universidade: do Elitismo à sua Democratização

Não podemos continuar a assumir, de uma forma indireta, que o aumento do número de alunos no Ensino Superior em Portugal vale por si só. É preciso saber, ao mesmo tempo, aumentar a qualidade desse Ensino. Por Catarina Rodrigues, estudante e ativista.

“Dura Praxis, Sed Praxis”

Desde o horrível caso do Meco, que a sociedade civil se debruçou sobre este fenómeno social com outros olhos. Mas o que é, ao certo, a praxe? Um grupo de estudantes? Uma “instituição” académica? Uma seita? Uma tradição? Por Miguel Martins, ativista social e estudantil. Estudante do Ensino Superior
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O mal-estar da Universidade

Esta é a realidade de toda uma geração: a precarização dos Assistentes Convidados, dos Bolseiros, dos Investigadores. Aliciados pelas promessas dos ganhos futuros, iludem-se continuamente enquanto lubrificam as engrenagens da sua própria máquina de exploração. Por Pedro Levi Bismarck, Arquiteto e Docente Precário na Universidade do Porto

 

A Universidade em tempo de crise: democracia precisa-se!

A entrada em vigor do RJIES traduziu-se em perda de autonomia institucional, diminuição da participação democrática nas decisões e precariedade nas relações laborais de docentes, investigadores e outros trabalhadores.  Por Ernesto Costa, Professor Catedrático da Universidade de Coimbra

 

O que é que o COVID-19 nos ensinou sobre a Ciência?

Depois desta pandemia passar, tem de ser pensada a criação de um programa de literacia cientifica. Não precisamos todos de perceber a fundo a investigação toda que se faz, deixemos isso aos investigadores profissionais. Mas seremos um país melhor se toda a gente perceber conceitos básicos de Ciência. Por Ana Isabel Silva, Investigadora do i3s e Ativista contra a Precariedade

 

A politização da mentira

Apenas com a informação mais atual, trazida pelas pessoas mais capazes para a fornecer, que já debateram, analisaram e trabalharam entre elas os dados apresentados, é que podemos decidir da melhor forma como efectivamente deve estar estruturada e organizada a nossa realidade. Por Rodrigo Afonso Silva, ativista estudantil e membro da Greve Climática Estudantil

 

Desigualdade de género no Ensino Superior

Apesar de as mulheres, no geral, serem mais graduadas que os homens – existem mais mulheres licenciadas, mestres ou doutoradas do que homens - , são ainda quem ganha menos e quem tem menos acesso a posições de liderança dentro e fora das Instituições de Ensino Superior. Por Leonor Rosas, estudante universitária, ativista estudantil e feminista.

 

O Ensino Superior Politécnico em Portugal

Com o passar do tempo o ensino superior politécnico e o ensino universitário sofreram uma aproximação em algumas áreas científicas que se materializou no ministrar de licenciaturas de caráter semelhante. Mas esta aproximação não resultou numa uniformização ao nível do ensino e da carreira docente. Por Rui Capelo, estudante do Instituro Politécnico de Setúbal.

O (Sub)Financiamento do Ensino Superior e a Propina

Devido ao subfinanciamento crónico do Ensino Superior, houve um aumento cada vez maior do peso das propinas no financiamento das IES. Por consequência, apesar de a Propina poder variar entre o valor mínimo e máximo, tendo as IES autonomia nesta decisão, o valor fixado é sempre muito próximo do máximo, de forma a contrapor o subfinanciamento. Por Ana Isabel Francisco, Ativista Estudantil na FCT UNL.

 

O mantra da “Autonomia Responsável”

O confinamento ou o Estado de Emergência não podem servir de pretexto para comprimir a fraca vivência democrática que o RJIES trouxe ao Ensino Superior. Por Luís Monteiro, Museólogo e Deputado do Bloco de Esquerda.

O regresso à anormalidade

A projetificação da ciência é a consequência direta da construção de um modelo que desconsidera a segurança laboral e que, por isso mesmo, se torna desumano e ineficaz. Esse modelo tem sido materialmente estimulado pelas instituições financiadoras em Portugal e na União Europeia. Por Miguel Cardina, Historiador e Investigador do CES-UC.

A Ciência Desconfinada

Como vamos “desconfinar” a ciência? Volta para o seu cantinho semi-escondido? Continuará ser um sector cronicamente subfinanciado? Continuará a ser a campeã da precariedade? Ou terá finalmente o reconhecimento que merece? Por Teresa Summavielle, Investigadora do i3S.