Isolacionismo de esquerda: um caminho para a irrelevância política no debate sobre defesa

por

Hanna Perekhoda

Se a esquerda não tomar medidas concretas face à agressão, não só perderá credibilidade como também perderá o seu papel na definição do futuro da Europa. Um texto ao qual é importante ler a resposta de Chris Zeller publicado neste dossier.

23 de março 2025 - 16:30
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Parlamento Europeu.
Parlamento Europeu. Foto La Moncloa.

O Parlamento Europeu votou a resolução que define as linhas de orientação para a defesa e o rearmamento. As críticas mais duras à resolução da Comissão Europeia sobre a defesa e o rearmamento vêm do grupo político da Esquerda. Entre elas, Manon Aubry (França Insubmissa), que denuncia: “Arranjam dinheiro para tanques, mas não para hospitais”. “É como se, de repente, deixasse de haver aquecimento global ou pobreza e a única prioridade fossem os veículos blindados”, nota com sarcasmo. Da mesma forma, Benedetta Scuderi, dos Verdes, defende que “esta corrida ao armamento” prejudica o crescimento e as finanças públicas. Outras vozes juntaram-se ao coro, incluindo o co-presidente do The Left, Martin Schirdewan, e Danilo Della Valle, do Movimento Cinco Estrelas. Durante o discurso de Della Valle, um grupo de representantes do Movimento Cinco Estrelas protestou com cartazes que diziam: “Chega de armas” ou “Mais empregos, menos armas”.

No fundo, a posição destes políticos resume-se ao seguinte: deixemos que o mundo à nossa volta se desmorone, que os países sejam invadidos – não temos nada a ver com isso. Declaram o desejo de preservar o seu modelo social, aumentando o orçamento para a assistência social e limitando as despesas com a segurança – um ideal que qualquer político de esquerda partilharia. O que eles convenientemente ignoram é que o próprio modelo social que procuram proteger foi possível precisamente porque a segurança foi externalizada para outros atores – nomeadamente, os Estados Unidos. Mas o que é que acontece quando a segurança deixa de ser garantida por eles? Esta é uma questão que nunca abordam, avançando, em vez disso, com simples slogans. As realidades da competição internacional de poder – atualmente num dos seus momentos mais intensos em décadas – são simplesmente ignoradas.

Enquanto a França, a Espanha, a Itália ou a Alemanha podem não enfrentar uma ameaça militar imediata, para a Polónia, os Estados Bálticos e os países nórdicos, o perigo é direto. Quando o nosso vizinho é uma das maiores potências militares do mundo, um país que violou todos os principais acordos internacionais na última década, bombardeia diariamente cidades ucranianas e ultrapassa todos os países europeus em despesas militares, a capacidade de nos defendermos não é uma “corrida ao armamento” – é um pré-requisito para a sobrevivência.

No centro desta questão está a recusa de ver a Europa como um projeto comum. Ironicamente, este tipo de oposição de esquerda à defesa europeia é uma forma de nacionalismo disfarçado. Mas o nacionalismo, na sua forma histórica, é precisamente o que alimentou séculos de guerra, destruição e divisão no continente europeu. A União Europeia nunca foi apenas um projeto económico – foi um projeto político e de segurança concebido para evitar a guerra, uma lição aprendida com as repetidas catástrofes do passado.

O que torna esta posição particularmente auto-destrutiva para a esquerda é o facto de espelhar o isolacionismo dos partidos soberanistas de direita. Este facto é claramente ilustrado pela forma como a Alternativa para a Alemanha (AfD) votou ao lado da esquerda. No entanto, ao contrário da esquerda, a direita é consistentemente isolacionista. A sua posição é simples: rejeitam compromissos militares externos e opõem-se aos migrantes, reforçando uma visão do mundo em que apenas os interesses da sua nação interessam e nada para além das suas fronteiras merece atenção. Esta posição tem, pelo menos, a vantagem da consistência – o que a torna mais apelativa para os eleitores que acreditam no interesse próprio absoluto.

Em contrapartida, o isolacionismo seletivo da esquerda – em que as ameaças à segurança são ignoradas, mas em que persistem os apelos à solidariedade internacional em questões sociais e ambientais – carece de coerência e não consegue ter eco junto do público em geral. Ao suscitar sentimentos isolacionistas e egoístas, a esquerda populista cultiva um terreno emocional que, em última análise, beneficia a direita. Afinal, se o estado de espírito político dominante é o do egocentrismo nacional, é a direita – e não a esquerda – que oferece uma visão mais clara.

No entanto, há que reconhecer que os críticos de esquerda e ecológicos dos planos de rearmamento da Europa têm razão em sublinhar que nem a crise ecológica nem a desigualdade sistémica desapareceram. Estas são, de facto, ameaças existenciais para a humanidade. Mas será que têm razão em retratar a preparação militar e o apoio à Ucrânia como estando em oposição à resolução destes desafios globais?

Na realidade, a luta pela segurança e a luta contra as alterações climáticas estão profundamente interligadas.

Tomemos como exemplo o consumo de combustíveis fósseis. A dependência da Europa – e especialmente da Alemanha – dos combustíveis fósseis russos baratos não só tem sido um desastre ambiental como também um grave risco geopolítico. A dependência energética da Rússia deu ao Kremlin um dos seus instrumentos mais eficazes de influência política sobre a Europa. Financiou a máquina de guerra russa, ao mesmo tempo que tornou as nações europeias vulneráveis à chantagem energética. Assim, o rápido desenvolvimento de fontes de energia alternativas não é apenas um imperativo ambiental – é uma necessidade geopolítica. É precisamente o que os ucranianos e outros Estados ameaçados pelo expansionismo russo estão a exigir. As democracias que se tornam dependentes de regimes autoritários para algo tão crítico como a energia estão a sabotar a sua soberania e segurança. Como bem disse Li Andersson, também membro do grupo The Left, a UE deveria estabelecer um objetivo estratégico de reduzir as nossas dependências de atores externos, incluindo a energia e a esfera digital. No entanto, neste preciso momento, segundo o iStories, as autoridades alemãs, russas e norte-americanas estão a discutir a retoma do fornecimento de petróleo e gás russo à Alemanha – uma medida que contradiz diretamente a segurança a longo prazo e a independência energética da Europa.

A resolução de desafios globais como as alterações climáticas e a desigualdade é, sem dúvida, uma prioridade, mas fazê-lo num quadro isolacionista e soberanista é uma contradição. Num mundo onde o conceito de bem comum desaparece e a política é ditada apenas pela maximização dos interesses nacionais, as forças que beneficiam não são as que defendem a justiça climática ou a equidade social. Pelo contrário, um mundo assim é precisamente o que Trump e Putin promovem abertamente – um mundo em que a natureza e a vida humana são recursos dispensáveis na busca do poder do Estado, ao serviço dos autocratas que o controlam. Isto não quer dizer que as democracias liberais deem automaticamente prioridade à natureza e à vida humana. A diferença, porém, é que nos sistemas democráticos há espaço para a oposição e a possibilidade de impor visões alternativas. Basta perguntar aos eco-activistas e sindicalistas russos e chineses sobre a sua capacidade de lutar pela justiça social e climática. E nos Estados Unidos, a presidência Trump demonstrou a rapidez com que os projetos ambientais e sociais podem ser desmantelados e os seus valores silenciados e criminalizados.

Nem a vida humana nem o ambiente podem ser protegidos num Estado que se insere na “zona de influêncua” de potências imperiais autocráticas. A ironia da esquerda isolacionista é que, ao rejeitar a cooperação em matéria de segurança, está a acelerar a sua própria irrelevância política. Num mundo dominado por uma política de grandes potências sem controlo, eles e os seus valores serão empurrados para as margens – primeiro politicamente, depois fisicamente.

O contrato social nas nossas sociedades assenta na ideia de que o Estado existe para proteger os direitos e as liberdades dos seus cidadãos e não para os sacrificar em nome de ambições expansionistas. Os regimes autoritários encaram a vida humana como um recurso dispensável a ser utilizado na prossecução de objetivos geopolíticos. As democracias são limitadas por considerações éticas e políticas. Os Estados autoritários possuem um controlo centralizado dos meios de comunicação social e uma repressão eficaz, o que lhes permite travar guerras com pouca consideração pela opinião pública. Os políticos das democracias, concentrados nos ciclos eleitorais, dão prioridade aos resultados a curto prazo em detrimento das estratégias a longo prazo.

Assim, as sociedades democráticas enfrentam uma vulnerabilidade estratégica inerente quando confrontadas com Estados autoritários agressivos. Ainda assim, muitas pessoas preferem agarrar-se à crença de que a diplomacia, a interdependência económica ou a superioridade moral, por si só, nos impedirão de uma eventual agressão militar. Esta ilusão conduz à inação e a uma vulnerabilidade ainda maior, que os regimes autoritários exploram eficazmente, ao apresentarem a resistência aos poderes autocráticos como sendo impossível de vencer e desnecessária.

Os slogans abstratos sobre “abolir a guerra” revelam não só uma falta de soluções práticas mas também uma falta de vontade de assumir responsabilidades. Em vez disso, permitem que nos sintamos justos sem nos envolvermos no difícil trabalho da governação e da estratégia. Ao recusarem-se a confrontar as realidades militares, estes movimentos tornam-se espetadores em vez de atores, comentando os acontecimentos em vez de os moldar. Ao fazê-lo, acabam por entregar as tarefas críticas de segurança e defesa àqueles a quem ideologicamente se opõem.

Em vez de recuar para uma retórica vazia, a esquerda deve moldar pro-ativamente as soluções. A esquerda deve unir-se para promover uma estratégia de defesa em que a segurança não seja financiada através de cortes nos programas sociais, mas sim através do aumento dos impostos sobre os ultra-ricos. Como Li Andersson argumenta corretamente, “seria um erro histórico financiar isto através de cortes no bem-estar”, uma vez que tal medida só alimentaria a ascensão da extrema-direita. A medida mais imediata e eficaz seria o confisco dos ativos russos congelados e o seu rápido reinvestimento em ajuda militar à Ucrânia. No entanto, A França Insubmissa, o partido que Manon Aubry representa no Parlamento Europeu, votou contra o confisco dos bens russos no seu parlamento nacional. Além disso, o Movimento 5 Estrelas tem um historial de posições pró-Kremlin, que incluem a oposição às sanções antes da invasão em larga escala da Ucrânia.

Se a esquerda não tomar medidas concretas face à agressão, não só perderá credibilidade como também perderá o seu papel na definição do futuro da Europa.


Hanna Perekhoda é uma historiadora ucraniana, doutoranda na Universidade de Lausanne.

Texto publicado originalmente na Europe Solidaire et sans Frontières.

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