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O que é que o COVID-19 nos ensinou sobre a Ciência?

Depois desta pandemia passar, tem de ser pensada a criação de um programa de literacia cientifica. Não precisamos todos de perceber a fundo a investigação toda que se faz, deixemos isso aos investigadores profissionais. Mas seremos um país melhor se toda a gente perceber conceitos básicos de Ciência. Por Ana Isabel Silva, Investigadora do i3s e Ativista contra a Precariedade

Uma rápida e evidente conclusão a que chegamos com esta pandemia, é que os cientistas são importantes! Talvez houvesse quem tivesse dúvidas antes, hoje com certeza já não as tem.

Algo que também se tornou claro durante esta pandemia, é que a Ciência feita durante os investigadores ao longo destes anos está a revelar-se essencial no desenvolvimento de tratamentos e vacinas para o Covid-19. No entanto, é importante refletir sobre a redução brutal que teve o financiamento de investigação sobre o primeiro surto de SARS-CoV, depois de o mesmo ter desaparecido. A investigação básica, algo que o atual governo não parece dar grande importância, tem revelado ser de extrema importância para combater a atual pandemia. Um teste de diagnóstico para o COVID é o Raio-X. Muitos não saberão, mas esta técnica foi uma descoberta acidental, feita em laboratório. Os testes ao coronavírus, são, na sua maioria realizados por uma técnica chamada PCR-quantitativo em tempo real. Para os bioquímicos ou biólogos, é fácil perceber que sem a investigação básica feita a DNA ou bactérias, a invenção desta técnica não seria possível. Obviamente que nem tudo o que acontecerá num laboratório terá alguma vez utilidade prática. Mas o que terá poderá ser algo de extraordinário. No entanto, e apesar de não nos devermos esquecer dessa possibilidade nunca, devemos dar liberdade aos cientistas para se guiarem pelos seus instintos e curiosidades. É um imperativo absoluto a necessidade de defender a liberdade da academia.

Para se fazer Ciência e conseguir posições e financiamento, em Portugal como em outras partes do mundo, é necessário publicar. Quanto mais prestígio tiver a revista onde se publica melhor. O que muitas não saberão é que para fazer esta publicação é necessário pagar. E, incrivelmente, os cientistas para acederem a artigos científicos têm também de pagar por este acesso. Normalmente este custo é suportado pelas instituições onde trabalham, mas nunca abrange todas as revistas científicas. No entanto, durante esta pandemia do COVID-19, as revistas fizeram o compromisso de abrirem a toda a comunidade cientifica, mas também à população em geral, as suas publicações com relêvancia para o combate ao coronavírus. Fazem isto, com a justificação de ser garantia de uma investigação mais rápida. Mas então, se um acesso aberto a todos é garantia de uma Ciência mais célere, tendo como consequência que mais descobertas são feitas, então isto não deveria acontecer em todas as áreas e em todos os momentos? Precisamos de uma pandemia para isso? Infelizmente, é uma amostra de como como o elitismo e interesses económicos poderão estar-nos a privar de descobertas importantes.

Outra coisa que esta pandemia veio mostrar, é a necessidade de uma literacia científica. Nunca a ignorância científica foi tão gritante. Este desconhecimento sobre a Ciência, sobre como se faz investigação, tem várias consequências. Uma delas é o medo, gerado pelo desconhecimento. Não sabermos onde procurar informacao figedina, não sabermos ter pensamento crítico, pode levar-nos a acreditar em qualquer coisa. As fake news e a sua adesão sao gritantes, fazendo-nos acreditar em praticamente tudo que aparece nas redes sociais. Por outro lado, há uma expectativa completamente irrealista sobre futuros tratamentos e vacinas. Uma sociedade que não faz ideia sobre como funciona a Ciência e o método cientifico, resulta em declarações como vemos por parte de dirigentes como Donald Trump ou Bolsonaro.

Infelizmente, esta iliteracia científica, não se aplica apenas a sociedade em geral, mas também ao nosso governo. Percebeu tarde de mais como os cientistas podiam, e tão bem, ajudar no combate a esta pandemia. Tanto nas suas investigações, como na realização de testes nos seus intitutos assim como a sua enorme importância na filtragem de informação e consequente informação da população.

Depois desta pandemia passar, tem de ser pensada a criação de um programa de literacia cientifica. Não precisamos todos de perceber a fundo a investigação toda que se faz, deixemos isso aos investigadores profissionais. Mas seremos um país melhor se toda a gente perceber conceitos básicos de Ciência, com certeza nos tornará mais bem preparados. Depois disto, espero também que ninguém esqueça, que os cientistas que estão agora a desenvolver novos e mais eficazes testes e a fazê-lo à população são, na sua maior parte, cientistas sujeitos a uma precariedade absoluta, sujeitos constantemente ao stress de não saberem o que vão fazer quando o seu contrato acabar, e com uma desilusão enorme pela falta de reconhecimento que tiveram ao longo de todos estes anos.

Esta pandemia levar-nos-á, obrigatoriamente, a repensar o funcionamento da Ciência no nosso país, assim como o seu papel na sociedade. Aproveitemos esta oportunidade e garantimos que saímos reforçados!

 

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Resto dossier

Transformar a Academia

Transformar é a palavra de ordem para os temas deste dossier: Democratização do governo das instituições de Ensino Superior, combate à precariedade laboral, a luta anti-propinas, por mais financiamento público e uma Ação Social que não deixe ninguém de fora.  E a centralidade do conhecimento científico para enfrentar a crise que vivemos. Dossier organizado por Luís Monteiro.

O Ensino da Economia na Universidade portuguesa

O ensino da economia nas universidades portuguesas é acanhado, acrítico e desligado dos verdadeiros desafios que a disciplina se propõe a enfrentar. Por André Francisquinho, Estudante de Economia na UNL.

 

Somos todos bem-vindos (?)

Há barreiras enormes no acesso ao ensino superior para os alunos do ensino regular, quer pelo método de seleção, alojamento, propinas, despesas. Nos cursos profissionais, a situação não é diferente. Apenas 18% dos estudantes do ensino profissional prosseguem estudos para o Ensino Superior. Por Eduardo Couto, Ativista Estudantil e LGBTI+, estudante do Ensino Profissional
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Por uma gestão democrática do ensino superior

É precisamente a ausência de democracia e poder real nas mãos dos estudantes, que o sabem concentrado num sistema piramidal e em interesses alheios ao serviço público, que os tem afastado da participação. Por Eduardo Esteves, estudante de Direito na UP, e Pedro Moura, estudante de Ciência política na UM.

Saúde Mental no contexto universitário

Quando se é jovem e se está a começar uma vida como estudante do ensino superior, é-nos exigida a paz de espírito, o controle e a felicidade porque com a nossa idade ‘’ainda não existe experiência de vida suficiente para se estar mal”. No entanto, os números não mentem. Por Catarina Ferraz, ativista estudantil e social. Aluna do Ensino Superior.

 

Somos a voz adormecida que precisa de ser acordada

Se somos os mais preparados, então saibamos utilizar essa ferramenta para transbordar o papel do estudante enquanto agente passivo de um futuro mercado de trabalho explorador e excludente. Por António Soares, ativista estudantil na Universidade do Minho.

 

Sobre a gestão da Carreira Docente (concursos e progressão)

Talvez por tradição, a gestão de carreiras no Ensino Superior é notavelmente singular porque parece que estas instituições têm um procedimento que mais organização nenhuma tem em Portugal ou no estrangeiro. Por Rui Penha Pereira, Docente do Ensino Superior
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RJIES: tirar o esqueleto do armário

As instituições que adotaram o regime fundacional passaram a reger-se pelo direito privado em várias áreas, nomeadamente, na gestão financeira, patrimonial e do pessoal. A passagem a este regime revelou-se sinónimo de precarização das relações laborais de docentes, não-docentes e investigadores. Por Tomás Marques, estudante universitário e ativista estudantil.

 

Humanizar e Artestizar

As humanidades e artes continuam a ser os cursos a quem se pergunta o que fará da vida com isso. São áreas deficitárias que, enquanto se gasta dezenas de milhões para atrair (com cursos de gestão e afins) estudantes de países ricos, mantêm alunos de faculdades de Letras ou de Belas Artes a conviver com a degradação e até com a insalubridade. Por Pedro Celestino, Ativista Estudantil na Universidade de Lisboa

 

Para uma mudança do paradigma: o ensino superior a Nordeste

As instituições de ensino superior e as unidades de investigação desenvolvem as suas atividades recorrendo ao “exército” de bolseiros de investigação criado pela FCT que dá cobrimento ao já velho corpo docente que é, muitas vezes, um entrave à legalização da contratação dos recentes doutorados. Por Pedro Oliveira, Assistente convidado (precário) no Instituto Politécnico de Bragança.

A Universidade: do Elitismo à sua Democratização

Não podemos continuar a assumir, de uma forma indireta, que o aumento do número de alunos no Ensino Superior em Portugal vale por si só. É preciso saber, ao mesmo tempo, aumentar a qualidade desse Ensino. Por Catarina Rodrigues, estudante e ativista.

“Dura Praxis, Sed Praxis”

Desde o horrível caso do Meco, que a sociedade civil se debruçou sobre este fenómeno social com outros olhos. Mas o que é, ao certo, a praxe? Um grupo de estudantes? Uma “instituição” académica? Uma seita? Uma tradição? Por Miguel Martins, ativista social e estudantil. Estudante do Ensino Superior
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O mal-estar da Universidade

Esta é a realidade de toda uma geração: a precarização dos Assistentes Convidados, dos Bolseiros, dos Investigadores. Aliciados pelas promessas dos ganhos futuros, iludem-se continuamente enquanto lubrificam as engrenagens da sua própria máquina de exploração. Por Pedro Levi Bismarck, Arquiteto e Docente Precário na Universidade do Porto

 

A Universidade em tempo de crise: democracia precisa-se!

A entrada em vigor do RJIES traduziu-se em perda de autonomia institucional, diminuição da participação democrática nas decisões e precariedade nas relações laborais de docentes, investigadores e outros trabalhadores.  Por Ernesto Costa, Professor Catedrático da Universidade de Coimbra

 

O que é que o COVID-19 nos ensinou sobre a Ciência?

Depois desta pandemia passar, tem de ser pensada a criação de um programa de literacia cientifica. Não precisamos todos de perceber a fundo a investigação toda que se faz, deixemos isso aos investigadores profissionais. Mas seremos um país melhor se toda a gente perceber conceitos básicos de Ciência. Por Ana Isabel Silva, Investigadora do i3s e Ativista contra a Precariedade

 

A politização da mentira

Apenas com a informação mais atual, trazida pelas pessoas mais capazes para a fornecer, que já debateram, analisaram e trabalharam entre elas os dados apresentados, é que podemos decidir da melhor forma como efectivamente deve estar estruturada e organizada a nossa realidade. Por Rodrigo Afonso Silva, ativista estudantil e membro da Greve Climática Estudantil

 

Desigualdade de género no Ensino Superior

Apesar de as mulheres, no geral, serem mais graduadas que os homens – existem mais mulheres licenciadas, mestres ou doutoradas do que homens - , são ainda quem ganha menos e quem tem menos acesso a posições de liderança dentro e fora das Instituições de Ensino Superior. Por Leonor Rosas, estudante universitária, ativista estudantil e feminista.

 

O Ensino Superior Politécnico em Portugal

Com o passar do tempo o ensino superior politécnico e o ensino universitário sofreram uma aproximação em algumas áreas científicas que se materializou no ministrar de licenciaturas de caráter semelhante. Mas esta aproximação não resultou numa uniformização ao nível do ensino e da carreira docente. Por Rui Capelo, estudante do Instituro Politécnico de Setúbal.

O (Sub)Financiamento do Ensino Superior e a Propina

Devido ao subfinanciamento crónico do Ensino Superior, houve um aumento cada vez maior do peso das propinas no financiamento das IES. Por consequência, apesar de a Propina poder variar entre o valor mínimo e máximo, tendo as IES autonomia nesta decisão, o valor fixado é sempre muito próximo do máximo, de forma a contrapor o subfinanciamento. Por Ana Isabel Francisco, Ativista Estudantil na FCT UNL.

 

O mantra da “Autonomia Responsável”

O confinamento ou o Estado de Emergência não podem servir de pretexto para comprimir a fraca vivência democrática que o RJIES trouxe ao Ensino Superior. Por Luís Monteiro, Museólogo e Deputado do Bloco de Esquerda.

O regresso à anormalidade

A projetificação da ciência é a consequência direta da construção de um modelo que desconsidera a segurança laboral e que, por isso mesmo, se torna desumano e ineficaz. Esse modelo tem sido materialmente estimulado pelas instituições financiadoras em Portugal e na União Europeia. Por Miguel Cardina, Historiador e Investigador do CES-UC.

A Ciência Desconfinada

Como vamos “desconfinar” a ciência? Volta para o seu cantinho semi-escondido? Continuará ser um sector cronicamente subfinanciado? Continuará a ser a campeã da precariedade? Ou terá finalmente o reconhecimento que merece? Por Teresa Summavielle, Investigadora do i3S.