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O passeio interminável de Putin

A 2 de Dezembro, o partido de Vladimir Putin voltou a vencer de forma categórica as eleições legislativas russas. Dada a popularidade deste ex-chefe do KGB, nem sequer teriam sido necessárias as inúmeras irregularidades que marcaram o processo eleitoral para conquistar a vitória. O ano na Rússia ficou também marcado pelos ataques à liberdade de expressão, a prisão de membros da oposição, e a proibição de manifestações. Nada que tenha afectado Putin, que se prepara para continuar no poder, deixando a Presidência - já cumpriu dois mandatos, o máximo permitido - e assumindo o cargo de Primeiro Ministro.  

Na Cimeira União Europeia-Rússia, em Outubro de 2007, Vladimir Putin anunciou que convidaria observadores internacionais da OSCE para fiscalizar as eleições legislativas russas. Foi o suficiente para sossegar José Sócrates e os restantes líderes europeus, que fizeram grande eco da notícia, aliviando a pressão da opinião pública no sentido de condenar as violações das liberdades e dos direitos humanos na Rússia.

Mas a "generosidade" tem os seus limites. Duas semanas depois, o Mundo ficou a saber que o convite de Putin se estendia apenas a um quinto dos observadores que fiscalizaram as eleições de 2003. Ou seja, apenas 70 observadores da OSCE para 95 mil mesas eleitorais. E, cúmulo dos cúmulos, mesmo a entrada destas poucas dezenas de observadores foi dificultada de tal forma, que a OSCE foi obrigada a reconhecer que não tinha capacidade para monitorizar as eleições, dada a evidente falta de cooperação das autoridades de Moscovo.

O processo eleitoral foi conturbado e cheio de ilegalidades. A candidatura de alguns pequenos partidos foi recusada e as manifestações e actos públicos da oposição sistematicamente boicotados. No país todo instalou-se um ambiente de pressão, nas empresas e em estabelecimentos públicos, para garantir a vitória esmagadora de Putin. No dia das eleições, registaram-se numerosas violações da lei eleitoral, que provavelmente, a não terem acontecido, apenas diminuiriam em alguns pontos a dimensão da vitória da Rússia Unida.

Putin venceu as eleições com 64% dos votos, vitória categórica mas mesmo assim com menos 8 milhões de votos do que nas eleições presidenciais de 2004. Apenas mais três partidos superaram a barreira que permite eleger deputados: o Partido Comunista, o Partido "Rússia Justa" (próximo de Putin) e os ultranacionalistas do Partido Liberal Democrático (de Vladimir Girinovsky, também solidário com Putin).

Putin precisava de uma votação acima dos 60% para, com mais legitimidade, continuar de alguma forma no poder. Dada a impossibilidade de candidatar-se de novo à Presidência - a lei apenas permite dois mandatos consecutivos - o homem forte do Kremlin já deu a entender que vai regressar ao cargo de Primeiro Ministro, que já tinha ocupado antes de ser presidente. Só que, na Rússia, é no chefe de Estado (Presidente) que residem os principais poderes como o comando das Forças Armadas, a política externa e a escolha do chefe do Governo (Primeiro-Ministro). Por isso mesmo, Putin já tratou de lançar como candidato a chefe de Estado, nas eleições de Março de 2008, o seu delfim Dmitri Medvedev, actual vice-primeiro-ministro e chefe da gigante gasífera estatal Gazprom. Medvedev parece ter uma personalidade bem mais fraca e totalmente subordinada aos desejos de Putin.

Mas 2007 foi também o ano da afirmação internacional de Putin, e, por consequência, da Rússia. Facto a que também não é alheia a sua popularidade interna, como bem nota Immanuel Wallerstein: "Parece que os russos o vêem como alguém que tem feito muito para restaurar o poder do Estado russo, depois do que eles vêem como a humilhante deterioração durante a era Yeltsin".
Putin foi uma peça importante na geografia dos poderes mundiais, ao bater o pé várias vezes à tentativa de construção de um mundo unipolar pelos EUA. Foi assim na oposição aos planos de Bush para a instalação de estruturas antimíssil na Polónia e na República Checa ou na resistência a todas as tentativas dos EUA para obterem das Nações Unidas autorização de agir punitivamente contra o Irão.

Só que as tentativas de se apresentar como um contra-peso à violação da lei internacional por parte dos EUA nunca lhe conferiram uma imagem de respeitador dos direitos humanos. Em Maio deste ano, os Estados Unidos e a Rússia foram considerados pela Amnistia Internacional os dois principais países que abusam contra a liberdade de expressão.

E Putin é um profissional em diversas violações dos direitos humanos. Todos os seus opositores incómodos são figuras a abater. Este ano, a vítima mais mediática foi a jornalista Larissa Arap, internada compulsivamente num hospital psiquiátrico, ironicamente por denunciar abusos a crianças nos hospitais psiquiátricos. Em 2006, o ex-agente secreto Litvinenko morreu envenenado em Londres e acusou Putin de ser o responsável. Ainda nesse ano, a jornalista Anna Politkovskaia, que preparava mais um artigo sobre a tortura na Tchechénia a cargo das tropas russas, foi morta a tiro nas escadas do prédio onde vivia.

Aliás, a forma como geriu o conflito com a Tchechénia marca o percurso e a própria ascensão de Putin. Em 2002, quando separatistas tchechenos mantinham como reféns cerca de 700 espectadores do teatro Dubrovskaia em Moscovo, as tropas de elite russas entraram a matar, espalhando um gás paralisante que resultou na morte de todos os separatistas e de 118 reféns. Dois anos depois, a lei da força bruta foi também usada na escola de Beslam, na Ossétia do Norte, tendo as tropas russas lançado granadas para libertar 1200 reféns, presos por guerrilheiros tchechenos. 331 pessoas morreram, 186 das quais crianças.

Foi precisamente em torno do combate à guerrilha tchechena que Putin ganhou toda a sua popularidade, quando ainda era Primeiro Ministro. Em 1999, uma série de explosões em apartamentos de Moscovo constituiram o álibi ideal para avançar para a segunda guerra da Tchechénia, permitindo a Putin subir na consideração dos seus cidadãos. O governo praticamente impossibilitou qualquer investigação independente aos atentados e chegou a assassinar e prender membros de comissões de inquérito.

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Resto dossier

Mundo em 2007

Da França à Venezuela, da Palestina ao Irão, passando pela questão ambiental, por Timor ou pela Polónia, aqui fica uma possível memória do Mundo em 2007.

Líbano: crise sem fim à vista

Beirute amanheceu no dia 23 de Janeiro completamente paralisada por barricadas de pneus em chamas e confrontos entre apoiantes e opositores do primeiro-ministro Fouad Siniora, do Líbano. Uma greve geral foi convocada pelos líderes da oposição, entre eles Hassan Nasrallah, do Hezbollah, com o apoio dos sindicatos, para pedir um novo governo de unidade nacional que tivesse um terço mais um do número de pastas para a oposição, o que lhe daria o poder de veto sobre as decisões governamentais.

Venezuela: Chávez derrotado pela primeira vez nas urnas

O "não" venceu o referendo à reforma constitucional realizado no dia 2 de Dezembro na Venezuela com 51%, contra 49% do "sim" defendido pelo presidente Hugo Chávez. O resultado apanhou muitos desprevenidos, como os jornais Estado de S. Paulo, do Brasil, ou o Público, de Portugal, que optaram por acreditar nas pesquisas à boca da urna e antecipar uma vitória do "sim" que não ocorreu.

Palestina dividida

No dia 13 de Junho, o Hamas hasteou as bandeiras verdes do movimento num dos últimos bastiões da Fatah na Cidade de Gaza, o Quartel General de Segurança Preventiva, concluindo a operação militar que o levou a assumir o controlo total da Faixa de Gaza e a expulsar as forças fiéis ao presidente palestiniano Mahmud Abbas e à Fatah do território. Entretanto, a Fatah tentava assegurar o controlo da Cisjordânia, iniciando uma campanha de detenção de cerca de 1500 militantes do Hamas.

Dois passos cruciais contra o vírus da SIDA

Em Fevereiro e Abril de 2007 foram publicados dois estudos que trazem novas esperanças no combate ao vírus da SIDA. Ambas as descobertas, uma publicada na revista Nature e a outra na revista Cell, centram-se na identificação de proteínas, presentes no sangue humano, capazes de bloquear a ligação do HIV às células do sistema imunitário, em vez das investigações mais clássicas que apenas incidiam na inibição da replicação do vírus, e a partir de substâncias não originárias do sangue humano. Artigo no dossier Balanço Internacional 2007

A ameaça das alterações climáticas

O ano de 2006 fez soar o alarme, com o Relatório Stern, mas foi em 2007 que o mundo começou a conviver plenamente com a ameaça das alterações climáticas. Lentamente, a população planetária foi tomando consciência de que a situação é muito grave. Os dados alarmantes foram-se acumulando e as medidas para tentar evitar a catástrofe parecem lentas, demasiado lentas, e ineficazes, demasiado ineficazes.

Howard, o grande aliado de Bush, é derrotado na Austrália

A derrota do primeiro-ministro John Howard nas eleições da Austrália de 24 de Novembro foi também uma derrota do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e uma demonstração do seu isolamento internacional. Com efeito, Howard era um dos últimos aliados ferrenhos de Bush na guerra do Iraque, e acompanhava até o presidente norte-americano na recusa a assinar o Protocolo de Quioto.

França: greve nos transportes enfrenta Sarkozy

No dia 12 de Novembro, os transportes paralisaram em França, numa greve convocada pelos sindicatos do sector contra a intenção do governo Sarkozy de aumentar o período de descontos necessário para a reforma dos trabalhadores abrangidos por regimes especiais, cerca 1,6 milhão de pessoas. A 18 de Outubro já ocorrera uma primeira greve de 24 horas. A greve, que duraria 10 dias, foi o primeiro confronto social com que se defrontou Sarkozy desde que foi eleito Presidente da República. 

França: Sarkozy eleito presidente

Nicolas Sarkozy, o candidato da União por um Movimento Popular (UMP), de direita, foi eleito Presidente da República francesa com 53,06% dos votos no dia 6 de Maio, data do segundo turno das eleições presidenciais. Ségolène Royal, a candidata do PS que disputava com ele, obteve 46,94%. A participação nas eleições rondou os 85%.

Paquistão: a sublevação dos advogados

A 9 de Março, o presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, suspendeu o chefe do Supremo Tribunal, Iftikhar Chaudhry. O magistrado não era conhecido por activismo judicial, mas tornara-se muito incómodo pelas sentenças contra o governo num grande número de questões importantes, incluindo a apressada privatização da Karachi Steel Mills, a aceitação de que fosse levada a tribunal a questão dos activistas políticos "desaparecidos" e a atitude de levar a sério as vítimas de violação.

A Austrália vence em Timor

Em Timor, 2007 foi o ano da "consolidação democrática" do golpe de Estado iniciado em 2006 com a conivência da Austrália e contra o "nacionalismo económico" de Mário Alkatiri. Ramos Horta e Xanana Gusmão, os principais aliados da política australiana, conquistaram os lugares de Presidente da República e Primeiro-Ministro. Horta venceu as eleições claramente impondo a primeira derrota nas urnas à Fretilin. A 30 de Junho, Xanana não precisou de ganhar as legislativas para mesmo assim se sentar na cadeira do poder. Entretanto, o criminoso Alfredo Reinado continua a monte, recebendo salário do Estado. 

O passeio interminável de Putin

A 2 de Dezembro, o partido de Vladimir Putin voltou a vencer de forma categórica as eleições legislativas russas. Dada a popularidade deste ex-chefe do KGB, nem sequer teriam sido necessárias as inúmeras irregularidades que marcaram o processo eleitoral para conquistar a vitória. O ano na Rússia ficou também marcado pelos ataques à liberdade de expressão, a prisão de membros da oposição, e a proibição de manifestações. Nada que tenha afectado Putin, que se prepara para continuar no poder, deixando a Presidência - já cumpriu dois mandatos, o máximo permitido - e assumindo o cargo de Primeiro Ministro. 

Grécia: das catástofres naturais à Greve Geral

Manifestações massivas de estudantes, incêndios, eleições, cheias, greve geral. Sem dúvida que a Grécia viveu um ano conturbado. A direita, no poder desde 200 - depois de 11 anos de governos "socialistas" - resisitiu ao desgaste provocado pelos incêndios que vitimaram 66 pessoas e a 16 de Setembro voltou a vencer as eleições legislativas com maioria absoluta. Mas os protestos sociais continuam fortes, e exemplo disso é a greve geral que a 12 de Dezembro paralisou todos os sectores vitais do país. 

Polónia: do obscurantismo ao neoliberalismo feroz

Há muitos anos que a Polónia não tinha tanto destaque internacional. Pena que tenha sido pelos piores motivos: as medidas ultra conservadoras e moralistas dos gémeos Kaczynski povoaram com frequência os jornais no ano de 2007. Frenesim que parece ter terminado com a vitória do partido de centro-direita Plataforma Cívica, a 21 de Outubro. O novo primeiro-ministro, que sucede a Jaroslaw Kaczynski, anunciou a boa nova da retirada das tropas polacas do Iraque, embora a nível económico e social se prepare para uma campanha de privatizações. 

Birmânia: nas ruas contra a ditadura

Já foi chamada de Revolução de Açafrão, da cor das roupas dos monges budistas que estiveram no centro de muitas das mobilizações deste Verão. Infelizmente, os protestos contra o regime que governa a Birmânia (também chamada Myanmar), duramente reprimidos, não tiveram sucesso: apesar de abalada, a ditadura militar que reina no país desde 1962 aguentou-se de pé. Iniciados em Agosto, os protestos contra a decisão do governo, de 15 de Agosto, de extinguir os subsídios aos combustíveis - provocando uma disparada dos preços dos artigos de primeira necessidade - ganharam grande dimensão mas foram esmagados por uma reacção repressiva do regime, que começou a 26 de Setembro.

O Irão e o nuclear

No dia 23 de Março, as forças iranianas capturaram 15 fuzileiros navais britânicos no canal do Shatt al-Arab, na entrada do Golfo Pérsico, provocando uma crise diplomática num momento em que o Conselho de Segurança da ONU se preparava para avaliar novas sanções contra o Irão, devido à sua decisão de manter o programa de enriquecimento de urânio. Teerão afirmou que os fuzileiros confessaram ter violado as suas águas territoriais, mas o governo britânico afirmava que os seus marines estavam em águas territoriais do Iraque.