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Paquistão: a sublevação dos advogados

A 9 de Março, o presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, suspendeu o chefe do Supremo Tribunal, Iftikhar Chaudhry. O magistrado não era conhecido por activismo judicial, mas tornara-se muito incómodo pelas sentenças contra o governo num grande número de questões importantes, incluindo a apressada privatização da Karachi Steel Mills, a aceitação de que fosse levada a tribunal a questão dos activistas políticos "desaparecidos" e a atitude de levar a sério as vítimas de violação.  

A decisão despoletou um importante movimento social, inicialmente confinado aos 80 mil advogados e algumas dezenas de juízes, mas que logo começou a espalhar-se. Os advogados marcharam nas ruas pela separação dos poderes constitucionais. Como diria Tariq Ali, num artigo publicado no Guardian e reproduzido no Esquerda.net, "há algo deliciosamente fora de moda nesta luta. Ela não envolve nem dinheiro nem religião, mas princípios."

Em vez de reconhecer que cometera um erro, Musharraf desencadeou uma contra-ofensiva. Em 13 de Maio, em Karachi, apoiantes do Governo tentaram impedir Chaudhry de sair do aeroporto para participar numa manifestação da oposição. Nos confrontos que se seguiram, 41 pessoas morreram e 150 ficaram feridas. No dia seguinte, a greve geral mais largamente participada desde que Musharraf subira à presidência paralisou parte do país, nomeadamente as grandes cidades.

Em 10 de Julho, o Exército invadiu a Mesquita Vermelha de Islamabad, onde há sete dias se encontravam entrincheirados militantes islâmicos e centenas de reféns. Pelo menos 58 pessoas morreram, entre elas o líder islâmico que comandava a ocupação, Rashid Ghazi. A sua reivindicação era que o governo adoptasse um regime semelhante ao que já vigorou no Afeganistão, no tempo dos Taliban.

No dia 20 de Julho, o Supremo Tribunal do Paquistão restabeleceu Chaudhry nas suas funções de chefe do Supremo Tribunal. Mas o conflito entre o presidente e o Tribunal manter-se-ia. Em 10 de Setembro, Musharraf impediu o regresso do ex-primeiro ministro Nawaz Sharif ao país, que cumpria o sétimo ano de um exílio de 10, imposto por Musharraf. Sharif regressava provavelmente para se candidatar contra Musharraf nas eleições do final do ano, depois de, no dia 23 de Agosto, o Supremo Tribunal Paquistanês ter considerado que ele tinha o direito de regressar ao país. Musharraf mudaria de ideias e aceitaria o regresso de Saharif, que ocorreu em 26 de Novembro.

Em Outubro, já regressara a antiga primeira-ministra Benazir Bhutto, recebida por 250 mil apoiantes em Karachi "Estou mais velha, aprendi muito ao longo dos últimos 20 anos, mas sempre nos batemos contra uma ditadura. Queremos isolar os extremistas e construir um Paquistão melhor", declarou.

No dia 4 de Novembro, Musharraf decretou o Estado de Emergência no país, mandou prender mais de 500 pessoas e admitiu adiar a realização de eleições legislativas. A oposição denunciou "o segundo golpe de Estado" de Musharraf. O presidente justificou a decisão pelo aumento da violência extremista e a interferência do poder judicial na política do governo. A medida permitiu-lhe assumir o controle do poder judicial, num momento em que o Supremo Tribunal do Paquistão iria pronunciar-se sobre a legalidade da sua recandidatura à presidência.

No dia seguinte, os advogados tomaram a dianteira dos protestos, realizando manifestações em diversas cidades do país. A maior ocorreu em Lahore, com confrontos entre polícia e advogados diante do edifício do Supremo Tribunal. Também ocorreram confrontos em Peshawar e Karachi. Em Islamabad, os manifestantes gritaram "Fora Musharraf" e "Musharraf é um cão!"

Em 26 de Novembro, Nawaz Sharif entregou a candidatura do seu partido (Liga Muçulmana do Paquistão) às eleições legislativas previstas para 8 de Janeiro. Também Benazir Bhutto já tinha entregado a candidatura. No mesmo dia, um porta-voz do presidente anunciou que Musharraf renunciaria ao cargo de chefe das Forças Armadas e tomaria posse de um segundo mandato na Presidência a 29 de Novembro.

Finalmente, em 15 de Dezembro, Musharraf suspendeu o estado de emergência no Paquistão e restaurou a Constituição, um dia antes do início da campanha para as eleições parlamentares de 8 de Janeiro. Mas uma série de emendas e ordens aprovadas junto com a restauração da Constituição estipulam que os tribunais não podem alterar as acções de Musharraf durante o estado de emergência, e protegem o estatuto legal da sua reeleição como presidente.

Vários juízes do Supremo Tribunal e advogados permaneciam em prisão domiciliar, e mantinha-se a proibição de transmissão de programas ao vivo sobre as eleições ou de críticas ao governo. Um dos maiores canais do país permanecia fora do ar por ter desafiado o governo.

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Resto dossier

Mundo em 2007

Da França à Venezuela, da Palestina ao Irão, passando pela questão ambiental, por Timor ou pela Polónia, aqui fica uma possível memória do Mundo em 2007.

Palestina dividida

No dia 13 de Junho, o Hamas hasteou as bandeiras verdes do movimento num dos últimos bastiões da Fatah na Cidade de Gaza, o Quartel General de Segurança Preventiva, concluindo a operação militar que o levou a assumir o controlo total da Faixa de Gaza e a expulsar as forças fiéis ao presidente palestiniano Mahmud Abbas e à Fatah do território. Entretanto, a Fatah tentava assegurar o controlo da Cisjordânia, iniciando uma campanha de detenção de cerca de 1500 militantes do Hamas.

Dois passos cruciais contra o vírus da SIDA

Em Fevereiro e Abril de 2007 foram publicados dois estudos que trazem novas esperanças no combate ao vírus da SIDA. Ambas as descobertas, uma publicada na revista Nature e a outra na revista Cell, centram-se na identificação de proteínas, presentes no sangue humano, capazes de bloquear a ligação do HIV às células do sistema imunitário, em vez das investigações mais clássicas que apenas incidiam na inibição da replicação do vírus, e a partir de substâncias não originárias do sangue humano. Artigo no dossier Balanço Internacional 2007

Líbano: crise sem fim à vista

Beirute amanheceu no dia 23 de Janeiro completamente paralisada por barricadas de pneus em chamas e confrontos entre apoiantes e opositores do primeiro-ministro Fouad Siniora, do Líbano. Uma greve geral foi convocada pelos líderes da oposição, entre eles Hassan Nasrallah, do Hezbollah, com o apoio dos sindicatos, para pedir um novo governo de unidade nacional que tivesse um terço mais um do número de pastas para a oposição, o que lhe daria o poder de veto sobre as decisões governamentais.

Venezuela: Chávez derrotado pela primeira vez nas urnas

O "não" venceu o referendo à reforma constitucional realizado no dia 2 de Dezembro na Venezuela com 51%, contra 49% do "sim" defendido pelo presidente Hugo Chávez. O resultado apanhou muitos desprevenidos, como os jornais Estado de S. Paulo, do Brasil, ou o Público, de Portugal, que optaram por acreditar nas pesquisas à boca da urna e antecipar uma vitória do "sim" que não ocorreu.

Howard, o grande aliado de Bush, é derrotado na Austrália

A derrota do primeiro-ministro John Howard nas eleições da Austrália de 24 de Novembro foi também uma derrota do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e uma demonstração do seu isolamento internacional. Com efeito, Howard era um dos últimos aliados ferrenhos de Bush na guerra do Iraque, e acompanhava até o presidente norte-americano na recusa a assinar o Protocolo de Quioto.

A ameaça das alterações climáticas

O ano de 2006 fez soar o alarme, com o Relatório Stern, mas foi em 2007 que o mundo começou a conviver plenamente com a ameaça das alterações climáticas. Lentamente, a população planetária foi tomando consciência de que a situação é muito grave. Os dados alarmantes foram-se acumulando e as medidas para tentar evitar a catástrofe parecem lentas, demasiado lentas, e ineficazes, demasiado ineficazes.

França: Sarkozy eleito presidente

Nicolas Sarkozy, o candidato da União por um Movimento Popular (UMP), de direita, foi eleito Presidente da República francesa com 53,06% dos votos no dia 6 de Maio, data do segundo turno das eleições presidenciais. Ségolène Royal, a candidata do PS que disputava com ele, obteve 46,94%. A participação nas eleições rondou os 85%.

Paquistão: a sublevação dos advogados

A 9 de Março, o presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, suspendeu o chefe do Supremo Tribunal, Iftikhar Chaudhry. O magistrado não era conhecido por activismo judicial, mas tornara-se muito incómodo pelas sentenças contra o governo num grande número de questões importantes, incluindo a apressada privatização da Karachi Steel Mills, a aceitação de que fosse levada a tribunal a questão dos activistas políticos "desaparecidos" e a atitude de levar a sério as vítimas de violação.

França: greve nos transportes enfrenta Sarkozy

No dia 12 de Novembro, os transportes paralisaram em França, numa greve convocada pelos sindicatos do sector contra a intenção do governo Sarkozy de aumentar o período de descontos necessário para a reforma dos trabalhadores abrangidos por regimes especiais, cerca 1,6 milhão de pessoas. A 18 de Outubro já ocorrera uma primeira greve de 24 horas. A greve, que duraria 10 dias, foi o primeiro confronto social com que se defrontou Sarkozy desde que foi eleito Presidente da República. 

O passeio interminável de Putin

A 2 de Dezembro, o partido de Vladimir Putin voltou a vencer de forma categórica as eleições legislativas russas. Dada a popularidade deste ex-chefe do KGB, nem sequer teriam sido necessárias as inúmeras irregularidades que marcaram o processo eleitoral para conquistar a vitória. O ano na Rússia ficou também marcado pelos ataques à liberdade de expressão, a prisão de membros da oposição, e a proibição de manifestações. Nada que tenha afectado Putin, que se prepara para continuar no poder, deixando a Presidência - já cumpriu dois mandatos, o máximo permitido - e assumindo o cargo de Primeiro Ministro. 

A Austrália vence em Timor

Em Timor, 2007 foi o ano da "consolidação democrática" do golpe de Estado iniciado em 2006 com a conivência da Austrália e contra o "nacionalismo económico" de Mário Alkatiri. Ramos Horta e Xanana Gusmão, os principais aliados da política australiana, conquistaram os lugares de Presidente da República e Primeiro-Ministro. Horta venceu as eleições claramente impondo a primeira derrota nas urnas à Fretilin. A 30 de Junho, Xanana não precisou de ganhar as legislativas para mesmo assim se sentar na cadeira do poder. Entretanto, o criminoso Alfredo Reinado continua a monte, recebendo salário do Estado. 

Grécia: das catástofres naturais à Greve Geral

Manifestações massivas de estudantes, incêndios, eleições, cheias, greve geral. Sem dúvida que a Grécia viveu um ano conturbado. A direita, no poder desde 200 - depois de 11 anos de governos "socialistas" - resisitiu ao desgaste provocado pelos incêndios que vitimaram 66 pessoas e a 16 de Setembro voltou a vencer as eleições legislativas com maioria absoluta. Mas os protestos sociais continuam fortes, e exemplo disso é a greve geral que a 12 de Dezembro paralisou todos os sectores vitais do país. 

Polónia: do obscurantismo ao neoliberalismo feroz

Há muitos anos que a Polónia não tinha tanto destaque internacional. Pena que tenha sido pelos piores motivos: as medidas ultra conservadoras e moralistas dos gémeos Kaczynski povoaram com frequência os jornais no ano de 2007. Frenesim que parece ter terminado com a vitória do partido de centro-direita Plataforma Cívica, a 21 de Outubro. O novo primeiro-ministro, que sucede a Jaroslaw Kaczynski, anunciou a boa nova da retirada das tropas polacas do Iraque, embora a nível económico e social se prepare para uma campanha de privatizações. 

Birmânia: nas ruas contra a ditadura

Já foi chamada de Revolução de Açafrão, da cor das roupas dos monges budistas que estiveram no centro de muitas das mobilizações deste Verão. Infelizmente, os protestos contra o regime que governa a Birmânia (também chamada Myanmar), duramente reprimidos, não tiveram sucesso: apesar de abalada, a ditadura militar que reina no país desde 1962 aguentou-se de pé. Iniciados em Agosto, os protestos contra a decisão do governo, de 15 de Agosto, de extinguir os subsídios aos combustíveis - provocando uma disparada dos preços dos artigos de primeira necessidade - ganharam grande dimensão mas foram esmagados por uma reacção repressiva do regime, que começou a 26 de Setembro.

O Irão e o nuclear

No dia 23 de Março, as forças iranianas capturaram 15 fuzileiros navais britânicos no canal do Shatt al-Arab, na entrada do Golfo Pérsico, provocando uma crise diplomática num momento em que o Conselho de Segurança da ONU se preparava para avaliar novas sanções contra o Irão, devido à sua decisão de manter o programa de enriquecimento de urânio. Teerão afirmou que os fuzileiros confessaram ter violado as suas águas territoriais, mas o governo britânico afirmava que os seus marines estavam em águas territoriais do Iraque.