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Do outro lado do espelho

De espaços masculinos passamos a espaços segregados; agora, já fazemos a disputa pela paridade. No entanto, o sistema patriarcal-capitalista manteve-se e, por isso, a opressão e a exploração não são conversa ultrapassada, mas realidade quotidiana. Precisamos perguntar-nos se este modelo nos serve, se o que nos mobiliza, afinal, é a igualdade num sistema de dominação ou o fim da dominação. Artigo de Andrea Peniche.
Do outro lado do espelho
Fotografia de Wikimedia Commons.

Se te perguntasse qual é o feminino de Embaixador (carreira diplomática) o que responderias? Se te perguntasse qual é masculino de Primeira-Dama o que responderias? Provavelmente, à primeira pergunta responderias Embaixatriz, e, à segunda, terias de pensar um bocadinho mais antes de conseguires responder. Embaixadora e Primeiro-Cavalheiro não são palavras que nos ocorram imediatamente, porque não temos o hábito de usá-las. Afinal, quantas mulheres chefes de Estado conheces? Quantas Embaixadoras de carreira conheces? 

Lembras-te quando Dilma Rousseff disse querer ser chamada de presidenta? Caiu o Carmo e a Trindade, que a palavra não existia - apesar de estar dicionarizada desde 1925 -, que o masculino é neutro - portanto, inclui o feminino. Não é machismo, é a gramática, estúpida! Como se a gramática não fosse uma construção humana e como se as relações humanas não fossem relações de poder. Como se o português fosse uma língua morta e não uma língua viva. Como se a forma como é percebida a língua, no espaço-tempo que habitamos, não fosse razão suficiente para pensarmos sobre o assunto. Como se a língua fosse propriedade de uma fidalguia intelectual e dispensasse o debate. Isabel Barreno chamou-lhe “falso neutro”. E é mesmo disso que se trata, senão vejamos: quando Carolina Beatriz Ângelo invocou em tribunal o direito a ser abrangida pelo recenseamento, já que cumpria a lei eleitoral - tinha mais de 21 anos, sabia ler e escrever e era chefe de família (era viúva e garantia o sustento de uma filha menor) – e, a 28 de maio de 1911, votou, a lei foi rapidamente alterada, especificando que apenas os chefes de família do sexo masculino poderiam votar.

Já ouviste alguém dizer uma frase do tipo: “Ela não faz nada, ela é dona de casa”? Como se as tarefas domésticas e do cuidado não fossem trabalho. Como se trabalho fosse apenas o que se realiza a troco de salário e na economia formal. As mulheres das classes populares sempre trabalharam, porque os ricos sempre precisaram de serviçais e elas de contribuir para o sustento da família, acumulando com o trabalho doméstico nas suas casas. 

Sabias que três das maiores escritoras inglesas, as irmãs Charlotte, Emily e Anne Brontë, começaram a sua vida literária usando nomes masculinos e com eles assinaram os romances Jane Eyre, O Monte dos Vendavais e Agnes Grey? Sabias que George Sand era uma mulher, a Amantine Dupin? Por isso Virginia Woolf, em Um quarto que seja seu, diz atrever-se a supor que «“Anónimo”, que escreveu tantos poemas sem assiná-los, era frequentemente mulher».

Sabes quem foi Berta Schubaroff? Foi uma das Madres da Plaza de Mayo, uma organização de mulheres que, desde 1977, todas as quintas-feiras ocupa a Plaza de Mayo, em Buenos Aires, a exigir justiça pelos crimes da ditadura, nomeadamente a localização e restituição às suas famílias das crianças desaparecidas durante a ditadura militar, umas sequestradas juntamente com os seus pais, outras nascidas em cativeiro. Berta Schubaroff era uma dessas Madres, mas as notícias que deram conta da sua morte apresentaram-na como ex-esposa de Juan Gelman, um importante poeta de quem estava divorciada há 51 anos.

Já ouviste falar em mães solteiras? Já te perguntaste o que tem o estado civil que ver com maternidade? Conheces alguma Associação de Pais? Já te deste conta que a maioria das pessoas que nelas participam são mulheres? Já reparaste como somos representadas? Já te deste conta da quantidade de vezes que se nos referem como a mulher de, a filha de, a amante de, como se a nossa existência reclamasse uma figura tutelar, como se só pudéssemos ser definidas pela relação que temos com os homens, como se não fossemos pessoas por inteiro, como se fossemos carência e o masculino fosse a norma. E o pior é que é. 

Muito mudou, e ainda bem, mas, se calhar, precisamos de pensar se nos basta a forma como as coisas têm mudado. De espaços masculinos passamos a espaços segregados; agora, já fazemos a disputa pela paridade. No entanto, o sistema patriarcal-capitalista manteve-se e, por isso, a opressão e a exploração não são conversa ultrapassada, mas realidade quotidiana. Vamos abrindo portas e vamos entrando – na escola, na política, nos trabalhos ditos prestigiantes -, mas precisamos perguntar-nos se este modelo nos serve, se o que nos mobiliza, afinal, é a igualdade num sistema de dominação ou o fim da dominação. Mobilizamo-nos pelo fim dos “tetos de vidro” ou pelo fim do diferencial entre os salários mais altos e os mais baixos? Acomodamo-nos ao que existe ou rejeitamo-lo e inventamos novos modos de vida? Se escolhermos a primeira possibilidade, basta-nos a igualdade de género; se escolhermos a segunda, temos muito que fazer.


Andrea Peniche, editora, ativista feminista, membro do coletivo feminista A Coletiva.

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