Vida precária, saúde mental na velhice... precária

Não devemos esperar para reforçar as prestações de cuidado ao longo da vida, e muito menos menosprezá-las durante a velhice. Por Gustavo Sugahara.

29 de novembro 2020 - 20:37
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Os problemas relacionados com a saúde mental não devem ser aceites como parte natural da velhice. Mas é importante termos em conta que o envelhecimento da população traz novos desafios, que serão agravados pelo atual contexto de crescente precarização.

A saúde mental na velhice é tão importante quanto em qualquer outro momento da vida. No entanto, diversas mudanças de cariz biológico e social, muitas vezes a ocorrer em simultâneo, implicam cuidados acrescidos, específicos, e individualizados. Vale lembrar que em todos os momentos da vida, a saúde mental influencia e é influenciada pela saúde física.

Se por um lado há de facto uma tendência de declínio da capacidade funcional individual na velhice, também é preciso reconhecer que muitas vezes esta pode e deve ser remediada. As políticas públicas devem ter em conta intervenções simples, como por exemplo, garantir que as pessoas tenham acesso a um novo par de óculos, e mais complexas, estruturais, como a adaptação das jornadas de trabalho, a garantia de acesso à formação durante toda a vida, e a promoção de atitudes inclusivas e anti discriminatórias em toda a sociedade.

Um dos preconceitos ainda fortemente enraizados em relação ao envelhecimento foca exatamente a questão da saúde mental. Para além da ideia de que são problemas “normais” da velhice, o questionamento da saúde mental é frequentemente utilizado como ferramenta para descredibilizar, alienar, e reduzir as pessoas mais velhas. Em alguns casos, é mais fácil descredibilizar uma pessoa em função da sua idade, do que rebater as ideias que ela defende.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS)1 mais de 20 por cento da população mundial com 60 e mais anos padece de algum tipo de doença mental ou neurológica, dentre as quais as mais comuns são a demência e a depressão, que afligem respetivamente 5 e 7 por cento deste mesmo grupo populacional. É importante lembrar que há um elevado número de casos não identificados, justamente devido ao estigma associado a estas doenças.

Para além dos novos desafios advindos da mudança no perfil demográfico, devemos também atentar pela preservação de importantes e recentes conquistas sociais durante toda a vida, como as alcançadas pelo movimento LGBTI+. Somados aos preconceitos existentes em relação aos mais velhos, e diante da virtual inexistência serviços que explicitamente reconhecem e acolhem pessoas mais velhas “não heterosexuais”, corremos o risco de ver muitos a voltar para o armário na velhice.

Precisamos ainda saber mais sobre as repercussões da saúde mental em diferentes fases da vida. Um tema ainda pouco explorado na literatura científica é o efeito cumulativo que as adversidades enfrentadas ao longo da vida têm na saúde mental durante a velhice. Para se ter um exemplo, e segundo um estudo2 recente realizado na Inglaterra, pessoas que tiverem experiências adversas sequências ao longo da vida, adversidade durante a infância, ou perdas ligas a relacionamentos afetivos, têm maior probabilidade de apresentar sintomas de depressão na velhice.

Vidas precárias resultam em uma saúde mental precária, e isto tende a agravar-se na velhice. Não devemos esperar para reforçar as prestações de cuidado ao longo da vida, e muito menos menosprezá-las durante a velhice.

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