As eleições americanas aconteceram no decorrer de uma das maiores ondas de calor já registadas no país e pouco depois de dois grandes furacões, Helen e Milton, causarem inúmeros prejuízos económicos e centenas de mortes. Mas isso não foi suficiente para que os americanos deixassem de votar em Donald Trump, um declarado negacionista climático. Escolhido pela maioria dos estados, Trump retorna à Casa Branca após quatro anos, com promessas de ser ainda mais duro com restrições ambientais.
A vitória de Trump agitou o movimento ambientalista com declarações contundentes sobre os riscos que mais um mandato do republicanos pode significar para a luta no combate às mudanças climáticas. Uns menos pessimistas do que outros, mas todos preocupados com o que está por vir.
“A emergência climática exige líderes comprometidos com as mudanças que precisam ser feitas e a eleição de Trump vai significar um atraso de pelo menos quatro anos nessa agenda, com efeitos devastadores neste momento crucial. Um país como os Estados Unidos, presidido por um negacionista climático, coloca em risco todos os esforços para o enfrentamento da crise climática”, afirmou Adriana Ramos, secretária-executiva do Instituto Socioambiental (ISA).
Trump sempre teve, declaradamente, uma relação péssima com a agenda do clima. Em diferentes ocasiões, ele verbalizou isso nos seus comícios e já chamou as ações realizadas para o combate à crise climática de “novo golpe verde” (green new scan) e “desperdício de dinheiro do contribuinte” (waste of taxpayers money).
No seu mandato anterior, entre 2017 e 2021, Trump revogou mais de 100 normas ambientais com relação direta ou indireta com a emissão de gases de efeito estufa, responsável pelo aquecimento global. Parte destas revogações foram anuladas por Joe Biden, mas os impactos ainda são sentidos nos EUA.
Além disso, o republicano varreu para debaixo do tapete normas ambientais que tinham sido implementadas pelo seu antecessor, Barack Obama, abusou nos investimentos à indústria fóssil – incluindo o afrouxamento da proteção de áreas ambientalmente sensíveis para abrir novos poços de petróleo, e chegou a retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris, o tratado internacional mais importante sobre mudanças climáticas. Não bastasse a sanha anti ambiental do primeiro mandato, Trump promete mais na sua segunda incursão pela Casa Branca.
O que podemos esperar
Ainda que não de forma tão contundente como foi na campanha de 2016, Trump declarou aqui e ali na campanha de 2024 o seu total desalinhamento com a agenda climática e em favor dos fósseis. Ele, inclusive, ressuscitou um bordão usado pelos republicanos em 2008: “Drill, baby, drill”.
A sua proposta não é somente sair do Acordo de Paris, mas da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). Ele também prometeu que, assim que assumisse o cargo, faria avançar com celeridade todos os projetos de geração de energia, incluindo os combustíveis fósseis e energia nuclear. Falando em propostas, no documento de campanha do republicano, não há qualquer menção a “meio ambiente” ou “clima”.
“A vitória de Trump significa uma sobrevida e um impulso para a agenda dos combustíveis fósseis. Apesar do período em que ele foi presidente anteriormente ser o período em que as renováveis ganharam impulso mundo fora, quero dizer, isto aconteceu independente dele, está-se agora a ver que ele vai tentar tomar algumas medidas que vão impedir um progresso mais rápido do que é o necessário. Então eu acho que essa é a grande batalha e ela está associada, na verdade, a uma guerra, que é uma guerra de desmontar o regime internacional de mudança do clima”, disse Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa.
Donald Trump também já declarou que pretende revogar as determinações de Joe Biden na agenda climática, incluindo a de incentivo a carros elétricos e outras políticas destinadas a reduzir as emissões de automóveis.
Outra ação que poderá ser rapidamente executada é o bloqueio a investimentos. Os EUA têm uma promessa de 500 milhões de dólares de envio de recursos para o Fundo Amazónia. Até o momento, somente 10% deste valor já foi destinado e corre-se o risco de o Brasil não ver mais a cor deste dinheiro.
“Uma eventual saída do Acordo de Paris demora um tempo, demorou acho que mais de três anos para o Trump conseguir sair na primeira vez, há toda uma burocracia, mas o financiamento climático ele consegue interromper na mesma hora”, explicou Stela Herschmann, especialista em política climática do Observatório do Clima.
Os Estados Unidos são o maior emissor histórico de gases de efeito estufa e o segundo em número de emissões atualmente.
Cristiane Prizibisczki é jornalista. Trabalhou para a Valor Econômico e revistas da Editora Abril e desde 2007 no ((o))eco. Foi vencedora do Earth Journalism Awards (2009) em três categorias internacionais e do Prémio Embrapa de Reportagem (2014).
Texto publicado originalmente no ((o))eco. Editado para português de Portugal pelo Esquerda.net.