Literacia de corpo

O ciclo menstrual vem sendo referido por entidades na área da saúde ginecológica e pediátrica como um sinal vital de saúde, a ser observado quando se apresenta fora da norma, retirando-o da cena reprodutiva ao qual esteve reduzido desde sempre.
Esta mudança é importante pois retira o foco da menstruação e foca-se no ciclo menstrual como barómetro interno de saúde geral. Artigo de Patrícia Lemos.

31 de maio 2020 - 12:03
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Literacia de corpo

A chegada da menarca (primeira menstruação) é um marco na vida de quem menstrua, quer por questões de enquadramento social, quer porque sinaliza um corpo saudável, a instalação da puberdade e a entrada nos anos férteis. 


Permanecemos cultural e clinicamente focados no sangue menstrual, quando a menstruação é apenas parte de um todo que o justifica: o ciclo menstrual.


Desde 2015 que o ciclo menstrual vem a ser referido por entidades internacionais na área da saúde ginecológica e pediátrica[1] como um sinal vital de saúde, que deve ser observado e investigado quando se apresenta fora da norma, retirando-o da cena reprodutiva ao qual esteve reduzido exclusivamente desde sempre.


Esta é uma mudança importante porque propõe uma perspectiva inovadora: retirar o foco da menstruação para abranger todo o ciclo menstrual e, depois, olhar para este "todo" como barómetro interno de saúde geral.


Ao entendimento e valoração da expressão deste sinal vital damos o nome de “literacia de corpo” e é urgente reformular, com base na evidência recente, a informação passada sobre o ciclo menstrual a pais, educadores, cuidadores, jovens e profissionais de saúde. 



Importa sobretudo atualizar o que é "normal" na linha de tempo dos quarenta anos menstruais, por questões de qualidade de vida de quem menstrua, para promoção de escolhas adequadas relativamente à gestão da saúde menstrual, sexual e reprodutiva, e para que não tardem diagnósticos de condições de saúde.

A dificuldade da gestão da menstruação, seja por questões de pobreza menstrual seja por sintomas associados, empurra facilmente quem menstrua (e sobretudo jovens e adolescentes) no sentido da supressão do ciclo através de contraceção hormonal contínua.

Ora, se por um lado é absolutamente inegável a sua importância nos últimos 50 anos, e utilidade na gestão da nossa fecundidade, por outro, urge respeitar o processo e o tempo de maturação do corpo adolescente sob pena de incorrermos numa medicalização desnecessária, silenciando sintomas que podem ser valiosas pistas no sentido de um diagnóstico precoce.


O olhar sobre a dor menstrual forte, a irregularidade de ciclo, os períodos abundantes e todas as maleitas conhecidas de um corpo que menstrua, são hoje vistas sob outra lente: são ajudas ao diagnóstico de condições de saúde relacionadas com o funcionamento da tiróide, questões genéticas, de coagulação, endócrinas ou metabólicas, endometriose, etc. que devem ser investigadas.


Precisamos de políticas de educação para a literacia de corpo que não é a educação sexual que promovemos nas escolas, onde o ciclo menstrual permanece reduzido à sua função reprodutora.


Nem todas as pessoas que menstruam querem fazer uso dessa sua possibilidade reprodutiva mas todas deveriam saber que o ciclo lhes é útil como sistema de feedback de saúde, e que as hormonas produzidas durante o ciclo menstrual impactam positivamente na sua saúde óssea, cardio-vascular, mamária, etc., a fim de poderem fazer escolhas informadas e adequadas às suas diferentes fases de vida.


A literacia de corpo é um recurso tão essencial ao indivíduo que menstrua, quanto indispensável às novas políticas de saúde pública, para atualização de políticas de promoção da saúde, na otimização de processos e no encurtamento dos tempo de diagnóstico.


Patrícia Lemos, educadora menstrual e para a fertilidade. Fundadora do Círculo Perfeito®.


Notas

  1. ^ Colégio Americano de Ginecologistas e Obstetras; Associação America de Pediatria
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