Prazer, uma questão de género ou de opressão?

O dito desejo sexual feminino é um dos maiores campos de batalha de forças sociais contrárias. Criam-se arquétipos: a reservada e a fatal, onde nenhuma age por prazer. Quem resiste é catalogada de insubmissa, inconformada e frigida ou ninfomaniaca, sem o correspondente satírico ainda em uso. A galdéria, a vadia, a autodeterminada. Artigo de Carmo Gê Pereira.

31 de maio 2020 - 12:03
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Prazer, uma questão de género ou de opressão?

Tenho a vantagem de ter começado e feito o meu percurso nas áreas da sexologia e sexualidades de forma atípica. Quando há mais de dez anos comecei a trabalhar com sexualidade, o meu primeiro contacto foi através da venda de tecnologias para o prazer, vulgo sextoys e cosmética sexual. Um ano depois dei por mim a organizar rodas de conversa à volta de temas das sexualidades, apoiada por investigação na área dos estudos de género, a conduzir conversas à volta de filmes pornográficos, eróticos ou com conteúdo sexual e político. Dois anos depois criei e ministrei workshops que a partir de um espaço mais seguro permitiam uma exploração das ideias e práticas, que construídas colectivamente, se reflectem nas vidas de cada pessoa. Desde 2015, após a formação em sexologia, recebo pessoas individualmente, em casal e em constelação, no meu gabinete para aconselhamento sexual. Este caminho permitiu-me algumas vantagens: um ponto de partida através do prazer e não da patologização - uma visão crítica de que os desejos têm uma economia própria ditada por uma sociedade que determina quem tem direito a desejar e a ser desejado e como se pode ou não ter prazer (e quem o pode acessar). 

O prazer sexual, essa experiência física e psicológica de satisfação e gozo através de actividades eróticas e não limitado à experiência do orgasmo, além de uma importante dimensão da saúde sexual, é indissociável, no seu exercício autodeterminado e por escolha de uma experiência de Cidadania Íntima plena. 

Quando falo em Cidadania Íntima crio um pressuposto de  igualdade de status, direitos e poderes e uma compreensão comum do conceito de consentimento e das consequências das acções que permite a  vivência das preferências sexuais, orientações relacionais, sexuais e de atração, identidades e expressões de género com autonomia sexual da pessoa. 

Olhando para as questões de género e sexo e lembrando tantas outras multiplicações como as corporalidades  e espectros da diversidade funcional e da neurodiversidade, e aquelas tantas outras decorrentes de uma sociedade racista, capacitista, idadista, classista e diádica, deparamo-nos com algumas obviedades. Reconhecem-se diferentes camadas de opressão que se cruzam em cada pessoa permitindo maior ou menor acesso ao prazer. Vimos e vivemos numa tradição onde homens cisgénero fisicamente aptos têm maior acesso ao prazer assim como uma menor regulação sobre os seus corpos e desejos. 

Quando em 1969 Carol Hanish escreve que o pessoal é político, remete-nos para todas as vozes que clamavam a necessidade de repensar problemáticas que se reflectem no corpo em colectivo. Relembra-nos que não somos um indivíduo em bolha, mas sim produtos e produtores de uma sociedade, reflexo e matéria vivencial dos discursos que criamos. É um grito pelo colectivo, um convite à reflexão, ao mesmo tempo que acusa um sistema de opressão sistemática.

Vejamos a questão da chamada Lacuna do Prazer: em mulheres cisgénero heterossexuais é 4 vezes mais provável que o prazer sexual seja menos prazeroso que o do parceiro, mas estudos diferentes comprovam que o mesmo não acontece em relações lésbicas onde a satisfação mútua assume um lugar maior. Outros estudos demonstram que mais de 50% das pessoas com vulva já fingiu orgasmo. Pensemos no escrutínio a que mulheres trans são sujeitas com perguntas invasivas sobre que genital têm e quais, quantos e quando são as acomodações previstas de acordo com os preceitos binários.

Vamos olhar para a história do corpo assignado mulher à nascença e pensemos no reconhecimento tardio do clitóris completo pela ciência moderna, cartografado por Hellen O’Connel em 1998. Ou as tentativas de patologização de fenómenos corporais como o esguichar (squirting), a última das quais feita por Salama em 2015, que levantou rugidos no twitter com a hashtag #ITSNOTPEE.

Reparemos no crescente poder da demonização de algo chamado de “ideologia de género” que curiosamente é cunhada na Igreja em oposição a resoluções da Conferência Mundial de Beijing sobre a Mulher, em 1995, onde se orientou a substituição do termo "mulher" por "género" nos documentos da ONU e apontou a desigualdade entre homens e mulheres como problema estrutural que só poderia ser abordado por “uma perspectiva integral de género”.

Carol Vance mostra como a tensão entre prazer sexual e perigo sexual se torna possante na vida das mulheres, num controle social constante do prazer feminino feito por grupos sociais conservadores, com o objectivo de proteger a instituição da família.

O dito desejo sexual feminino torna-se assim um dos maiores campos de batalha de forças sociais contrárias. Criam-se arquétipos: a reservada e a fatal, onde nenhuma age por prazer. Quem resiste é catalogada de insubmissa, inconformada e frigida ou ninfomaniaca, sem o correspondente satírico ainda em uso. A galdéria, a vadia, a autodeterminada.

Mas também nos relembra que algo neste encarnar de feminilidade, seja por uma mulher trans, cis, ou pessoa não binária, ou o vivenciar de qualquer outra identidade que não a masculinidade hegemónica tóxica, é assustador, é disruptor, provoca uma reacção de violência cultural e sistemática apenas por existir. Mais violenta quanto mais se afasta da medida curta do patriarcado.

A potência do prazer - fora de uma escala de função sexual ou reprodutiva – é talvez uma medida de liberdade, numa proposta de olhar para o mundo a partir dessa óptica. Quem pode ou não pode ter prazer é mais ou menos livre? Se assim o virmos, o prazer é ponto de intersecções - e muito menos livres são os corpos que não encaixam numa sociedade sexista, transfóbica, binária, capacitista, racista, misógina, e capitalista.

Nos últimos tempos cruzei-me com os textos e livro da maravilhosa Adrienne Maree Brown, que me permitiu dar um nome ao que andava a fazer: activismo pelo prazer. 

Nas palavras dela: “O ativismo do prazer é o trabalho que fazemos para reclamar o nosso todo, feliz e satisfatório, dos impactos, enganos e limitações da opressão e, ou supremacia. O ativismo do prazer afirma que todos nós precisamos e merecemos prazer e que nossas estruturas sociais devem refletir isso. Neste momento, devemos priorizar o prazer dos mais afetados pela opressão.”


Carmo Gê Pereira, educadora sexual para adultos - www.carmogepereira.pt

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