Os autocarros da Transportes Sul do Tejo têm hoje a concessão da Carris Metropolitana nos concelhos de Almada, Seixal e Sesimbra. Mas os muitos milhares de passageiros que viajam diariamente nestes autocarros das carreiras com números entre 3001 e 3721 desconhecem que o proprietário dos TST está diretamente envolvido no negócio da expansão de colonatos em territórios palestinianos de Jerusalém. Foi em agosto de 2022, pouco depois desta concessão entrar em vigor, que a Arriva, do grupo alemão Deutsche Bahn, concretizou a venda de 100% do capital dos TST ao grupo israelita Dan, num negócio cujo valor não foi revelado aquando do seu anúncio em maio desse ano.
A Dan apresentava-se na altura como a segunda maior empresa de transportes públicos de Israel e a compra dos TST era o seu primeiro passo na internacionalização. Além de operar 2.300 autocarros, tinha ganho recentemente “o concurso para operar a linha verde do comboio ligeiro em Telavive, sendo este o maior projeto de comboio em Israel nos dias de hoje”. O grupo Dan dizia ainda deter a concessão e parte significativa da operação dos “maiores projetos de infraestruturas em Israel, tais como as vias rápidas de portagem, a linha mais significativa do sistema LRT de Telavive, a maior central de dessalinização em Israel e uma unidade de tratamento de águas residuais”. Além disso, “é também um dos principais grupos no mercado imobiliário: habitação, escritórios e imóveis comerciais”, concluía a apresentação do grupo no comunicado que anunciou o negócio.
No ano passado, os catalães da Moventis compraram à Dan 49% do capital dos TST, continuando os israelitas com o controlo da empresa. O negócio surgiu na altura em que foi conhecida a aliança dos dois grupos num consórcio para a construção da linha de metro ligeiro para ligar as cidades de Haifa e Nazaré. Além do fabricante de material ferroviário Skoda (não o fabricante da marca automóvel com o mesmo nome), também a Danya Cebus, uma empresa que constrói em colonatos ilegais na Cisjordânia e Jerusalém, participava no consórcio. A obra acabou por ser entregue a outro consórcio formado pelos franceses da Alstom e duas grandes empresas israelitas envolvidas em projetos militares e de construção nos colonatos, a Electra e a Minrav.
Os negócios do grupo Dan em terras ocupadas ilegalmente
Segundo o Centro de Investigação Who Profits, que compila dados sobre as empresas envolvidas na colonização ilegal dos territórios palestinianos e sírios, o ramo do grupo para o imobiliário, a Dan Nadlan, está a construir projetos residenciais em bairros de colonatos na zona ocupada de Jerusalém Leste, como os de Talpiot Oriental, Pisgat Ze’ev ou o do Monte Francês. A expansão dos colonatos ilegais em Jerusalém tem sido uma política promovida pelos últimos governos. Segundo o Who Profits, citando dados de maio do ano passado, os projetos desta empresa passavam pela construção de 800 fogos em Pisgat Ze’ev e 400 no Monte Francês.
Israel
Região de Aveiro entregou transportes ao grupo que gere o maior campo de treinos militares israelita
Para apoiar estes colonatos e ligá-los ao centro e à zona ocidental de Jerusalém, o Governo lançou o megaprojeto de metro ligeiro que será gerido por um consórcio que junta a Dan Public Transportation, a espanhola COMSA e a israelita Danya Cebus. A construção desta Linha Azul irá expropriar ainda mais terras palestinianas, com os bairros palestinianos da cidade a ficarem mais fragmentados ao longo dos 31 quilómetros da linha. Das 57 estações, 17 estão localizadas em colonatos de Jerusalém Leste. A linha não deverá estar pronta antes de 2030.
Criada nos anos 1940 enquanto cooperativa de trabalhadores, esta companhia de transportes públicos transformou-se numa empresa convencional por ordem do Governo no início deste século, mantendo mais de mil antigos cooperadores como acionistas. Do monopólio dos transportes em Telavive, a Dan alargou a sua atividade a outras cidades e ramos de negócio, como o imobiliário, construção de infraestruturas e a alta tecnologia. Em 2019 a empresa vendeu 40% do capital a um grupo liderado pelo banco de investimento Value Base e o Fundo Europa Israel, com dinheiro angariado junto de investidores israelitas e um fundo norte-americano. Três anos depois, adquiriu os TST e pôs assim muitos milhares de habitantes da Margem Sul do Tejo a financiarem através do seu passe social o grupo que participa na expansão ilegal de colonatos em Jerusalém, condenada pelas Nações Unidas.