O megapacote financeiro dos EUA e as fraturas do sistema

O plano de estímulos à economia que resultou do acordo entre republicanos e democratas surpreendeu pelo valor histórico: 2 biliões de dólares. No entanto, o plano virado para o resgate de Wall Street e das grandes empresas não resolve os problemas de um país cada vez mais desigual.

28 de março 2020 - 17:22
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Donald Trump. Foto: TheWhiteHouse/Flickr

Dois biliões de dólares (1,85 biliões de euros), ou cerca de 10% do PIB dos EUA. É esta a dimensão do Coronavirus Aid, Relief and Economic Security (CARES) Act, o pacote de estímulos à economia que resultou do acordo alcançado no Congresso entre democratas e republicanos. O acordo, terminado na madrugada desta quarta-feira, traduz-se no maior plano de estímulos orçamentais da história moderna dos EUA. Mas em que consiste exatamente?

O Economic Policy Intitute (EPI) destaca as principais medidas: 450 mil milhões de dólares destinados aos resgates a empresas, 350 mil milhões destinados ao apoio às pequenas e médias empresas, 300 mil milhões para as famílias (sendo proposto que o Estado transfira diretamente cheques de 1200 dólares por adulto e 500 dólares por criança, com o objetivo de assegurar o rendimento de todos os cidadãos e manter os níveis de consumo), 250 mil milhões para expandir o alcance do subsídio de desemprego, 100 mil milhões para reforçar os hospitais e a sua capacidade de resposta à crise de saúde pública e ainda 150 mil milhões extraordinários para os Estados e autoridades locais.

É um acordo histórico que supera o American Recovery and Reivestment Act, aprovado pelo governo de Barack Obama em 2009 e avaliado em 787 mil milhões de dólares. No entanto, o tamanho conta muito e há dúvidas sobre se este pacote será suficiente para responder à crise provocada pela pandemia. Josh Bivens, investigador do EPI, defendeu recentemente que o estímulo orçamental teria de ser de pelo menos 2,1 biliões, face à contração prevista do produto. J.W. Mason, professor de economia da City University of New York (CUNY), foi mais longe e estimou que teria de andar à volta de 3 biliões de dólares (cerca de 14% do PIB), bastante mais do que o anunciado. O desemprego, de resto, já está a disparar, tendo registado o maior aumento semanal dos últimos 50 anos.

Pedidos de desemprego semanais nos EUA. Gráfico do New York Times
Pedidos de desemprego semanais nos EUA. Gráfico do New York Times.

Josh Bivens e Heidi Shierholz explicam que a estimativa feita na semana passada pressupunha que a maior parte do estímulo fosse direcionado para os trabalhadores e as famílias, o que não acontece na proposta atual. Uma das maiores fatias do bolo é a dos resgates a grandes empresas, sem garantia de manutenção de todos os postos de trabalho e do pagamento dos salários e sem que esteja previsto que o Estado adquira participação nas empresas resgatadas. Para estas empresas, é o melhor de dois mundos: socializam os prejuízos sem terem de partilhar os lucros. What a wonderful world.

Além disso, as medidas de concessão de crédito às empresas acentuam a tendência de acumulação de dívida privada nos últimos anos. Nos EUA, as empresas não financeiras viram o seu endividamento total duplicar de 3,2 biliões de dólares em 2007 para 6,6 biliões em 2019. Joseph Baines e Sandy Hager, investigadores da Kings College e da City University (Londres), estudaram esta evolução, ligando-a à gradual reorientação da atividade das empresas nas últimas décadas, em que a distribuição de dividendos aos acionistas passou a ser o foco principal.

Para as grandes empresas, que dominam os mercados onde operam, isto tem sido feito à custa das despesas de capital – as empresas canalizam boa parte da receita para a recompra das próprias ações, aumentam artificialmente o seu valor e mantêm margens de lucro elevadas. As pequenas e médias empresas, contudo, precisam das despesas de capital para se manterem competitivas, pelo que têm visto os lucros diminuir, compensando-o com o recurso a crédito. O risco de uma vaga de falências que envie ondas de choque ao resto da economia é enorme.

Robert Pollin, professor de economia e co-diretor do Political Economy Research Institute na Universidade de Amherst, lembra que “ao longo da sua presidência e até à última semana, o mantra de Trump sobre a economia era que as condições nunca tinham sido tão boas.” Para Pollin, “isto foi sempre uma observação absurda”, já que a aparência de prosperidade se devia a uma conjugação da especulação bolsista com os cortes de impostos e medidas de desregulação para o setor empresarial. O pacote de estímulos de Trump é um reflexo disso mesmo: excessivamente concentrado no resgate de Wall Street, faz pouco para encarar a profunda crise do sistema de saúde – 1/4 da população (mais de 80 milhões de pessoas) adia cuidados de saúde devido aos custos excessivos e há 45 mil mortes todos os anos por ausência de cobertura de seguro – e negligencia a crescente desigualdade de rendimentos e o combate às alterações climáticas, preferindo manter os apoios aos combustíveis fósseis. Quando são precisas mudanças, Trump oferece mais do mesmo.

O que parece certo é que os dias de crescimento económico sob o governo Republicano estão a chegar ao fim. Até há poucas semanas, quase todos garantiam que desta vez era diferente e que a exuberância dos mercados financeiros era racional, pouco antes do colapso histórico dos índices bolsistas. O vírus está a estilhaçar a ilusão de prosperidade e a pôr a nu as fragilidades do regime de acumulação.

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