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Covid-19 e a vaga de doença mental

Se se ficar apenas pelas renovadas juras de prioridade sem nunca se concretizar nada, o futuro próximo será muito difícil. Teremos uma vaga de doença mental sem recursos para a enfrentar. Por Moisés Ferreira.
Foto de Pxfuel.

A Covid-19 tem e terá enormes impactos na saúde. Para além das vagas relacionadas com a incidência da doença e com o número de infetados pelo SARS-CoV-2, há que contar ainda com os impactos resultantes da suspensão de atividade programada e com o enorme impacto que esta doença (e suas consequências) tem e terá na saúde mental. Esta será uma vaga com alta incidência, que persistirá no tempo e para a qual é preciso ter respostas no imediato.

De facto, são várias as crises provocadas pela Covid – crise de saúde, crise económica e crise social – e elas todas têm reflexo no sujeito psicológico.

A constatação da vulnerabilidade do nosso edifício biológico perante o agente microscópico, da probabilidade da doença ou da certeza da finitude, nossa ou de pessoas significativa, a confrontação diária com os números da doença e com a sua expressão em vítimas mortais. Tudo isto tem impacto na saúde mental.

A incerteza sobre o presente e o futuro, sobre quando acabará a pandemia, mas não só, sobre o emprego, o rendimento, a capacidade de sobrevivência num mundo que estagnou e numa economia que entrou em recessão; lança-se a incerteza sobre a capacidade de manter a habitação ou cumprir com as despesas fixas, sobre a possibilidade de manter um mínimo de qualidade de vida… Incerteza absoluta que só pode ter impacto na saúde mental.

As alterações dramáticas nos nossos ritos sociais, no nosso ser social – são os contatos que deixaram de se realizar, os mais velhos que foram isolados e a quem se lhes retirou parte da vida, os confinamentos que rompem com os laços sociais, a impressão que no outro reside um perigo porque o vírus se transmite por contato entre humanos – têm de ter impactos psicológicos, principalmente num animal tão social como nós.

Tudo isto está já a ter as suas consequências em nove meses de pandemia:

Investigadores da Universidade de Oxford concluíram recentemente, depois de analisar cerca de 6200 casos de Covid-positivos, que 20% destes doentes sofreram, até três meses depois do diagnóstico, episódios de depressão, ansiedade e insónias.

A Escola Nacional de Saúde Pública, que tem acompanhado as perceções da população em relação à pandemia no seu barómetro sobre a Covid, mostra-nos que desde o final de outubro mais de 20% dos inquiridos referem ter-se sentido “agitado, ansioso, em baixo ou triste devido às medidas de distanciamento físico” todos os dias ou quase todos os dias. Esta percentagem eleva-se acima dos 80% quando incluímos os inquiridos que referem ter-se sentido assim em alguns dias. É uma percentagem enormíssima e que, sem grandes dúvidas, pode resultar em maior incidência de perturbações, por exemplo, de ansiedade e de humor.

Estudada está também a relação entre a crise económica, o desemprego, a perda de rendimentos e saúde mental. Conforme descrito no relatório Crise Económica, Pobreza e Desigualdades – Relatório sobre Impacto Socioeconómico e Saúde Mental publicado pela Ordem dos Psicólogos no ano de 2020, “o desemprego tem um impacto negativo inequívoco no bem-estar subjetivo. Por exemplo, o aumento de 1% na taxa de crescimento do desemprego de longo prazo, eleva 7% a sensação de agravamento da vida”. Mais: “um em cada três desempregados a receber subsídio sofre de um problema de Saúde Psicológica/ Mental. Há ainda uma forte associação positiva entre o desemprego e o aumento da mortalidade, pior Saúde Física, mais queixas somáticas, maior prevalência de doenças incapacitantes, maior afluência a consultas de saúde e consumo de medicamentos, assim como mais internamentos hospitalares. Existem ainda evidências robustas que demonstram a relação entre o desemprego de longa duração e níveis de doença mental e suicídio mais elevados. Alguns autores constataram que o aumento da taxa de desemprego implica um aumento na taxa de suicídios e homicídios”.

Isto foi, aliás, constatado e descrito na última crise económica, há poucos anos. A verdade é que a crise que temos hoje em mãos ameaça ser maior e, por isso mesmo, ter também mais impactos.

Problema agravado: o débil ponto de partida no que toca a serviços de saúde mental em Portugal

Portugal é um dos países da União Europeia com maior prevalência de perturbações psiquiátricas. Os dados sobre a prevalência de perturbações psiquiátricas, de acordo o Estudo Epidemiológico Nacional de Saúde Mental, mostram que mais de um quinto das pessoas entrevistadas (22.9 % da amostra) apresentou uma perturbação psiquiátrica nos 12 meses anteriores ao estudo.

Estes dados colocam Portugal com uma das mais elevadas prevalências de doenças psiquiátricas na Europa, apresentando dos valores mais altos nas perturbações da ansiedade, com 16,5%, e nas perturbações depressivas com 7,9%.

Esta alta prevalência combinada com uma baixa resposta pública na área da saúde mental resulta numa elevada carga de doença e num elevado consumo de psicofármacos. Como lembrou o Observatório Português dos Sistemas de Saúde no Relatório de Primavera de 2019, Portugal era, em 2017, o país da OCDE com mais vendas de ansiolíticos em ambulatório (correspondente a 2% de todos os fármacos vendidos em território nacional), o terceiro país com mais venda de antidepressores (com um volume de vendas em ambulatório de 3,8%) e o sétimo país da OCDE com maior consumo de hipnóticos e sedativos. Esta realidade, ainda segundo o mesmo Relatório, é particularmente impressiva junto dos indivíduos mais velhos, com 139 idosos em cada 1000 a tomar benzodiazepinas.

Estes dados sobre a realidade portuguesa revelam, por um lado, uma alta incidência de doença mental (já existente no período pré-pandemia), por outro lado, uma resposta de primeira linha muito débil, com poucos psicólogos nos centros de saúde, parco acesso a cuidados de saúde mental por parte da população e uma resposta do SNS reservada para situações urgentes e casos mais pesados, o que faz com que o recurso seja a medicamentação.

Este ponto de partida é frágil e mais frágil se tornará perante as consequências da pandemia na saúde mental.

Dever-se-ia estar a reforçar de forma significativa as respostas do SNS na área da saúde mental, mas tal não está a acontecer. A concretização do Plano Nacional de Saúde Mental prevista no Orçamento do Estado para 2020 ficou por fazer, apesar de representar apenas 0,2% do orçamento do SNS. O pouco que foi feito (a criação de 5 equipas comunitárias de saúde mental) é, na verdade, metade de uma medida que estava prevista no Orçamento para 2019.

Também aqui é precisa uma dupla estratégia: achatar a curva intervindo nos determinantes sociais e económicos (prevenindo a pobreza, protegendo o emprego, cultivando a inserção social, etc.) e ter uma resposta pronta e preparada para os que adoecendo precisam de cuidados de saúde. São precisos profissionais de saúde mental em todos os centros de saúde, implementando programas de prevenção e tratamento de ansiedade e depressão; é preciso generalizar as equipas comunitárias de saúde mental; é preciso ter programas e reabilitação psicossocial e, de uma vez por todas, aplicar dinheiro na melhoria da saúde mental.

Se se ficar apenas pelas renovadas juras de prioridade sem nunca se concretizar nada, o futuro próximo será muito difícil. Teremos uma vaga de doença mental sem recursos para a enfrentar.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente e deputado do Bloco de Esquerda, membro da Comissão de Saúde da Assembleia da República. Psicólogo
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Neste dossier:

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