Criado em julho de 2005 por Omar Barghouti e Ramy Shaat, com o apoio de 170 organizações sindicais e da sociedade civil palestiniana, o movimento pelo Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) contra Israel até que este cumpra a lei internacional e os princípios universais dos Direitos Humanos procurou seguir as pisadas do movimento que nas décadas anteriores promoveu esta forma de luta não-violenta contra o apartheid sul-africano.
O apelo inicial, lançado um ano após o Tribunal Internacional de Justiça ter declarado ilegal o muro israelita que serviu para anexar mais terras palestinianas, exortava as pessoas e organizações em todo o mundo a pressionarem os seus governos para imporem embargos e sanções a Israel até que este país pusesse fim à ocupação e colonização, derrubando o muro do apartheid, reconhecesse os direitos fundamentais à igualdade por inteiro dos cidadãos árabes-palestinianos em Israel e respeitasse, protegesse e promovesse os direitos dos refugiados palestinianos a regressar às suas casas, como estipula a resolução nº 194 da ONU.
A organização do BDS na Palestina é dirigida por um comité nacional composto por organizações palestinianas. É este comité que define os alvos de boicote a nível global, embora a natureza da campanha seja descentralizada, com milhares de coletivos e organizações a adotarem a designação BDS em muitos países do mundo. O movimento palestiniano apoia essa forma de funcionamento que permitiu à campanha ganhar dimensão global e encoraja as campanhas a escolherem os seus próprios alvos segundo os critérios de cumplicidade com as violações dos direitos humanos por parte de Israel, o potencial de juntar outros movimentos à escala nacional, impacto mediático e possibilidade de sucesso.
E os sucessos desta campanha ao longo de quase 20 anos serviram para reforçá-la e também torná-la num dos principais alvos dos governos sionistas que têm promovido o avanço da colonização até ao genocídio deste ano na Faixa de Gaza. No início, foi a região norueguesa de Sør-Trøndelag, com 270 mil habitantes - que se orgulha de ter sido a primeira região do país a boicotar o apartheid sul-africano - a primeira a aprovar uma moção a apelar ao boicote dos produtos israelitas e a lançar uma campanha pública nesse sentido. Em 2006, o movimento ganha dimensão junto dos sindicatos, com a CUT brasileira e outras centrais sindicais da América Latina a juntarem-se à campanha contra a assinatura do acordo de livre comércio entre os países do Mercosul e Israel. Ainda nesse ano, na África do Sul, a COSATU aprova por unanimidade uma moção a favor de sanções diplomáticas e económicas contra Israel. Nos Estados Unidos, crescia o movimento nas universidades pelo desinvestimento nas empresas que lucram com apartheid israelita e o mesmo aconteceu no universo das igrejas não-católicas em relação a essas empresas, onde se destacava a Caterpillar. Na Europa, um dos primeiros alvos foi a parceria entre a Veolia e a Connex nos transportes púbicos de Israel, com protestos em Genebra e Dublin, onde a companhia local formava trabalhadores da empresa israelita. Essa parceria acabou, tal como a relação do banco holandês ASN Bank com a Veolia no projeto do elétrico rápido de Jerusalém. Mais tarde, a Veolia viria a ceder à pressão dos ativistas e a desfazer-se dos seus investimentos em Israel, tal como o fizeram grandes empresas como a Orange, G4S, General Mills ou a CRH.
Nos anos seguintes os boicotes continuaram, destacando-se os do mundo cultural, com o apoio de milhares de artistas, entre os quais alguns de primeiro plano que se recusaram a participar em eventos em Israel ao longo dos anos, como Elvis Costello, Gil Scott-Heron, Lauryn Hill, Faithless, Marianah, U2, Bjork, Zakir Hussain, Patti Smith, Nicolas Jaar, FKA Twigs, Julian Casablancas, Cypress Hill, Brian Eno, Ana Tijoux, Roger Waters, Rage Against The Machine, Snoop Dogg, Cat Power ou Vanessa Paradis. Mas também no plano económico, com muitos fundos de pensões, grandes empresas e vários governos a boicotarem empresas ligadas à ocupação ilegal dos colonatos. Noruega, Luxemburgo e Nova Zelândia anunciaram a retirada de investimentos nas empresas alvo das campanhas e o mesmo fizeram bancos como Danske Bank e o Nordea ou bilionários como Bill Gates e George Soros. O surgimento de cada vez mais núcleos BDS e as suas campanhas bem delineadas ajudaram a que muitas marcas viessem a avaliar melhor os custos reputacionais face aos benefícios económicos de colaborar com apartheid israelita. Do lado das instituições políticas, o massacre de Gaza ainda em curso, a queixa da África do Sul na justiça internacional e a decisão do Tribuna Internacional de Justiça sobre os indícios de genocídio levaram ao afastamento de alguns países e ao aumento do impacto das campanhas BDS.
Difamação e censura: como Israel enfrenta as campanhas de boicote
A resposta do governo israelita não se fez esperar e passou pela habitual acusação de antissemitismo contra os ativistas das campanhas BDS. Num relatório publicado em 2021, a Plataforma das ONG francesas pela Palestina denunciava as várias formas usadas por esta estratégia de deslegitimação da defesa dos palestinianos dentro e fora de Israel, através de associações e organizações ligadas ao governo sionista em vários países. A Plataforma alertava ainda a Comissão Europeia sobre a instrumentalização da luta contra o antissemitismo para fins políticos por parte de Israel, com o objetivo de atacar o direito a protestar contra a política do seu governo.
A censura e os ataques difamatórios aos movimentos pelos direitos dos palestinianos sentiram-se de forma especial na Alemanha, onde o parlamento chegou a aprovar em 2019 uma resolução contra os apelos ao boicote a Israel, ou na Inglaterra, onde a crítica a Israel “está fortemente ameaçada”, afirma o relatório, sobretudo nos meios académicos e políticos, como provou o processo que levou à destituição de Jeremy Corbyn no Labour a coberto de acusações de antissemitismo. O relatório aponta ainda o caso da empresa de gelados Ben&Jerry’s, que após ser alvo da campanha BDS anunciou que iria acabar com a venda de gelados nos territórios palestinianos ocupados. Uma decisão que lhe valeu críticas de “rendição vergonhosa ao antissemitismo” por parte do então chefe da diplomacia israelita Yair Lapid ou de fazer “um novo tipo de terrorismo”, nas palavras do do então presidente Isaac Herzog. Nos EUA, com o apoio do poderoso lóbi sionista conservador AIPAC, mais de 20 estados aprovaram leis e regulamentos a penalizar ou proibir apelos ao boicote a Israel. O caso mais insólito aconteceu no Texas, após a devastação do furacão Harvey em 2017, quando os habitantes da cidade de Dickinson foram obrigados a assinar um juramento de não boicotar Israel para poderem receber as ajudas públicas. As autoridades locais disseram que estavam a cumprir a lei do Texas que proíbe os organismos públicos de fazerem contratos com empresas que boicotam Israel.
“Para desacreditar a mensagem, é preciso desacreditar o mensageiro. Quando falarem do BDS, devem dizer que é um grupo que incita ao ódio, à violência contra civis. Ou seja, que apoia o terrorismo”, aconselhava Noah Pollak, então diretor executivo do “Comité de Urgência para Israel”, organização dedicada ao lóbi político pró-sionista nos EUA e hoje presença regular no canal Fox News.
A atividade crescente dos movimentos BDS nos espaços universitários estadunidenses foi sempre objeto de atenção especial em Telavive. “Entre os jovens nascidos após o ano 2000 e os estudantes, chegámos ao ponto de a maioria ser mais favorável aos palestinianos do que a Israel”, indignava-se David Brog, o diretor de assuntos estratégicos da organização Cristãos Unidos por Israel e diretor executivo da Maccabee Task Force, um dos grupos anti-BDS. Por seu lado, Jacob Baime, diretor executivo da Aliança Israel no Campus, organização que empregava mais de uma centena de funcionários para lutar contra o BDS nas universidades, fazia contas ao futuro: “A única coisa que todos os membros do Congresso, todos os presidentes, todos os embaixadores têm em comum é o facto de terem passado anos no campus universitário e é durante esses anos que eles se formam”, o que faria prever a prazo uma mudança de opinião quanto á doutrina política de “amizade com Israel” que tem protegido e armado o apartheid israelita. Oito anos após estas declarações, o genocídio em Gaza fez aumentar a mobilização nas universidades dos EUA, mas a geração que governa o país ainda é fiel àquela doutrina.
BDS mudou os termos do debate em Israel e na diáspora, mas também na Palestina
O jornalista estadunidense Nathan Thrall publicou em 2018 um artigo no Guardian onde reflete sobre as mudanças que o movimento BDS trouxe à política israelita e palestiniana, mas também aos debates no interior da diáspora israelita. Ele defende que a maior transformação pode ter sido a de quebrar o consenso internacional sobre a solução dos dois estados, irritando assim “toda a indústria das ONG do processo de paz no Médio Oriente, as missões diplomáticas e os think tanks ao enfraquecer a sua premissa central: que o conflito pode ser resolvido simplesmente acabando com a ocupação de Gaza, Jerusalém Leste e o resto da Cisjordânia, deixando por resolver os direitos dos cidadãos palestinianos de Israel e dos refugiados”.
Nathan Thrall vive há mais de 20 anos em Jerusalém e o seu livro “Um Dia na Vida de Abed Salama - Anatomia de uma tragédia em Jerusalém”, publicado na semana dos ataques do Hamas de 7 de outubro, ganhou o Prémio Pulitzer deste ano. Na sua reflexão de há seis anos sobre o movimento BDS, atribui-lhe o mérito de levantar “um assunto incómodo e que não pode ser esquecido para sempre: se Israel, mesmo que parasse a ocupação na Cisjordânia e Gaza, pode ser ao mesmo tempo uma democracia e um estado judaico”.
A mesma questão, lembra este autor, foi logo entendida por Yossi Kuperwasser, antigo responsável pelo serviço de informações israelita e hoje ao serviço do think tank conservador Jerusalem Center for Public Affairs, que se auto-intitula de “Embaixada Global de Israel”. Enquanto foi diretor-geral do Ministério para os Assuntos Estratégicos, coube-lhe a ele organizar a guerra contra o BDS até 2014. Mal chegou ao cargo teve de enfrentar o “relatório Goldstone” das Nações Unidas que acusava Israel de cometer crimes de guerra contra civis nos ataques a Gaza nos dois anos anteriores. Kuperwasser defende que avaliar o sucesso da campanha BDS em termos dos danos económicos era um erro, até porque tanto os laços comerciais como diplomáticos com o resto do mundo tinham aumentado. Dizia ele que a questão central “não é se nos vão boicotar ou não”, mas “se eles vão conseguir introduzir no discurso internacional a ideia de que Israel é ilegítimo enquanto Estado judeu.”
A campanha BDS em Portugal
A campanha BDS em Portugal existe há 15 anos, foi impulsionada por uma coligação plural que inclui organizações de solidariedade, direitos humanos e anti-racismo e conta também com algumas vitórias. A mais recente, anunciada em outubro, foi o fim dos protocolos de intercâmbio entre a Universidade Lusíada e a de Ariel, sediada num colonato ilegal israelita nos Territórios Palestinianos Ocupados. A retirada da bandeira portuguesa do navio Kathrin foi outra campanha bem sucedida nos últimos meses.
Entre as vitórias mais antigas estão o abandono do patrocínio israelita por parte do festival de cinema Queer Lisboa em 2011, o fim do protocolo de colaboração entre a EPAL e a israelita Mekorot, reclamado desde 2010 mas apenas anunciado pela empresa portuguesa em 2014, o abandono do projeto de colaboração entre a polícia portuguesa e israelita para uniformizar métodos de interrogatório em 2016, a adesão do então diretor do Teatro Nacional D. Maria II, Tiago Rodrigues, ao recusar levar o seu espetáculo a Jerusalém.
No último ano multiplicaram-se as iniciativas de apelo ao boicote a marcas e iniciativas. A mais mediática terá sido a que teve como alvo o Festival da Eurovisão e resultou num apelo de mais de 200 artistas ao boicote do evento que incluiu a participação de Israel. Marcas como a McDonalds também foram visadas pelo declarado apoio às tropas que cometem o genocídio em Gaza. No plano cultural, em janeiro a campanha protestou contra a presença na Gulbenkian do Jerusalem Quartet, grupo musical sediado num colonato ilegal e com o estatuto oficial de “Destacados músicos do Exército”, interrompendo o seu concerto.
Entre as iniciativas promovidas nos últimos anos, a que lhe deu maior projeção mediática veio através da propaganda dos media israelitas reproduzida por cá, a propósito de uma pintura com a frase "Free Palestine" que apareceu em 2016 à porta de um restaurante do chef Avillez no Porto, após uma campanha para que cancelasse a participação num evento gastronómico em Teavive. Além da organização de debates, ações de sensibilização e participação nas manifestações de solidariedade, também há exemplos de ações de protesto como a que ocorreu em Lisboa contra a apropriação por parte de um restaurante israelita do nome de uma aldeia palestiniana massacrada - e da própria culinária da Palestina -ou a denúncia de um evento de pinkwashing promovido pela embaixada israelita. Ativistas da BDS Portugal também assinalaram os 75 anos da Nakba e da limpeza étnica da Palestina e deram o apoio ao músico Roger Waters após ter visto os seus concertos cancelados na Alemanha e pedidos das comunidades israelitas do Porto e Lisboa para que o mesmo acontecesse em Portugal.