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Novos modelos de resposta ao desafio dos cuidados: a co-habitação/co-housing 

O movimento co-housing, como o conhecemos atualmente, surgiu na Dinamarca no final dos anos 60, tendo, mais tarde, sido adaptado noutros países. Artigo de Conceição Nogueira.
Habitação de co-housing na Dinamarca. Fotografia: Wiki Commons

Neste artigo aborda-se um modelo habitacional alternativo que pode fornecer algumas pistas para pensar os cuidados necessários a populações heterogéneas, mas que, de uma forma ou de outra, partilham características que as tornam mais vulneráveis. Falamos de habitação colaborativa ou co-housing [1].

A literatura existente sobre estes modelos caracteriza-se por um certo grau de ambiguidade. Porém, parece existir consenso numa definição que refira uma forma de vida em comunidade que permita, ao mesmo tempo, a existência de espaços privados e independentes com a existência de espaços comunitários, instalações e atividades comuns. Os seus membros estarem conscientemente comprometidos com a convivência em comunidade, assumindo a responsabilidade dessa vivência em todos os aspectos, parece ser fulcral. Contudo, existem outras configurações menos consensuais no que toca à definição e à prática em projetos já implementados, conquanto considere essenciais quando se pensam cuidados e se pretende um modelo habitacional alternativo deveras emancipador. Falo, por exemplo, nas cooperativas (desejavelmente pensadas e concebidas com a participação dos seus futuros habitantes, que partilham entre si um conjunto de valores e/ou interesses) em regime de autogestão na definição das políticas de gestão dos espaços e da vida quotidiana que incluam serviços de cuidados mais ou menos formais. 

O movimento co-housing, como o conhecemos atualmente, surgiu na Dinamarca no final dos anos 60, tendo, mais tarde, sido adaptado noutros países. Este conceito buscava reestabelecer vantagens de comunidades tradicionais, adaptando características para o contexto de vida da época e tendo como influência visões utópicas e libertárias que se constituíram em contracorrente ao modo de viver baseado:
a) na unidade habitacional fechada e independente;
b) na esfera privada, totalmente desfasada e afastada da esfera pública, lugar onde todos os cuidados (realizados sobretudo por mulheres) se podiam e eram expectáveis realizar. 

Este surgimento em meados dos anos 60/70 foi, em grande parte, impulsionado por jovens que enfrentavam dificuldades no arrendamento de habitação, que não desejavam viver afastados da vida urbana e que partilhavam ideais revolucionários a proliferarem por quase toda a Europa. Ao ocupar edifícios abandonados, de forma legal ou, inclusive, ilegal, tais movimentos geraram comunidades baseadas nos novos ideais surgidos pós-protestos e dotados de liberdade individual e de características de auto governança participativa.

Em tempos mais recentes, os modelos de habitação coletiva ressurgiram nos EUA, na Europa, na Austrália, na Nova Zelândia e no Japão, tendo esta reemergência sido associada a um crescente desejo de construção de sentido de pertença, de experimentação de uma maior ligação à comunidade e/ou de uma rejeição crescente dos padrões de consumo dominantes.  Além disso, tem sido impulsionada não só pela falta de habitação acessível e pelas más condições de arrendamento, mas, também, como solução habitacional para o número crescente e exponencial de pessoas mais velhas que não desejam nem necessitam de cuidados formais contínuos ou intensivos (estruturas residenciais). Todavia, este viver solitário em apartamentos isolados da comunidade é, claramente, prejudicial à vida com saúde física e mental, à convivência ativa na vida pública e ao gozo de uma vida e de um envelhecimento ativo, ativista e transgressor. 

Contrariando todos os estereótipos, as pessoas mais velhas são o grupo etário mais heterógeno que existe. As diferentes pertenças de sexo, género, raça, classe social, orientação sexual, funcionalidade, saúde e, mesmo, de religião, aliadas aos anos de vida vividos, trazem à experiência do envelhecimento uma complexidade para a qual um único modelo de cuidado ou de soluções de apoio serão, claramente, insuficientes. Mas, pensar modelos habitacionais quando se fala em pessoas mais velhas, não representa, necessariamente, imaginar espaços de gente velha, a co-habitar com pessoas velhas, ou seja, estruturas pensadas por não-velhos e desenhadas sem a sua participação.

São, pois, possíveis modelos habitacionais, onde a diversidade de populações esteja no centro e que todas essas pessoas possam, de alguma forma, ganhar em termos de cuidados. Espaços habitacionais alternativos podem implicar espaços de convívio e partilha intergeracional nos diferentes modos de vida. Famílias jovens com crianças pequenas, pessoas LGBTI, mais velhas ou com diversidade funcional em vidas independentes podem, e devem,  partilhar um modo de vida de apoio mútuo que reduza a solidão e o peso da vida sem suporte social ou familiar e aumente a saúde e o bem-estar de todas as pessoas envolvidas.
 
Não sendo uma solução, isenta de problemas relacionais, para todas as pessoas, tão-pouco a última linha nos cuidados, viver deste modo em comunidade é, contudo, uma alternativa que pode, e deve, ser explorada e apoiada politicamente. 

Conceição Nogueira é doutorada em Psicologia Social e é professora associada com agregação na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto.

Nota:
[1] Distinto do termo recente de co-living, tal como foi recentemente avançado por arquitetos/as (alguns/mas bem-intencionados) que, em colaboração com investidores e promotores imobiliários em todo o mundo e sob a égide da moda de “habitação alternativa”, acabam por esquecer premissas básicas como a co-propriedade e a co-participação na gestão dos espaços ou na ausência de valores partilhados que permita a construção de um espírito de comunidade.

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Neste dossier:

Serviço Nacional de Cuidados

Cuidar. De crianças. De idosos. De pessoas doentes. De pessoas com diversidade funcional. Cuidar dos outros. Cuidar de quem precisa tem sido uma função quase exclusivamente feminina, assegurada sem reconhecimento social e sem pagamento. Não tem que ser assim. E não deve ser assim. Cuidar de quem precisa pode e deve ser um serviço público, um Serviço Nacional de Cuidados. 

A reconversão do Natal até à sua extinção nos moldes atuais (all we want for christmas is)

Esquematicamente, os eventos familiares significam rituais de cuidados recrutadores, de forma discriminada e discriminatória, de mão-de-obra para a sua preparação, realização e desfecho. Artigo de Mafalda Araújo.

O cuidado como ecologia

O trabalho de cuidar passa, em grande medida, por atividades que não são reconhecidas formalmente como trabalho. A forte feminização dessas atividades está associada a padrões de divisão sexual ou de género, à distinção entre trabalho produtivo e reprodutivo ou entre trabalho remunerado e não remunerado. Artigo de João Arriscado Nunes. 

Uma mudança na política de cuidados: o Serviço Nacional de Cuidados

O Bloco propõe, no seu programa eleitoral, a criação de um Serviço Nacional de Cuidados, que desenvolva em todo o território uma rede de respostas públicas na área da infância, da velhice, da dependência e da promoção da autonomia, de caráter universal e tendencialmente gratuito. 

Direitos humanos não se discutem. Cumprem-se!

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Cidades que cuidam

Quando cada um trata da sua refeição, da sua louça, da sua deslocação - com várias casas com mais do que um carro - da “sua” criança, da “sua” pessoa dependente, multiplica-se o consumo de materiais de apoio, multiplicam-se deslocações em carros, multiplicam-se doenças e dependências. Artigo de Maria Manuel Rola. 

O cuidado para que nada fique como dantes

Na verdade, cuidar é um trabalho duro, incessante, incansável atribuído a quem menos conta na sociedade; é o epítome da exploração capitalista. Artigo de Teresa Cunha.

"O capitalismo privatiza a vida e socializa a morte"

As trabalhadoras da reprodução social são as mais mal pagas, são as primeiras a serem despedidas, enfrentam constantemente o assédio sexual e, muitas vezes, violências diretas. Entrevista com Tithi Bhattacharya, traduzida por Andrea Peniche.

Que vida além dos 60?

A situação da população mais idosa é grave, apesar das transferências sociais. Se quem trabalha e aufere o salário mínimo é pobre, o reformado que recebe uma pensão igual ou inferior a 540 euros também é pobre. Artigo de Deolinda Martin e Isabel Ventura.

Os trabalhadores e as trabalhadoras das IPSS

São cerca de 63 mil as pessoas  que trabalham em Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS). A maioria trabalha no apoio à infância,  à juventude, à deficiência e à terceira idade. Artigo de Joaquim Espírito Santo e Pedro Faria. 

Manifesto "Cuidar de quem cuida"

O nosso futuro depende, em grande medida, do futuro dos cuidados. As infraestruturas de cuidados de que dispomos, bem como o número atual de trabalhadores desta área, são insuficientes para colmatar as necessidades. É essencial uma estratégia de reestruturação dos cuidados como um direito 
social, capaz de pôr em causa as desigualdades – de género, de classe, de origem territorial – que hoje prevalecem. Manifesto de José Soeiro, Mafalda Araújo e Sofia Figueiredo. 

Manifesto: Reconstruindo a organização social do cuidado

Este é um movimento global para exigir a reconstrução da organização social do cuidado. É hora de reconhecer o valor social e económico dos trabalhos de cuidado (remunerado e não remunerado) e o direito humano ao cuidado. 

Sara Barros Leitão e Conceição Ramos conversam sobre trabalho doméstico

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Políticas do cuidado: é tempo de ser exigente

O governo limitou de tal forma o alcance do Estatuto do Cuidador Informal que o balanço é absolutamente decepcionante. 92% da verba aprovada pelo Parlamento não foi sequer gasta. Artigo de José Soeiro.

Elas, as que “não trabalham”

A decisão é histórica. O Supremo Tribunal de Justiça condenou um homem ao pagamento de 60.782 euros à ex-companheira pelo trabalho doméstico desenvolvido por ela ao longo de quase 30 anos de união de facto. Artigo de José Soeiro.

A urgência de um serviço nacional de cuidados

O Bloco de Esquerda incluiu a proposta de criação de um Serviço Nacional de Cuidados no programa eleitoral que apresentará ao país nas eleições de Janeiro de 2022. Trata-se de uma grande medida, uma resposta fundamental para os tempos actuais. Não se pode adiar por mais tempo este debate. Artigo de Helena Pinto.