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Dois passos cruciais contra o vírus da SIDA

Em Fevereiro e Abril de 2007 foram publicados dois estudos que trazem novas esperanças no combate ao vírus da SIDA. Ambas as descobertas, uma publicada na revista Nature e a outra na revista Cell, centram-se na identificação de proteínas, presentes no sangue humano, capazes de bloquear a ligação do HIV às células do sistema imunitário, em vez das investigações mais clássicas que apenas incidiam na inibição da replicação do vírus, e a partir de substâncias não originárias do sangue humano. Artigo no dossier Balanço Internacional 2007  

A permanente mutabilidade do vírus da Sida explica a dificuldade de encontrar uma vacina para uma doença que já infectou cerca de 1% da população mundial. O HIV-1, que está na origem da sida, é um vírus cheio de truques, capaz de mutações rápidas e subtis que lhe permitem iludir constantemente o sistema imunitário (e aproveitar-se dele) e andar sempre um passo à frente dos médicos e investigadores. Neste momento a maior parte dos retro-virais existentes inibem a reprodução do vírus, mas não impedem a sua entrada nas células imunitárias. Na verdade, apenas diminuem o ritmo da destruição mas não a impedem.

Ora, os novos estudos têm-se centrado precisamente na tentativa de encontrar mecanismos que impeçam a entrada do vírus nas células do sistema imunitário. Ou seja, em vez de controlar a reprodução do vírus quando este já infectou um glóbulo branco, o que se pretende é actuar anteriormente, no momento em que o vírus ainda não teve tempo de se introduzir totalmente nas células imunitárias. Ora, dada a mutabilidade do HIV, a dificuldade consiste precisamente em identificar as suas partes estáveis que são essenciais para a ligação "fatal" com as células imunitárias.

O HIV defende-se através de uma membrana protectora em torno do seu material genético, como se fosse um colete à prova de bala. Mas, para infectar uma célula, necessita de múltiplos braços, saliências que têm na base a glicoproteína 41 (gp 41) e na ponta a glcoproteína 120 (gp120). Estas saliências, constituídas pela gp41 e pela gp120, são a arma que o vírus possui para se agarrar aos receptores das células imunitárias, designados por proteínas CD4. Primeiro, a extremidade destas saliências (a gp120) liga-se ao receptor CD4, logo de seguida, a gp120, precisamente porque não forma uma relação estável com o receptor da célula imunitária, deforma-se e abre caminho à entrada da parte mais interior da saliência, ou seja, da gp 41, consumando-se a infecção. O problema em evitar esta ligação consistia em encontrar os locais exactos dos braços do vírus que encaixavam nas células imunitárias, aparentemente escondidos e só revelados depois do contacto. É precisamente nesta busca que se centram os dois estudos divulgados em 2007.

Desde 1998 que se conhece a estrutura deste braço, nomeadamente da sua parte terminal, a gp120. No entanto, só se conhecia a estrutura quando esta já estava agarrada à célula imunitária. Ou seja, não se conhecia como era essa "chave" fora da "fechadura", tornando impossível evitar o encaixe.

Um grupo de investigadores do National Institute of Health (NIH - EUA), num estudo publicado na revista Nature, diz ter identificado o calcanhar de Aquiles do vírus. Ou seja, encontraram precisamente o local do braço do vírus que encaixa na célula imunitária, antes do encaixe se consumar.

E, melhor ainda, encontraram uma proteína (B12), que está presente no sangue humano, que encaixa perfeitamente na gp120, formando com ela uma relação estável. Ou seja, ao contrário das interacções gp120-CD4, o anticorpo B12 consegue um primeiro contacto com a gp120, sem a necessidade de alteração da conformação desta glicoproteína, conseguindo formar uma ligação estável entre as duas moléculas. Ao fixar-se à molécula viral, o anticorpo impede-a de entrar na célula imunitária, mais ou menos como uma pastilha elástica colada na ponta de uma chave a impediria de entrar numa fechadura.

A equipa liderada por Peter Kwong, do NIH, percebeu como o anticorpo B12, que existe no sangue de pessoas que resistem durante mais tempo ao HIV, se liga à molécula viral gp 120 para assim impedir o vírus de se encaixar no receptor CD4, a sua porta de entrada nas células imunitárias.

"Esta é sem dúvida uma das melhores pistas [para o desenvolvimentos de vacinas contra o HIV] dos últimos anos", disse Gary Nabel, um dos elementos da equipa. E acrescentou: "Um dos nossos primeiros objectivos é desenvolver vacinas contra o HIV que poderiam estimular os anticorpos neutralizantes".

Por outro lado, um estudo de investigadores da Universidade Alemã de Ulm, publicado na revista Cell, encontrou outra proteína presente no sangue dos próprios infectados, que também consegue bloquear o contacto do vírus com as células imunitárias, embora numa fase posterior. As conclusões deste estudo entrarão em fase de teste e espera-se que só dentro de alguns anos possa permitir o desenvolvimento de um novo fármaco.

Trata-se de uma pequena parte de uma proteína, designada por "VIRIP" e igualmente presente no sangue das pessoas infectadas que resistem durante mais tempo, que consegue ligar-se à parte mais interior do braço do vírus, ou seja, à gp41, numa altura em que a gp120 já iniciou a ligação à célula imunitária. Na verdade, um dos mais recentes medicamentos contra o HIV - comercialmente conhecido por "Fuzeon" - já funciona desta forma, embora ataque a gp41 num local diferente, acreditando-se que não será tão eficaz quanto a cadeia de aminoácidos VIRIP.

Estas duas descobertas têm outra inegável vantagem. Ao utilizarem proteínas presentes no sangue humano, supõe-se que os efeitos secundários sejam muito menos agressivos do que os causados pelos retrovirais que se usam actualmente. A comunidade científica acredita que, a ser encontrada uma cura ou vacina para a SIDA, na respectiva bibliografia constarão estes estudos.

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Resto dossier

Mundo em 2007

Da França à Venezuela, da Palestina ao Irão, passando pela questão ambiental, por Timor ou pela Polónia, aqui fica uma possível memória do Mundo em 2007.

Palestina dividida

No dia 13 de Junho, o Hamas hasteou as bandeiras verdes do movimento num dos últimos bastiões da Fatah na Cidade de Gaza, o Quartel General de Segurança Preventiva, concluindo a operação militar que o levou a assumir o controlo total da Faixa de Gaza e a expulsar as forças fiéis ao presidente palestiniano Mahmud Abbas e à Fatah do território. Entretanto, a Fatah tentava assegurar o controlo da Cisjordânia, iniciando uma campanha de detenção de cerca de 1500 militantes do Hamas.

Dois passos cruciais contra o vírus da SIDA

Em Fevereiro e Abril de 2007 foram publicados dois estudos que trazem novas esperanças no combate ao vírus da SIDA. Ambas as descobertas, uma publicada na revista Nature e a outra na revista Cell, centram-se na identificação de proteínas, presentes no sangue humano, capazes de bloquear a ligação do HIV às células do sistema imunitário, em vez das investigações mais clássicas que apenas incidiam na inibição da replicação do vírus, e a partir de substâncias não originárias do sangue humano. Artigo no dossier Balanço Internacional 2007

Líbano: crise sem fim à vista

Beirute amanheceu no dia 23 de Janeiro completamente paralisada por barricadas de pneus em chamas e confrontos entre apoiantes e opositores do primeiro-ministro Fouad Siniora, do Líbano. Uma greve geral foi convocada pelos líderes da oposição, entre eles Hassan Nasrallah, do Hezbollah, com o apoio dos sindicatos, para pedir um novo governo de unidade nacional que tivesse um terço mais um do número de pastas para a oposição, o que lhe daria o poder de veto sobre as decisões governamentais.

Venezuela: Chávez derrotado pela primeira vez nas urnas

O "não" venceu o referendo à reforma constitucional realizado no dia 2 de Dezembro na Venezuela com 51%, contra 49% do "sim" defendido pelo presidente Hugo Chávez. O resultado apanhou muitos desprevenidos, como os jornais Estado de S. Paulo, do Brasil, ou o Público, de Portugal, que optaram por acreditar nas pesquisas à boca da urna e antecipar uma vitória do "sim" que não ocorreu.

Howard, o grande aliado de Bush, é derrotado na Austrália

A derrota do primeiro-ministro John Howard nas eleições da Austrália de 24 de Novembro foi também uma derrota do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e uma demonstração do seu isolamento internacional. Com efeito, Howard era um dos últimos aliados ferrenhos de Bush na guerra do Iraque, e acompanhava até o presidente norte-americano na recusa a assinar o Protocolo de Quioto.

A ameaça das alterações climáticas

O ano de 2006 fez soar o alarme, com o Relatório Stern, mas foi em 2007 que o mundo começou a conviver plenamente com a ameaça das alterações climáticas. Lentamente, a população planetária foi tomando consciência de que a situação é muito grave. Os dados alarmantes foram-se acumulando e as medidas para tentar evitar a catástrofe parecem lentas, demasiado lentas, e ineficazes, demasiado ineficazes.

França: Sarkozy eleito presidente

Nicolas Sarkozy, o candidato da União por um Movimento Popular (UMP), de direita, foi eleito Presidente da República francesa com 53,06% dos votos no dia 6 de Maio, data do segundo turno das eleições presidenciais. Ségolène Royal, a candidata do PS que disputava com ele, obteve 46,94%. A participação nas eleições rondou os 85%.

Paquistão: a sublevação dos advogados

A 9 de Março, o presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, suspendeu o chefe do Supremo Tribunal, Iftikhar Chaudhry. O magistrado não era conhecido por activismo judicial, mas tornara-se muito incómodo pelas sentenças contra o governo num grande número de questões importantes, incluindo a apressada privatização da Karachi Steel Mills, a aceitação de que fosse levada a tribunal a questão dos activistas políticos "desaparecidos" e a atitude de levar a sério as vítimas de violação.

França: greve nos transportes enfrenta Sarkozy

No dia 12 de Novembro, os transportes paralisaram em França, numa greve convocada pelos sindicatos do sector contra a intenção do governo Sarkozy de aumentar o período de descontos necessário para a reforma dos trabalhadores abrangidos por regimes especiais, cerca 1,6 milhão de pessoas. A 18 de Outubro já ocorrera uma primeira greve de 24 horas. A greve, que duraria 10 dias, foi o primeiro confronto social com que se defrontou Sarkozy desde que foi eleito Presidente da República. 

O passeio interminável de Putin

A 2 de Dezembro, o partido de Vladimir Putin voltou a vencer de forma categórica as eleições legislativas russas. Dada a popularidade deste ex-chefe do KGB, nem sequer teriam sido necessárias as inúmeras irregularidades que marcaram o processo eleitoral para conquistar a vitória. O ano na Rússia ficou também marcado pelos ataques à liberdade de expressão, a prisão de membros da oposição, e a proibição de manifestações. Nada que tenha afectado Putin, que se prepara para continuar no poder, deixando a Presidência - já cumpriu dois mandatos, o máximo permitido - e assumindo o cargo de Primeiro Ministro. 

A Austrália vence em Timor

Em Timor, 2007 foi o ano da "consolidação democrática" do golpe de Estado iniciado em 2006 com a conivência da Austrália e contra o "nacionalismo económico" de Mário Alkatiri. Ramos Horta e Xanana Gusmão, os principais aliados da política australiana, conquistaram os lugares de Presidente da República e Primeiro-Ministro. Horta venceu as eleições claramente impondo a primeira derrota nas urnas à Fretilin. A 30 de Junho, Xanana não precisou de ganhar as legislativas para mesmo assim se sentar na cadeira do poder. Entretanto, o criminoso Alfredo Reinado continua a monte, recebendo salário do Estado. 

Grécia: das catástofres naturais à Greve Geral

Manifestações massivas de estudantes, incêndios, eleições, cheias, greve geral. Sem dúvida que a Grécia viveu um ano conturbado. A direita, no poder desde 200 - depois de 11 anos de governos "socialistas" - resisitiu ao desgaste provocado pelos incêndios que vitimaram 66 pessoas e a 16 de Setembro voltou a vencer as eleições legislativas com maioria absoluta. Mas os protestos sociais continuam fortes, e exemplo disso é a greve geral que a 12 de Dezembro paralisou todos os sectores vitais do país. 

Polónia: do obscurantismo ao neoliberalismo feroz

Há muitos anos que a Polónia não tinha tanto destaque internacional. Pena que tenha sido pelos piores motivos: as medidas ultra conservadoras e moralistas dos gémeos Kaczynski povoaram com frequência os jornais no ano de 2007. Frenesim que parece ter terminado com a vitória do partido de centro-direita Plataforma Cívica, a 21 de Outubro. O novo primeiro-ministro, que sucede a Jaroslaw Kaczynski, anunciou a boa nova da retirada das tropas polacas do Iraque, embora a nível económico e social se prepare para uma campanha de privatizações. 

Birmânia: nas ruas contra a ditadura

Já foi chamada de Revolução de Açafrão, da cor das roupas dos monges budistas que estiveram no centro de muitas das mobilizações deste Verão. Infelizmente, os protestos contra o regime que governa a Birmânia (também chamada Myanmar), duramente reprimidos, não tiveram sucesso: apesar de abalada, a ditadura militar que reina no país desde 1962 aguentou-se de pé. Iniciados em Agosto, os protestos contra a decisão do governo, de 15 de Agosto, de extinguir os subsídios aos combustíveis - provocando uma disparada dos preços dos artigos de primeira necessidade - ganharam grande dimensão mas foram esmagados por uma reacção repressiva do regime, que começou a 26 de Setembro.

O Irão e o nuclear

No dia 23 de Março, as forças iranianas capturaram 15 fuzileiros navais britânicos no canal do Shatt al-Arab, na entrada do Golfo Pérsico, provocando uma crise diplomática num momento em que o Conselho de Segurança da ONU se preparava para avaliar novas sanções contra o Irão, devido à sua decisão de manter o programa de enriquecimento de urânio. Teerão afirmou que os fuzileiros confessaram ter violado as suas águas territoriais, mas o governo britânico afirmava que os seus marines estavam em águas territoriais do Iraque.