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Uma adesão feminina muito forte

Muitas mulheres tomaram consciência da utilidade de se organizarem em coletivos para reivindicar os seus direitos e exigir o fim do sistema existente ao lado dos seus compatriotas, como era o caso durante a guerra de libertação nacional, explica a militante feminista Titi Haddad. Entrevista de Antoine Larrache.
Mulheres argelinas na manifestação de 8 de março em Argel. Imagem do vídeo de Drifa
Mulheres argelinas na manifestação de 8 de março em Argel. Imagem do vídeo de Drifa

Como as mulheres se envolvem no processo atual?

Desde o início deste movimento popular, as mulheres de mediato se envolveram nas diferentes manifestações. Vimos uma adesão feminina muito forte na sequência dos apelos lançados por coletivos de mulheres, nomeadamente em Alger, Bejaia e Bouira, para o dia internacional das lutas das mulheres, que é o 8 de março.

A partir daí, muitas outras mulheres tomaram consciência da utilidade de se organizarem e de se constituírem em coletivos para reivindicar os seus direitos e na mesma ocasião exigir o fim do sistema existente ao lado dos seus compatriotas argelinos, como era o caso durante a guerra de libertação nacional.

E, recordemos, é graças à sua participação efetiva e gloriosa que pudemos arrancar conquistas consideráveis, nomeadamente a rejeição do estatuto pessoal de 1966 inspirado na Sharia, assim como outras conquistas democráticas e sociais, como a escolarização e o direito ao trabalho.

Quanto à agressão que ocorreu durante uma manifestação, podes contar-nos e explicar as reações?

Na manhã da marcha do 29 de março em Argel, mulheres de um coletivo criado recentemente sofreram agressões da parte de alguns manifestantes. Outras feministas, que estavam a afixar artigos do Código da Família com o objetivo de sensibilizar a sociedade para a situação das mulheres,

tiveram a mesma sorte. Foram insultadas e violentadas e isso diante dos olhos dos serviços de segurança que nem mesmo reagiram face a este ato condenável.

Isto evidentemente suscitou muitas reações, certas condenando estas agressões, outras se alegraram com a reviravolta no curso dos acontecimentos. Isto é esclarecedor sobre a situação inquietante na qual se encontra a mulher argelina, que é produto do endurecimento das ideias conservadoras e retrógradas e a descontinuidade das lutas progressistas.

Pode explicar o peso da década negra e da tradição na luta das mulheres?

Com o ascenso do islamismo no início dos anos 80, assistimos a uma degradação flagrante da situação das mulheres na Argélia, apesar de elas terem enfrentado o terror integrista com mobilizações extraordinárias como a do 8 de março de 1989. Mas o movimento das mulheres não deixou de retroceder, o maremoto da Frente Islâmica de Salvação (FIS) nas eleições locais de 12 de junho de 1990 pôs fim à sua dinâmica, uma imensa vaga retrógrada veio à superfície, com agressões brutais na sequência, um terror misógino e assassinatos.

O movimento de mulheres que se construiu sobre reivindicações como a revogação do Código da Família e a igualdade dos sexos assumiu uma postura de resistência e de sobrevivência contra o terrorismo, mas o combate das mulheres esvaziou-se de forças vivas. Algumas saíram do país, outras preferiram manter silêncio, por medo de sofrerem a mesma sorte da defunta militante Nabila Djahnine, ou ainda a de Katia Ben Gana, que rejeitou o diktat sobre a forma de vestir dos integristas. Mas apesar de todas estas dificuldades, as mulheres não devem abandonar o combate, a esperança ainda é permitida. O nosso país está a viver uma verdadeira revolução que visa fazer cair o sistema atual e ir em direção a uma assembleia constituinte soberana, representativa das aspirações dos trabalhadores, dos estudantes, dos desempregados, dos reformados, mas também das mulheres. É por isso que todas estas categorias da sociedade devem se auto-organizar e juntar a sua luta às outras para chegar a uma sociedade justa e igualitária.

4 de abril de 2019

Publicado no site do NPA

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

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