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Por uma assembleia constituinte soberana, o combate continua!

O Partido Socialista dos Trabalhadores é um dos partidos da esquerda argelina, fundado nos anos 70 do encontro de um grupo de sindicalistas do leste do país e de um círculo de estudantes da Universidade de Argel. Reproduzimos aqui o comunicado publicado pela sua direção após a queda de Bouteflika.
Para o PST, a hora é de auto-organização das massas populares argelinas
Para o PST, a hora é de auto-organização das massas populares argelinas

Ao impor neste dia 2 de abril a demissão de Bouteflika, encarnação de um regime liberal oligárquico, autoritário, quase monárquico e submetido aos interesses das potências estrangeiras imperialistas, os trabalhadores, os jovens, as mulheres e o conjunto das massas populares arrancaram, depois de mais de 40 dias de greves e de manifestações massivas sem precedente, uma preciosa e histórica primeira vitória.

Com efeito, para além das manifestações gigantescas em todas as cidades do país, foi a greve geral iniciada em 10 de março pelos trabalhadores em muitos setores, tais como os campos petrolíferos e de gás do Sul, os transportes aéreo e ferroviário, as atividades portuárias, a educação e a saúde, a administração dos impostos, as profissões liberais e os pequenos comerciantes, etc., que ampliou a crise do regime e acelerou as divisões do poder. Assim, no dia 11 de março, Bouteflika renunciava ao quinto mandato, mesmo pretendendo prolongar o quarto.

Neste contexto de crise que ameaçava todo o sistema, o chefe do Estado Maior do Exército, Gaïd Salah, encorajado pelos apelos da oposição liberal, investiu-se no novo papel de “árbitro salvador” do sistema. Aquele a quem ele chamava “fakhamatouhou”1 ainda há poucos dias, transformou-se num perigo para todo o regime. Para salvar o sistema, era preciso fazer partir Bouteflika o mais depressa possível, por um lado, e por outro atacar alguns oligarcas do círculo presidencial símbolos da corrupção e da predação, com o objetivo de acalmar a revolta popular e deter o Hirak2. Além disso, para assegurar a continuidade do sistema no quadro de uma transição controlada, o exército impôs à partida “uma solução legalista no quadro da Constituição”. Assim, põe de lado qualquer outra alternativa política. Finalmente, um forcing “mediático-propagandista” é posto em marcha para prefabricar um “apoio popular” à ação do chefe do Estado Maior do Exército que, no seu último comunicado ameaçador de 2 de abril, declara não reconhecer a Presidência e insinua de facto que poderá desferir um “golpe de Estado branco”.

Para o PST, a irrupção do Exército na crise política atual, longe de constituir uma solução, consagra uma ação de força. A repressão e detenção de manifestantes nesta quarta 3 de abril na Praça do Correio em Argel contradiz os “impulsos de admiração pelo Hirak popular” que davam ritmo aos comunicados do Exército.

Para o PST, a sublevação das massas populares contra o regime, iniciada a 22 de fevereiro de 2019, põe em causa todo o sistema, as suas instituições e a sua Constituição. Nenhum remendo de fachada, nenhum subterfúgio de transição, nenhum homem providencial pode substituir a vontade do povo, fonte de toda a legitimidade democrática.

Para o PST, só a eleição de uma assembleia constituinte soberana, representativa das aspirações democráticas e sociais dos trabalhadores, dos jovens, das mulheres e de todos os oprimidos do nosso país pode constituir uma verdadeira solução democrática para a crise atual. Para o PST, a hora é de auto-organização das massas populares argelinas nas fábricas, nas universidades e nos liceus, nos bairros e nas cidades, ao nível das mulheres e dos desempregados, etc., por um lado, e por outro, a prioridade é a reconquista das nossas liberdades democráticas, nomeadamente as liberdades de expressão, de organização, de manifestação assim como as nossas liberdades sindicais e o nosso direito de greve.

Para o PST, esta primeira vitória contra o regime de Bouteflika mostra o caminho. A nossa mobilização massiva, as nossas magníficas manifestações e as nossas múltiplas greves deram resultado!

Continuemos o nosso combate!

O Secretariado Nacional do PST

Argélia, 3 de abril de 2019

Retirado da página do Facebook do PST

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

1“Sua excelência”, em árabe clássico.

2“Movimento” em árabe.

(...)

Resto dossier

"Fora o sistema" é o lema das mobilizações

Argélia em revolução contra o "sistema"

A Argélia vive, desde 22 de fevereiro, as maiores mobilizações da sua história recente. Milhões de pessoas, todas as sextas-feiras, manifestam coletivamente a sua vontade que se pode resumir numa palavra de ordem: “Fora o sistema”. Já conseguiram a demissão do presidente. Dossier organizado por Luis Leiria.

A palavra de ordem de uma Assembleia Constituinte soberana a via a uma mudança radical e realmente democrática do “sistema”.

Argélia: A democracia, a Constituição e o desafio da transição

Nas forças que querem o fim do sistema, há os que pedem um governo de transição encarregado de organizar a eleição de um novo presidente, o qual desencadearia reformas. Mas há também os que reivindicam um processo constituinte para uma verdadeira rutura democrática e uma nova estrutura de poder. Por Nadir Djermoune.

No cartaz lê-se: "Testei este regime e não emagreci, então mudo de regime"

Argélia: Não é senão o início

Seis semanas de mobilizações de milhões em toda a Argélia dividiram o poder e levaram à demissão do Presidente Abdelaziz Bouteflika. Neste artigo, Hocine Belalloufi analisa os meandros do processo que abala o país e abre o debate estratégico sobre as suas perspetivas.

"Pela centésima segunda vez: Fora!". Cartaz faz alusão ao artigo 102 da Constituição argelina. Foto de Nesrine Kheddache

O exército e a dinâmica do levantamento popular “antissistema”

Qual será o papel do Exército argelino, que forma a coluna vertebral do país, na transição política? Semelhante ao do exército do Egito? Ou ao de Portugal no 25 de Abril? Por Nadir Djermoune.

 

Para o PST, a hora é de auto-organização das massas populares argelinas

Por uma assembleia constituinte soberana, o combate continua!

O Partido Socialista dos Trabalhadores é um dos partidos da esquerda argelina, fundado nos anos 70 do encontro de um grupo de sindicalistas do leste do país e de um círculo de estudantes da Universidade de Argel. Reproduzimos aqui o comunicado publicado pela sua direção após a queda de Bouteflika.

Louisa Hanoune, secretária-geral do PT

Maioria do povo disse: “vão-se embora sem exceção”

Reação do Partido dos Trabalhadores (PT) da Argélia à demissão de Bouteflika.

A construção do futuro comum não pode ser feita sem uma igualdade plena e inteira entre as cidadãs e os cidadãos, sem distinção de género, de classe, de região ou de crenças. Foto de Fototeca do NPA.

Mulheres argelinas: “Reafirmamos a nossa determinação de mudar o sistema existente”

Vivemos atualmente uma magnífica sublevação popular pacífica contra o sistema político existente. A presença massiva de mulheres nas manifestações testemunha as profundas transformações da nossa sociedade e exige um reconhecimento dos direitos das mulheres numa Argélia igualitária.

Mulheres argelinas na manifestação de 8 de março em Argel. Imagem do vídeo de Drifa

Uma adesão feminina muito forte

Muitas mulheres tomaram consciência da utilidade de se organizarem em coletivos para reivindicar os seus direitos e exigir o fim do sistema existente ao lado dos seus compatriotas, como era o caso durante a guerra de libertação nacional, explica a militante feminista Titi Haddad. Entrevista de Antoine Larrache.

Poço de petróleo na Argélia. Foto de By aka4ajax, CC BY 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=57761438

Uma economia agonizante?

“A Argélia é uma economia agonizante. A tal ponto que a pergunta não é se vai quebrar ou não, mas sim quando”, escreve o Xerfi (instituto de estudos privado, especializado na análise económica sectorial em França e a nível internacional). Em 2014 especialistas tentaram reformar uma economia baseada no petróleo. Antes que o regime enterrasse as propostas que ele mesmo tinha encomendado. Por Amélie Perrot.

Sede da petrolífera Sonatrach em Oran, Argélia

Portugal importa 50% do seu gás natural da Argélia

País tem uma economia totalmente dominada pela produção e exportação de combustíveis fósseis. Petrolífera argelina é acionista da EDP.

Mobilização em Argel

Cronologia: da candidatura ao 5º mandato à demissão de Bouteflika

No dia 2 de fevereiro era anunciada a candidatura de Bouteflika ao seu 5º mandato. No dia 2 de abril, demitiu-se ainda antes de terminar o 4º. De uma data à outra, ocorreram as maiores manifestações de massas da história recente da Argélia. Que prosseguem, porque nem a demissão as acalmou.