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A história política de um país em ebulição

Neste artigo, Jorge Martins resume a história e o contexto político da Bielorrússia do início da Idade Média até à independência, com enfoque especial nas últimas três décadas dominadas pelo regime de Lukashenko.
Bandeira da Bielorrússia
Foto de Zwedga/Flickr

As denúncias de fraude eleitoral generalizada nas eleições presidenciais da Bielorrússia, realizadas no passado dia 9 de agosto, levaram milhares de pessoas às ruas, numa contestação generalizada ao regime do presidente Aleksander Lukashenho, há 26 anos no poder.

De acordo com os resultados oficiais, aquele terá obtido 80,1% dos votos contra apenas 10,1% da sua principal opositora, Sviatlana Tsikhanouskaya, que substituiu, como candidata o seu marido, Sergei Tikhanovsky, entretanto detido.

Na sequência dos protestos populares que eclodiram em todo o país, vários dirigentes da oposição foram presos e a candidata oposicionista exilou-se na Lituânia para evitar a prisão.

Um país interior

A Bielorrússia (literalmente, Rússia Branca) é um país interior, cujo território se estende por cerca de 207,5 mil Km2, com uma população aproximada de 9,5 milhões de habitantes, dos quais mais de 2 milhões vivem na capital, Minsk, e respetiva área metropolitana. É limitada a leste e a nordeste pela Rússia, a sul pela Ucrânia, a oeste pela Polónia e a noroeste pela Lituânia e pela Letónia.

Do ponto de vista étnico, perto de 84% da população é bielorrussa, havendo cerca de 8,5% de russos, 3% de polacos, pouco mais de 1,5% de ucranianos e 3% de minorias diversas.

A nível linguístico, 53% têm o bielorrusso como língua materna e 41,5% o russo. Contudo, este último é utilizado por 70% da população, contra apenas 23% do primeiro. Polacos e ucranianos usam as respetivas línguas, enquanto parte do que restou da comunidade judaica após a 2ª guerra mundial tem como idioma o yiddish.

Relativamente à religião, cerca de 48,5% declaram-se ortodoxos, 7% católicos e perto de 3,5% praticantes de outras religiões. Há 41% que se assumem como ateus ou agnósticos.

O início da História: a Rus de Kiev

O atual território bielorrusso foi, no início da Idade Média, ocupado por tribos bálticas e eslavas, tendo estas últimas ganho, gradualmente, maior importância.

A primeira grande organização política da área foi a Rus de Kiev, surgida no sec. IX. Esta era uma espécie de federação de povos, sob a liderança da dinastia Rurikid, que se estendia do mar Branco, no Ártico, ao mar Negro e que ocupava, grosso modo, os atuais territórios da Bielorrússia e da Ucrânia, o sueste da Lituânia, o oeste e noroeste da Rússia e pequenas franjas da Polónia e da Finlândia. O seu enfraquecimento progressivo levou ao aparecimento de vários principados autónomos, sendo o de Polotsk tido como o originário do povo bielorrusso.

O Grão-Ducado da Lituânia

No sec. XIII, as invasões mongóis levaram ao colapso da Rus de Kiev, levando à integração dos principados do centro e sul daquela (habitados por bielorrussos e ucranianos) no Grão-Ducado da Lituânia. O carácter multiétnico deste permitiu o desenvolvimento da identidade política e cultural bielorrussa, assente na língua rutena, então comum a vários povos da área.

A crescente pressão do cada vez mais poderoso principado de Moscovo (embrião da futura Rússia) nas suas fronteiras orientais levou a aristocracia lituana a promover uma união pessoal com o seu vizinho ocidental, o Reino da Polónia, através de um casamento real, em finais do sec. XIV.

A Confederação Polaca-Lituana

Com o aumento da ameaça moscovita, foi criada, em meados do sec. XVI, a Confederação Polaca-Lituana. Apesar de o Grão-Ducado manter um estatuto especial (por exemplo, apenas famílias dele originárias podiam aí deter terras), o certo é que se verificou uma progressiva polonização. A língua polaca foi tornada oficial, sendo a rutena banida da administração pública, e o catolicismo romano foi avançando. Contudo, a maioria dos camponeses continuava a falar ruteno e fiel à Igreja Uniata (católica de rito bizantino) da Bielorrússia.

A integração no Império Russo

Apesar de ter chegado a ser o Estado mais extenso da Europa, a Confederação foi progressivamente enfraquecendo e, no sec. XVIII, é alvo de três partilhas (1772, 1793 e 1795) por parte dos três poderosos impérios vizinhos: Rússia, Prússia e Áustria.

A parte oriental daquela, abrangendo territórios correspondentes, atualmente, ao sul e oeste da Letónia, à Lituânia, a grande parte da Bielorrússia e à Ucrânia ocidental ficou, então, sob domínio do Império Russo, já no final do reinado de Catarina, a Grande, tal como o letão, lituano e ucraniano. A Bielorrússia, passa, então, a ser uma província russa.

Ao longo do sec. XIX, surgem, nesses territórios, várias revoltas contra o domínio russo, todas elas duramente reprimidas. A elas se segue o aumento das políticas de russificação dessas áreas, em especial durante os reinados dos czares Nicolau I e Alexandre III. Na Bielorrússia, a Igreja uniata é integrada na Igreja Ortodoxa Russa e a língua bielorrussa (que, juntamente, com o ucraniano e o rusyn, é proveniente do ruteno) foi proibida nas escolas e passa a poder ser escrita apenas no alfabeto cirílico. Apenas após a falhada revolução russa de 1905 se processa um abrandamento das políticas centralistas do regime czarista. Apesar de tudo, o final do sec. XIX fica marcado por alguma industrialização, possibilitada pela abolição da servidão, em 1860.

Em 1914, rebentou a 1ª guerra mundial e o território bielorrusso foi um campo de batalha entre os exércitos alemães e russos.

A breve República Popular da Belarus

Com a revolução de fevereiro, que depôs o czar, com vista à instauração de uma democracia liberal na Rússia, as nacionalidades periféricas começam a agitar-se. Na Bielorrússia, começa o debate entre autonomistas e independentistas. Estes últimos criam o Conselho Nacional Bielorrusso (BNR), promovido pela Assembleia Socialista Bielorrussa (BSH), de tendência social-democrata, o conservador Movimento Democrata-Cristão (BCD) e a Federação Geral Trabalhista Judaica, socialista étnica.

Após a revolução socialista de outubro, os bolcheviques assinam uma paz separada com a Alemanha e os impérios centrais, consubstanciada no Tratado de Brest-Litovsk, em março de 1918. Neste, a Bielorrússia é dividida entre alemães e russos.

Após a revolução socialista de outubro, os bolcheviques assinam uma paz separada com a Alemanha e os impérios centrais, consubstanciada no Tratado de Brest-Litovsk, em março de 1918. Neste, a Bielorrússia é dividida entre alemães e russos. Em resposta, a 25 desse mês, o BNR proclama a República Popular da Belarus (igualmente com a sigla BNR) na parte ocidental, perante o beneplácito do ocupante alemão.  É aí que surge a bandeira às riscas horizontais branca, vermelha e branca. A BNR procura o reconhecimento dos bolcheviques, mas Lenine desconfiava das intenções dos seus dirigentes e recusou.

Com a derrota da Alemanha, em novembro de 1918, os seus exércitos retiram e o caos instala-se na região. O governo da BNR exila-se em dezembro, procurando o reconhecimento internacional na conferência de Versalhes, mas sem êxito. Em 1919, os bolcheviques criam, na parte pertencente à Rússia, o governo da República Socialista Soviética (RSS) da Bielorrússia.

A partilha do território entre a Polónia e a URSS

Em 1919, rebenta a guerra entre a Polónia e a Rússia soviética, que termina em 1921, com a assinatura do Tratado de Riga. Neste, a Bielorrússia é dividida entre polacos e soviéticos: os primeiros ocupam a parte ocidental, os segundos a central e oriental. Em 1922, a RSS da Bielorrússia é uma das fundadoras da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), juntamente com a Rússia, a Ucrânia e a Transcaucásia.

Na área integrada nesta última, as políticas estalinistas de coletivização forçada da terra, nos anos 30, levam a uma feroz repressão e à fome, causando milhares de mortos, em longe dos números da vizinha Ucrânia. Em 1937, foram também dezenas ou centenas de milhares as vítimas das purgas estalinistas.

Na zona que ficou sob domínio polaco, no início dos anos 20, eram frequentes as tensões entre o governo de Varsóvia, dirigido pela direita nacionalista, e as diferentes minorias étnicas (bielorrussos, ucranianos e judeus) que aí habitavam. Contudo, eram da parte dos ucranianos, cujo nacionalismo sempre foi forte, que se registava a oposição mais encarniçada. A chegada ao poder de Pilsudski, um ditador, mas adepto de uma Polónia multiétnica, após o golpe militar de 1926, acalmou a situação, mas esta deteriorou-se após a sua morte, em 1935.

A reunificação no seio da URSS

Em agosto de 1939, poucos dias antes do início da 2ª guerra mundial, é assinado o pacto germano-soviético, em que a Alemanha nazi e a URSS acordavam na partilha do território polaco, ficando os alemães com as zonas ocidental e central do país, e os soviéticos com a sua parte oriental, a que se juntavam os Estados bálticos.

Em 1941, o território bielorrusso é especialmente atingido pela agressão nazi à URSS, sendo enormes as perdas de vidas humanas e inúmeras as infraestruturas destruídas. A comunidade judaica é quase completamente dizimada no Holocausto.

Consumada a invasão da Polónia pelos nazis, a 1 de setembro, e vencida esta, os soviéticos ocupam a parte que lhes cabia no acordo, que incluía as zonas ocidentais das atuais Bielorrússia e Ucrânia.

Em 1941, o território bielorrusso é especialmente atingido pela agressão nazi à URSS, sendo enormes as perdas de vidas humanas e inúmeras as infraestruturas destruídas. A comunidade judaica é quase completamente dizimada no Holocausto. Em 1944, o os soviéticos repelem os alemães, que, um ano antes, haviam estabelecido um breve Estado fantoche, assente em alguns colaboracionistas.

Em 1945, a Bielorrússia é um dos membros fundadores da ONU. Estaline tinha pressionado Roosevelt e Churchill a que todas as repúblicas soviéticas fossem membros de pleno direito da organização, o que não foi aceite por aqueles. Contudo, aceitaram que, para além da URSS, a Bielorrússia e Ucrânia adquirissem aquele estatuto, apesar de serem partes constituintes daquela.

Em 1986, o acidente nuclear de Chernobyl, na vizinha república da Ucrânia, a poucos kilómetros da sua fronteira, afetou grande do país, contaminado pela radiação libertada após a fusão de um dos reatores daquela central atómica.

Após a guerra, a reconstrução das infraestruturas foi relativamente rápida e a república recuperou grande parte da sua indústria. Entretanto, Estaline acelerou a política de russificação da Bielorrússia, enviando russos de outras partes da URSS para o seu território, alguns dos quais com um papel destacado na direção do partido comunista local. Embora o incentivo à imigração de russos se tenha reduzido significativamente após a sua morte, manteve-se a promoção da língua russa em detrimento da bielorrussa.

Em 1986, o acidente nuclear de Chernobyl, na vizinha república da Ucrânia, a poucos kilómetros da sua fronteira, afetou grande do país, contaminado pela radiação libertada após a fusão de um dos reatores daquela central atómica.

A independência

Na sequência da perestroika de Gorbachev, realizaram-se, em março de 1990, eleições para o Soviete Supremo (designação do Parlamento na era soviética) da república. Ao contrário de outras repúblicas, onde os movimentos nacionalistas eram fortes, aqui, os partidários da independência, em grande parte representados na Frente Popular Bielorrussa (BNF), não foram além dos 10% dos votos. Apesar disso, tal como as restantes repúblicas (incluindo a Rússia), haviam feito, proclamou, em 27 de julho, uma declaração de soberania, embora se mantivesse no quadro da URSS.

Após o golpe falhado da “linha dura” do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) contra Gorbachev, em meados de agosto de 1991, o presidente do Soviete Supremo da Bielorrússia, acusado de ligações aos golpistas, foi substituído por Stanislav Shushkevich. Em 25 desse mês, após outras repúblicas o terem feito, a Bielorrússia declarou a sua independência da Rússia, sob a designação de República da Belarus. A bandeira branca-vermelha-branca da BNR de 1917 foi recuperada, tal como uma variação do escudo do velho ducado da Lituânia, representando um cavaleiro.

Juntamente com os então presidentes da Rússia, Boris Yeltsin, e da Ucrânia, Leonid Kravchuk, Shuskevich, assinou, no dia 8 de dezembro, os acordos de Minsk, que puseram fim à URSS, substituída, a partir de 26 desse mês, pela Comunidade dos Estados Independentes (CEI).

A nova Constituição

Na Bielorrússia, o Soviete Supremo manteve-se em funções e apenas em 1994 foi aprovada a Constituição do novo Estado, que estabeleceu um regime de cariz acentuadamente presidencialista.

O PR é eleito por sufrágio universal, direto e secreto, através do sistema maioritário a duas voltas, para um mandato de cinco anos e dispõe de amplos poderes em diferentes áreas. Após tomar posse, não pode ser filiado em qualquer partido.

Apesar de o governo caber a um primeiro-ministro, nomeado pelo PR e necessitando de apoio parlamentar maioritário, é ao chefe de Estado que cabe definir a estrutura do executivo e a nomeação dos respetivos ministros. Tem, ainda, o poder de convocar referendos, nos termos constitucionais.

Por seu turno, estabeleceu um Parlamento bicameral, a Assembleia Nacional. A câmara baixa, denominada Câmara dos Representantes, é constituída por 110 membros, eleitos em círculos uninominais, num sistema maioritário a duas voltas, para um mandato de quatro anos. Por seu turno, a câmara alta, o Conselho da República, é constituído por 64 membros, eleitos por sufrágio indireto numa base de representação territorial: cada uma das seis províncias (oblasts) elege oito elementos, a cidade de Minsk outros oito e os restantes oito são de nomeação presidencial. O seu mandato é, igualmente, de quatro anos.

A eleição de Lukashenko

Nesse mesmo ano, realizaram-se as primeiras e únicas eleições presidenciais verdadeiramente livres. Alexander Lukashenko, que, no período soviético, fora diretor de um kolkhoz (cooperativa de produção agrícola) e, mais tarde, de um sovkhoz (grande exploração coletiva agrícola estatal), votara contra a independência e se distinguira, no Soviete Supremo, pelas suas denúncias da corrupção nas esferas do poder, foi o vencedor do ato eleitoral. Após ter recebido 45,8% dos votos na 1ª volta, contra 17,7% do impopular primeiro-ministro Vyacheslav Kebich, 13,1% do liberal-conservador Zianon Pazniak, 10,1% de Shushkevich e valores menores de outros candidatos, obteve uma vitória esmagadora no 2º turno, com 80,1% dos sufrágios contra apenas 14,2% de Kebich. Na sua campanha, de cariz acentuadamente populista, afirmou: “não estou nem com a direita nem com a esquerda, mas com o povo, contra os que o andam a roubar”.

O regime autoritário

Uma vez no poder, revelou, desde cedo, o seu autoritarismo e entrou rapidamente em conflito com o Parlamento. Em 1995, propôs um referendo com quatro questões (integração económica com a Rússia; dar ao russo um estatuto de igualdade com o bielorrusso; possibilidade de o presidente dissolver o Parlamento e o regresso à bandeira e ao escudo soviéticos, com exceção da foice e o martelo e outros símbolos representativos do comunismo). A assembleia parlamentar apenas autorizou a primeira questão, considerando as restantes inconstitucionais, mas Lukashenko não se importou e manteve a convocatória para o mesmo dia das legislativas.

Se a Constituição original já possuía um forte pendor presidencialista, as alterações de Lukashenko, que aumentaram os poderes presidenciais e reduziram ao mínimo os do Parlamento, tornaram o PR num ditador de facto.

A consulta, considerada não livre nem justa pelos observadores da Organização de Segurança e Cooperação Europeia (OSCE), foi marcada pela ampla propaganda da comunicação social estatal a favor das propostas presidenciais e pelas restrições à campanha dos opositores. De acordo com os resultados oficiais, mais de 80% aprovaram as três primeiras, enquanto a última se ficou pelos 78,5%. A participação eleitoral foi próxima dos 65%.

No ano seguinte, novo referendo, com as mesmas irregularidades e acusações de fraude por parte da oposição, permitiu a Lukashenko alterar a Constituição e estender o seu mandato por mais dois anos (alegadamente, com 70% de votos favoráveis) e mover a data da independência para o dia da libertação do nazismo. Ao mesmo tempo, rejeitou, massivamente, a possibilidade de venda de terras sem restrições, a eleição direta das autoridades locais e regionais e a abolição da pena de morte, sendo a Bielorrússia o único Estado europeu onde esta continua em vigor.

Se a Constituição original já possuía um forte pendor presidencialista, as alterações de Lukashenko, que aumentaram os poderes presidenciais e reduziram ao mínimo os do Parlamento, tornaram o PR num ditador de facto.

Desde então, todos os atos eleitorais realizados no país foram considerados fraudulentos pela OSCE.

Nas presidenciais de 2001, Lukashenko foi reeleito com 75,6% dos votos naquele que seria o seu segundo e último mandato.

Contudo, em 2004, um referendo fixou os mandatos presidenciais em cinco anos, mas acabou com a limitação dos mandatos. A proposta teve, alegadamente, o apoio de quase 90% dos eleitores. A consulta foi inconstitucional, já que a Constituição dispõe que as matérias referentes à eleição do PR, à duração do seu mandato e à sua demissão não são referendáveis.

A partir daí, foi sucessivamente reeleito, em 2006 (82,6% dos votos), 2010 (79,6%) e 2015 (84,1%). Nas duas primeiras eleições, os números oficiais da participação indicam que esta terá ultrapassado os 90%, enquanto nas últimas andou próxima dos 88%, algo que parece confirmar as suspeitas de fraudes eleitorais massivas.

Nas eleições parlamentares, a esmagadora maioria dos eleitos são candidatos independentes, na maioria provenientes de organizações corporativas (sindicatos, cooperativas agrícolas, associações empresariais, organizações de solidariedade social), favoráveis a Lukashenko, ficando os restantes para os partidos apoiantes do presidente. As forças políticas oposicionistas apenas conseguiram um lugar em 2000 e outro em 2016. Nas legislativas de 2019, boicotadas por grande parte da oposição, esta voltou a ficar sem representação parlamentar.

Na Bielorrússia atual, a divisão principal não é entre direita e esquerda, mas entre apoiantes e opositores do presidente, havendo, em ambos os campos, forças transversais a todo o espectro político.

Entre os primeiros contam-se o novo Partido Comunista da Bielorrússia (KPB), formado em 1996; o Partido Patriótico Bielorrusso (BPP), da esquerda pró-comunista; o Partido Republicano do Trabalho e da Justiça (RPTS), da esquerda pró-união euroasiática; o Partido Agrário (AP), defensor da agricultura coletivizada; o Partido Socialista Desportivo da Bielorrússia (BSSP), de orientação social-democrata; o Partido Social-Democrata do Acordo Popular (SDPNZ); o Partido Republicano (RP), conservador, e o Partido Liberal Democrático, da extrema-direita pró-russa e pan-eslava. Entretanto, a associação política Belaya Rus, que declara ter o apoio de 64 parlamentares, afirma estar pronta para formar um partido sem ideologia definida, cujo único objetivo político será apoiar o presidente. Contudo, Lukashenko não parece muito entusiasmado com a ideia, embora também não a trave.

Para além das fraudes eleitorais generalizadas, durante o seu longo consulado, Lukashenko perseguiu, prendeu, torturou, fez “desaparecer” e forçou ao exílio muitos dos seus principais opositores.

Nos segundos, encontramos, como forças principais, o Partido Bielorrusso da Esquerda Unida “Um Mundo Justo” (BALP), antigo Partido dos Comunistas Bielorrussos, da esquerda radical, formado em 1991, pelos comunistas renovadores; o Partido Social-Democrata Bielorrusso – Assembleia (BSDP – H); o Partido Unido Cívico da Bielorrússia, que engloba várias tendências liberais e pró-UE e a Frente Popular Bielorrussa (BNF), conservadora e democrata-cristã. Juntamente com o movimento cívico Pela Liberdade (ZS), constituem as Forças Democráticas Unidas da Bielorrússia (ADSB) Com menor expressão, encontram-se no campo oposicionista a Resistência e Alternativa Socialista (SND), trotskista; o Partido Verde Bielorrusso (BZP), da esquerda ecossocialista; a Assembleia Social-Democrata Bielorrussa (BSDH), do ex-presidente Shushkevich; o Partido Social-Democrata Bielorrusso (Assembleia Popular) (BSDP – NH), pró-UE; o Partido da Liberdade e do Progresso (PSP), liberal e pró-UE, o Partido Conservador Cristão (KKP), da direita religiosa, e a Aliança Direita (DA), da direita nacionalista.

Para além das fraudes eleitorais generalizadas, durante o seu longo consulado, Lukashenko perseguiu, prendeu, torturou, fez “desaparecer” e forçou ao exílio muitos dos seus principais opositores, reprimiu greves e manifestações, acabou com a independência do poder judicial e controlou toda a comunicação social e as principais organizações da sociedade civil.

O presidente bielorrusso é, ainda, conhecido pelas suas tiradas grotescas. Assim, estendeu os seus habituais elogios à repressão estalinista a Hitler (“levantou a Alemanha do caos e não foi assim tão mau”) e proferiu declarações antissemitas (“a cidade de Babryusk está num estado miserável porque é habitada, maioritariamente, por judeus”) e homofóbicas (“antes ser ditador que gay”, disse, em resposta ao epíteto de “último ditador da Europa”, lançado por Guido Westerwelle, antigo ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, homossexual assumido). Este ano, considerou que a pandemia da CoViD-19 era um mito, afirmando que “o vírus desaparece se o corpo se fortalecer com vodka, sauna e trabalho árduo com os tratores”.

O modelo económico e social de Lukashenko

Qual a razão por que, apesar dessas constantes violações dos Direitos Humanos e da Constituição e do seu estilo desbragado, granjeou um significativo apoio em largas camadas da população?

A razão está nas suas políticas económicas e sociais. Ao contrário de outras repúblicas ex-soviéticas, que adotaram reformas no sentido da liberalização da economia, a Bielorrússia manteve as principais empresas industriais e agrícolas sob controlo estatal. Ao invés, as indústrias de menor dimensão foram totalmente entregues ao setor privado, de onde emergiram importantes empresas ligadas às novas tecnologias, algo sem paralelo no espaço da ex-URSS. Nos campos, poucas terras foram privatizadas, embora, nos últimos tempos, o número de propriedades privadas tenha aumentado significativamente. Mas o grande trunfo de Lukashenko foi a conservação do Estado Social, com a manutenção da saúde e da educação gratuitas e um sistema de pensões relativamente generoso para os padrões da região. Ao mesmo tempo, manteve o desemprego em valores baixos. Daí o apoio que recebeu da parte da maioria do operariado, das populações rurais e dos idosos, que lhe chamam, carinhosamente, batka (pai).

Contudo, no início desta década, esse modelo de capitalismo de Estado começou a entrar em crise e o país pediu a intervenção do FMI. Entre os seus “calcanhares de Aquiles” estão a fraca competitividade de algumas indústrias mais tradicionais e a ineficiência do setor agrícola, que, apesar de empregar 10% da força de trabalho, apenas contribuiu para 7,5% do PIB nacional. Em 2016, a elevada inflação levou à desvalorização da moeda, redenominada novo rublo bielorrusso, correspondente a 10000 velhos rublos.

A ambiguidade das relações com a Rússia

As relações de Lukashenko com a Rússia foram sempre marcadas por alguma ambiguidade.

No início, mostrou, desde logo, o desejo de estreitar relações com o seu poderoso vizinho, de quem depende economicamente. Assim, ainda durante a presidência de Yeltsin, foram assinados, entre 1996 e 1999, vários acordos que levaram à criação do Estado Unido da Rússia e da Bielorrússia. Esta estipulou a livre circulação dos cidadãos dos dois países, a criação de uma união aduaneira e, posteriormente, uma moeda comum, com o objetivo de uma união política federal entre os dois Estados.

De acordo com alguns analistas, o objetivo de Lukashenko seria assumir a presidência do novo Estado russo-bielorrusso após o termo do mandato de Yeltsin. Porém, a chegada ao poder de Vladimir Putin travou-lhe os planos e, a partir de 2001, o seu entusiasmo pela união foi diminuindo. É certo que existem as instituições comuns previstas no tratado da sua criação, mas os respetivos poderes são quase nulos. Por seu turno, a prevista união monetária tem sido sucessivamente adiada e a própria união aduaneira foi suspensa em 2001, tendo sido apenas restaurada em 2010. No ano anterior, fora assinado um acordo militar de defesa mútua entre os dois países.

Contudo, o aspeto mais importante das relações económicas entre os dois países é o fornecimento, pela Rússia, de petróleo e gás a baixos preços à Bielorrússia, que, posteriormente, o revende com elevado lucro. Esse estatuto de nação mais favorecida pelos russos é fundamental para o regime de Lukashenko, já que é ele que permite o financiamento das suas políticas sociais. Porém, os russos já fizeram saber que esse privilégio irá acabar, o que será um grande golpe para a economia bielorrussa.

Após ser alvo de críticas em alguns meios de comunicação oficial russos, Lukashenko, em 2014, afirma a identidade bielorrussa e, pela primeira vez, profere o discurso em bielorrusso e não em russo, como sempre fizera.

Nesse mesmo ano, rebentou a crise ucraniana, que culminou na anexação da Crimeia pela Rússia e na ocupação de grande parte das regiões de Luhansk e Donetsk, no sueste da Ucrânia, por forças separatistas pró-russas, Lukashenko assumiu um papel de mediador, tendo patrocinado os acordos de Minsk, que permitiram um cessar-fogo e o “congelar” do conflito.

Durante a campanha para as presidenciais de 2020, o presidente bielorrusso acusou a Rússia de estar por trás da campanha dos seus opositores para o derrubar e prende mais de 30 cooperantes russos, alvo que suscitou a cólera de Putin.

Contudo, face ao apoio da UE aos protestos populares e às pressões desta sobre Lukashenko, o presidente russo afirmou que enviaria tropas para a Bielorrússia para defender o seu governo.

Os dilemas da Rússia e da UE que favorecem Lukashenko

Na verdade, o presidente bielorrusso é um aliado incómodo para Putin e um empecilho para as suas intenções de acelerar a união entre os dois Estados. Contudo, no momento atual, Moscovo não possui uma alternativa credível ao atual chefe de Estado e a última coisa que quer é ter um governo pró-ocidental em Minsk, que se juntaria ao que já existe em Kiev, e deixaria o Ocidente às portas da capital russa. Isto apesar de, ao contrário do que sucedeu na Ucrânia, onde o nacionalismo sempre foi forte, o movimento oposicionista bielorrusso não ser, salvo em algumas pequenas franjas, antirusso.

Por seu turno, apesar do apoio claro de países como a Polónia, a Lituânia e a Letónia à oposição bielorrussa, a UE sabe que não tem capacidade de intervenção no país e prefere a permanência de Lukashenko à concretização da união com a Rússia, que seria, na prática, uma anexação da Bielorrússia pelo seu vizinho.

Daí que, para já, o chefe de Estado bielorrusso vá sobrevivendo, utilizando os mecanismos repressivos ao seu dispor, apesar de a sua base de apoio (em especial, entre o operariado) ter diminuído a olhos vistos, em especial devido ao aumento das dificuldades económicas do país e à sua resposta desastrada à pandemia, que levou a um aumento do número de casos de CoViD no país.

Mas convém aguardar pelas cenas dos próximos capítulos.


Nota: Grande parte das informações aqui contidas têm como fonte a Wikipédia em língua inglesa.

Sobre o/a autor(a)

Professor. Mestre em Geografia Humana e pós-graduado em Ciência Política. Membro da coordenadora concelhia de Coimbra do Bloco de Esquerda
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