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Mulheres argelinas: “Reafirmamos a nossa determinação de mudar o sistema existente”

Vivemos atualmente uma magnífica sublevação popular pacífica contra o sistema político existente. A presença massiva de mulheres nas manifestações testemunha as profundas transformações da nossa sociedade e exige um reconhecimento dos direitos das mulheres numa Argélia igualitária.
A construção do futuro comum não pode ser feita sem uma igualdade plena e inteira entre as cidadãs e os cidadãos, sem distinção de género, de classe, de região ou de crenças. Foto de Fototeca do NPA.
A construção do futuro comum não pode ser feita sem uma igualdade plena e inteira entre as cidadãs e os cidadãos, sem distinção de género, de classe, de região ou de crenças. Foto de Fototeca do NPA.

Este sistema reinou sem partilha, desde a independência, usando todos os meios coercitivos e autocráticos para impedir qualquer veleidade de mudança e de democratização do país. Para além da destruição das instituições da República (saúde, educação, justiça, cultura, etc.), a corrupção, o autoritarismo e as injustiças sociais, este sistema pôs também em movimento uma estratégia maquiavélica que mantém e reforça um pensamento e práticas promovendo a desigualdade no seio da sociedade. As mulheres argelinas pagaram um preço alto, tanto no plano simbólico, formal, quanto no plano real.

Com efeito, a história das lutas argelinas é testemunho do envolvimento massivo das mulheres em todos os combates justos e decisivos que o país travou: a Guerra de Libertação Nacional, a edificação do Estado argelino independente, a revolta de outubro de 1988, as lutas sindicais, estudantis e democráticas antes e depois de outubro de 1988, a luta contra os grupos integristas armados durante os anos 1990, etc.. Combates que elas pensaram, elaboraram e travaram ao lado dos homens na esperança de construir uma sociedade igualitária e de ver esta igualdade concreta, vivida durante estes momentos difíceis, tornar-se uma conquista indiscutível logo que os objetivos sejam atingidos.

Infelizmente, esta igualdade prometida ainda não foi conseguida. 

Infelizmente, esta igualdade prometida ainda não foi conseguida. A escolarização massiva das raparigas e o seu cortejo de diplomadas competentes, a nossa presença das mais notáveis no mundo do trabalho, bem como as modificações legislativas e regulamentares arrancadas por décadas de lutas não retiraram ainda as mulheres da sua menorização na sociedade, que se mantém patriarcal, e de um estatuto de cidadania de segunda classe nas instituições.

A participação ativa e incondicional das mulheres argelinas no Movimento do 22 de fevereiro incita-nos a reafirmar a nossa determinação de mudar o sistema existente com todas as suas componentes, incluindo a sua vertente sexista, patriarcal e misógena.

No dia 16 de março de 2019, realizou-se uma reunião de mulheres em Argel. Na sequência de um debate e de uma longa concertação, ficou decidido o que se segue:

Nós, mulheres signatárias desta declaração, estamos convencidas de que a construção do nosso futuro comum não pode ser feito sem uma igualdade plena e inteira entre as cidadãs e os cidadãos, sem distinção de género, de classe, de região ou de crenças.

Devemos continuar a estar presentes em todo o lado com os nossos colegas, nossos vizinhos, para fazer perdurar esta bela mistura em todas as manifestações, mas também para tornar mais visível a nossa reivindicação de igualdade.

Decidimos a criação de um coletivo feminista que tomará posição todas as sextas-feiras no portal da Faculdade central de Argel a partir das 13h.

Apoiamos e encorajamos iniciativas semelhantes em todo o território argelino e subscrevemos totalmente as declarações que considerem que a igualdade entre as mulheres e os homens é uma das prioridades para a mudança do sistema atual.

Apelamos a todas as mulheres que se reconheçam neste apelo que juntem as suas assinaturas às nossas, que integrem os coletivos feministas onde eles existirem ou que os criem quando as condições o permitirem, e que participem nas nossas próximas reuniões cuja data e lugar serão comunicados publicamente.

Apelamos a levar em conta a representatividade paritária das mulheres em qualquer iniciativa cidadã para a saída desta crise.

Condenamos qualquer ato de assédio durante as manifestações.

Argel, 16 de março de 2019

Publicado em A l’encontre

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

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