Como uma insurreição de extrema-direita apoiada pelos EUA nos trouxe à beira da guerra

Em 2014, as disputas dos poderosos, a ira justa contra um status quo corrupto e oportunistas de extrema-direita derrubaram o governo ucraniano. A crise de hoje não pode ser compreendida sem entender as revoltas de Maidan – e o apoio de Washington. Por Branko Marcetic.

18 de fevereiro 2022 - 17:56
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Manifestantes na praça Maidan a atirar cocktails molotov. Foto de Mstyslav Chernov/Wikimedia Commons.

É janeiro. Uma multidão desafiante de manifestantes, uma confusão de corpos onde extremistas de direita estão ombro a ombro com pessoas comuns, pede a cabeça do presidente eleito. Cantam slogans anti-governo, ocupam prédios governamentais e carregam armas – alguns deles com armas improvisadas a tiracolo, outros com caçadeiras e Kalashnikovs. No fim de contas, as manifestações levaram à morte e à hospitalização tanto de manifestantes quanto de polícias.

Não é o tumulto do Capitólio em Washington que horrorizou os norte-americanos e observadores estrangeiros em 2021. Esta foi a “Revolução de Maidan” (ou Euromaidan), que, há cerca de oito anos, conseguiu derrubar o governo eleito do país, fazendo com que o então o presidente Viktor Yanukovych fugisse para a vizinha Rússia para salvar a sua vida.

Após quase uma década, a “Revolução da Dignidade de 2014”, como é conhecida na Ucrânia, continua a ser um dos episódios mais incompreendidos ​​da história recente. Contudo, entendê-la é fundamental para compreender o impasse em curso na Ucrânia que pode ser rastreado em grande parte até esse evento polarizador – dependendo a quem perguntar, uma revolução liberal inspiradora ou um golpe de estado de extrema-direita.

O trabalho de preparação para a rebelião das grandes potências

Tal como no atual crescimento das tensões entre a Rússia e a Nato, no coração dos protestos da Maidan estava a pressão de alguns governos ocidentais, sobretudo os Estados Unidos, para isolar a Rússia, dando apoio à integração das partes periféricas da antiga União Soviética nas instituições europeias e atlânticas – e a reação de Moscovo contra aquilo que viu como uma invasão da sua esfera de influência.

Em 2014, o homem forçado a navegar nestas tensões, Viktor Yanukovych, sofreu o seu segundo derrube da presidência ucraniana. Ele tinha sido deposto na Revolução Laranja de 2004, que se seguiu a acusações generalizadas de fraude na eleição que o levou ao poder. Antes de concorrer novamente seis anos depois, Yanukovych tinha trabalhado para reconstruir a sua reputação, tornando-se o político mais confiável do país.

Até 2010, os observadores internacionais declararam a sua mais recente eleição como livre e justa, uma “demonstração impressionante” de democracia. Porém, uma vez no poder, o governo Yanukovych ficou de novo marcado pela corrupção generalizada, autoritarismo e, para alguns, uma amizade desconfortável com Moscovo, que não escondia o seu apoio nessa eleição e na anterior. O facto de a Ucrânia estar dividida entre uma parte ocidental e central mais amigável à Europa e uma parte oriental mais pró-Rússia – as mesmas linhas que, em grande medida, determinaram a eleição – só complicou tudo ainda mais.

Yanukovych encontrava-se numa posição difícil. A Ucrânia dependia do gás barato da Rússia, mas uma pluralidade do país – não, crucialmente, uma maioria absoluta – almejava ainda a integração europeia. A sua carreira política estava enredada nessa mesma contradição: uma vez que o seu partido era formalmente aliado do próprio partido de Vladimir Putin, a Rússia Unida, a sua base pró-russa queria relações mais próximas com o seu vizinho; mas os oligarcas, que eram a verdadeira razão pela qual ele tinha conseguido chegar sequer próximo da presidência, estavam financeiramente ligados ao Ocidente e temiam a concorrência ao seu controlo do país vinda do outro lado da fronteira. Enquanto isso, as duas potências geopolíticas – Washington e Moscovo – esperavam usar estas clivagens para atrair o país para as suas respetivas órbitas de influência.

Assim, durante quatro anos, Yanukovych caminhou na corda bamba. Agradou à sua base com medidas simbólicas e culturais, como falar de unidade ou cooperação com Moscovo em indústrias-chave – ainda que muito disso não tenha saído do papel – junto com passos mais sérios, como fazer do russo uma língua oficial, rejeitar a adesão à Nato e reverter a iniciativa do seu predecessor de glorificar colaboradores nazis como heróis nacionais nos currículos escolares.

Todavia, a sua maior concessão a Moscovo aconteceu no início do seu mandato, quando chegou a acordo para permitir que a frota russa no Mar Negro usasse a Crimeia como base até 2042, em troca de gás russo barato. A aprovação apressada deste foi marcada por socos e bombas de fumo no Parlamento ucraniano.

Apesar das acusações, na época e desde então, de que ele era um fantoche do Kremlin havia, todavia, um limite rígido para a viragem de Yanukovych para leste. A sua posição de não assumir o compromisso de se juntar a uma união alfandegária das ex-repúblicas soviéticas liderada pelos russos, mesmo quando Putin o tentava aliciar com preços do gás ainda mais baratos, frustrou Moscovo. Prova disso foi a sua rejeição direta da proposta de Putin de fundir as empresas estatais de gás de ambos os países que efetivamente entregaria a Moscovo o controle dos gasodutos ucranianos que canalizavam quase todas as suas exportações de gás para a Europa. Como retaliação, Moscovo recusou-se renegociar o odiado contrato de gás unilateral de 2009 que tinha sido assinado pelo governo ucraniano anterior.

Enquanto isso, Yanukovych compactuava e incentivava publicamente o envolvimento ocidental na modernização da infraestrutura de gás natural da Ucrânia e insistia uma e outra vez que “a integração europeia é a prioridade-chave da nossa política externa”. Continuou a trabalhar na adesão à União Europeia e, para esse objetivo, procurou obter um acordo de livre comércio com a UE, bem como o empréstimo do Fundo Monetário Internacional (FMI) que o Ocidente o pressionava a fazer.

Este colete salva-vidas financeiro vinha acompanhado com um preço pesado familiar para os muitos países pobres que se dirigem ao Ocidente em busca de empréstimos: eliminação de tarifas, congelamento de salários e reformas, cortes de investimentos e o fim dos subsídios ao gás para as famílias ucranianas. O potencial sombrio desta austeridade imposta pelo Ocidente, que saltava à vista de todos à época na Grécia, presumivelmente valia a pena para Yanukovych se ele mantivesse o nariz de Moscovo longe dos seus negócios.

Foi por isto tudo que a liberal Brookings Institution descreveu a política externa de Yanukovych como “mais matizada” do que as suas inclinações pró-russas sugeriram a priori. Seria também o que iria selar o seu destino.

Para impedir esta aproximação ao Ocidente, Putin fez sozinho o número do polícia bom, polícia mau, oferecendo a Yanukovych um empréstimo sem contrapartidas no mesmo valor que o do FMI, enquanto o apertava com o equivalente a um mini-bloqueio comercial. Com a UE a não conseguir oferecer nada que compensasse a catastrófica perda do comércio com a Rússia que a Ucrânia temia, Yanukovych fez a escolha bem calculada de aceitar a oferta de Moscovo. Em novembro, renegou abruptamente ao acordo com a UE, provocando os protestos que o derrubariam do poder.

O eixo da conveniência

Apesar de a rejeição do acordo ter sido o detonador – com manifestantes a gritar “traição” e a cantar “a Ucrânia é Europa” –, os protestos eram sobre muito mais do que isso. Como um habitante de Kiev contou à imprensa, “mesmo se o acordo for assinado agora, não vou deixar o protesto”.

Os manifestantes estavam fartos do nepotismo e da corrupção impregnados na sociedade ucraniana – um dos filhos de Yanukovych é um dentista que, de alguma forma, se tornou um dos homens mais ricos do país, o outro era deputado – e também da natureza cada vez mais autoritária do governo Yanukovych. O outro ponto principal era a exigência da Europa de que o líder rival de Yanukovych fosse libertado da prisão onde estava devido a falsas acusações, algo a que ele resistiu.

A resposta de Yanukovych ao movimento foi condená-lo, primeiro, a uma brutal repressão em novembro que levou a polícia anti-motim a dispersar violentamente os manifestantes na Maidan (ou Praça da Independência, em ucraniano) em Kiev, depois aprovou uma série de leis opressivas anti-protesto em janeiro. Ambas as movimentações apenas atraíram mais gente para participar nas mobilizações, com a violência do Estado contra os manifestantes e a libertação destes da prisão a tornar-se, respetivamente, a principal motivação e exigência dos participantes a partir do mês de dezembro.

Mas, por muito justa que esta causa tenha sido, os críticos do movimento também tinham razão. Por um lado, os protestos da Maidan não tiveram apoio maioritário, com a população ucraniana dividida através das mesmas linhas regionais e socioculturais que tinham vindo a definir há muito tantas das dificuldades políticas do país. Enquanto as regiões ocidentais – de onde veio a maioria dos manifestantes e historicamente governada por outros países, algumas até 1939 – apoiaram os protestos, o leste russófono, que foi governado pela Rússia desde o século XVII, afastou-se dos protestos devido ao seu nacionalismo anti-russo explícito, em particular a um ano de poder afastar Yanukovych através do voto.

E os manifestantes estavam a recorrer à força. Pense-se o que se pensar sobre os protestos da Maidan, a crescente violência dos envolvidos foi a chave para a sua vitória final. Em resposta a um ataque brutal da polícia, os manifestantes começaram a lutar com correntes, paus, pedras, bombas de gasolina, até mesmo um buldozzer – e, eventualmente, armas de fogo, com tudo isto a culminar naquilo que foi efetivamente uma batalha armada em fevereiro, que matou 13 polícias e quase 50 manifestantes. A polícia “já não se podia mais defender dos ataques dos manifestantes”, escreve o cientista político Sergiy Kudelia, o que fez com que batessem em retirada, antecipando a saída de Yanukovych.

O motor desta violência foi, em larga medida, a extrema-direita ucraniana, que, mesmo sendo uma minoria dos manifestantes, serviu como uma espécie de vanguarda revolucionária. Olhando de fora de Kiev, uma análise sistemática de mais de três mil manifestantes da Maidan descobriu que membros do partido de extrema direita Svoboda – cujo líder se tinha queixado no passado que a Ucrânia era administrada por uma “máfia moscovita-judaica” e que inclui um político que admira Joseph Goebbels – eram os agentes mais ativos nos protestos. Eram também mais propensos a participar em ações violentas do que qualquer outro grupo, exceto um: o Setor da Direita [Pravyy sektor], um grupo de ativistas de extrema-direita cuja linhagem remonta a colaboradores nazis genocidas.

O Svoboda utilizou recursos consideráveis, que incluíam milhares de ativistas ideologicamente comprometidos, os cofres partidários e o poder e a proeminência que lhe eram oferecidos como partido parlamentar, para mobilizar e manter vivos os protestos, acabando por levar à ocupação dos principais edifícios do governo em Kiev e nas regiões ocidentais. Este foi particularmente o caso na cidade ocidental de Lviv, onde os manifestantes tomaram um prédio regional da administração que acabou por se tornar parcialmente controlado e protegido por paramilitares de extrema-direita. Lá, proclamaram um “conselho popular” que “instituiu conselhos locais dominados pelo Svoboda e pelos seus comités executivos, os únicos corpos legítimos da região”, escreve Volodymyr Ishchenko, alimentando a crise da legitimidade que terminou com a deposição de Yanukovych.

Só que isto não ficou, de modo algum, limitado à parte ocidental da Ucrânia. O Setor da Direita promoveu, em janeiro, 19 ataques à polícia em Kiev criticados até mesmo por líderes da oposição, com um manifestante a dizer que o bloco de extrema-direita “insuflou vida nova a estes protestos”. Andriy Parubiy, o “comandante não oficial de Maidan”, que fundara o Partido Social-Nacional da Ucrânia – uma alusão não escondida ao nazismo – que mais tarde se tornou Svoboda. Em janeiro de 2014, até mesmo a NBC admitia que “milícias violentas de direita são agora uma das fações mais fortes que lideram os protestos da Ucrânia”. O que era suposto ser uma revolução pela democracia e pelos valores liberais acabou por ter presentes cantos ultranacionalistas dos anos 1930 e proeminentes exibições de símbolos fascistas e supremacistas brancos, incluindo a bandeira confederada americana.

6 de janeiro em fevereiro

A extrema-direita, é claro, não se importava com a democracia, nem tinha qualquer amor pela UE. Pelo contrário, a revolta popular serviu como uma oportunidade. O líder do Setor da Direita, Dmytro Yarosh, instou os seus compatriotas em 2009 a “começarem uma luta armada contra o regime da ocupação interna e o Império de Moscovo” caso as forças pró-russas assumissem o controle. Já em março de 2013, a TryZub, uma das organizações que formaram o Setor da Direita, pediu à oposição ucraniana que passasse “de uma manifestação pacífica a um plano revolucionário de rua”.

Eles também podem ter desempenhado um papel ainda mais sinistro nos eventos que vieram a ocorrer. Um mistérios persistentes que envolve a Revolução Maidan é quem esteve por trás dos assassinatos cometidos por snipers a 20 de fevereiro que desencadearam o último e mais sangrento dos protestos, havendo acusações contra todas as partes, desde as forças do governo, ao Kremlin, a mercenários apoiados pelos EUA. Sem excluir tais possibilidades, há agora provas consideráveis ​​de que as mesmas forças de extrema-direita que empurravam os manifestantes para a frente estavam pelo menos entre os atiradores naquela noite.

À época, testemunhas viram homens que pareciam manifestantes a disparar a partir de prédios ocupados pelos manifestantes na capital, e múltiplos médicos na Praça Maidan disseram que as feridas de balas nos polícias e nos manifestantes pareciam ser provenientes da mesma arma. Um manifestante de Maidan admitiu depois ter matado dois policiais e ferido outros naquele dia, e caixas vazias de balas de Kalashnikov foram encontradas no Hotel Ukraina, que estava ocupado. No mesmo lugar uma piloto militar condecorada e herói de resistência anti-russa disse depois que ela tinha visto um deputado da oposição comandando os snipers. No entanto, a investigação do governo, que se concentrou somente nos assassinatos de manifestantes, começou cheia de falhas graves e irregularidades.

Ivan Katchanovski, da Universidade de Ottawa, analisou provas divulgadas no decorrer da investigação e do julgamento dos assassinos. Segundo Katchanovski, a maioria dos manifestantes feridos testemunhou que viram snipers nos edifícios controlados pela oposição ou foram alvo de balas provenientes dessa direção. Estes testemunhos foram apoiados por exames forenses. A conclusão a respeito do assunto é improvável, já que o governo interino pós-Yanukovych, no qual as principais figuras de extrema-direita assumiram cargos importantes, passou rapidamente uma lei que garantiu imunidade aos participantes da Maidan por qualquer violência cometida.

Por um breve período, parecia que a espiral da crise poderia ser realmente resolvida de forma pacífica, quando Yanukovych e os partidos de oposição assinaram um acordo intermediado pela Europa em 21 de fevereiro, concordando em reduzir os poderes do presidente e realizar novas eleições em dezembro. Só que o acordo foi recebido com indignação por um movimento de rua cada vez mais militante.

Milhares ficaram em Maidan exigindo a saída de Yanukovych, vaiando os agora apologéticos líderes da oposição por terem assinado o acordo. Os manifestantes desacreditaram o acordo como insuficiente, alguns reuniram-se próximo do Parlamento e exigiram a renúncia e a punição de Yanukovych. Aplaudiram um ultranacionalista que ameaçou um golpe armado se Yanukovych não tivesse saído até à manhã seguinte. (Esse orador foi posteriormente eleito deputado, juntando-se a um partido de extrema-direita e criando o hábito de agredir fisicamente os seus oponentes).

“Se eu fosse [o presidente Yanukovych], eu tentaria fugir do país”, disse um manifestante em Lviv, onde centenas se reuniram na sequência da assinatura. “Caso contrário, ele vai acabar como [Muammar] Gaddafi ou com uma sentença de morte ou na cadeira elétrica. Ele não vai deixar o país vivo.”

O pânico tomou a capital. Espalharam-se rumores que as centenas de armas de fogo apreendidas dias antes pelos manifestantes que invadiram postos de polícia em Lviv estavam a caminho de Kiev para uma fase final e sangrenta da insurreição. Quando o próprio partido de Yanukovych votou a ordem de mandar tropas e polícias de volta para os quartéis, tanto as forças de segurança como, posteriormente, ele próprio fugiram da cidade, esperando um banho de sangue.

No dia seguinte à assinatura do acordo, o Parlamento ratificou aquilo que foi efetivamente uma insurreição, votando tirar a presidência a Yanukovych, recebendo o louvor do embaixador norte-americano. Os manifestantes ficaram do lado de fora do Parlamento e atacaram um deputado do partido de Yanukovych, antes de invadirem o palácio presidencial. Um proeminente rabino pediu aos judeus que deixassem a cidade e até mesmo o país, enquanto a embaixada israelita os aconselhava a ficarem dentro de suas casas.

Há mais uma peça crítica para o quebra-cabeça da Euromaidan: o papel dos governos ocidentais.

A Ucrânia, segundo o Kremlin

30 de janeiro 2022

Durante décadas, Washington e os governos aliados seguiram os seus interesses estratégicos e económicos sob o manto da promoção da democracia e dos valores liberais no exterior. Às vezes, isto significa mandar dinheiro para reacionários violentos como os Contras da Nicarágua e, às vezes, significa apoiar movimentos pró-democracia, como os da Ucrânia.

“Os atores externos sempre desempenharam um papel importante na formação e apoio da sociedade civil na Ucrânia”, escreveu a académica ucraniana Iryna Solonenko em 2015, apontando para a União Europeia e os Estados Unidos – e agências como a National Endowment for Democracy (NED) e a Agência para o Desenvolvimento Internacional (USAID), cuja sede de Kiev estava no mesmo complexo que a embaixada norte-americana. “Pode-se argumentar que, sem esse apoio externo, que tem sido a principal fonte de financiamento da sociedade civil ucraniana desde a independência, ela não se teria tornado o que é agora.”

Foi este o caso na Revolução Laranja de 2004-2005, na qual as ONGs estrangeiras pouco mudaram em matéria de corrupção e autoritarismo na Ucrânia, mas alcançaram o objetivo crucial de empurrar a política externa da Ucrânia para o Ocidente. Como escreveu o liberal Center for American Progress nesse ano:

“Os americanos intrometeram-se nos assuntos internos da Ucrânia? Sim. Os agentes influenciadores americanos prefeririam uma linguagem diferente para descrever as suas atividades – assistência democrática, promoção da democracia, apoio à sociedade civil etc. –, mas o seu trabalho, apesar de maquilhado, procura influenciar a mudança política na Ucrânia.”

As autoridades norte-americanas, descontentes com o apressado acordo com a UE, viram uma oportunidade semelhante nos protestos da Maidan. Apenas dois meses antes deste ter sido rompido, o então presidente do NED, assinalando a aproximação europeia de Yanukovych, escreveu que “as oportunidades são consideráveis, e há maneiras importantes através das quais Washington poderia ajudar”. Na prática, isso significava financiar grupos como o New Citizen, que, segundo o Financial Times, “desempenharam um papel importante no desencadear do protesto”, dirigido por uma figura da oposição pró-UE. O jornalista Mark Ames descobriu que essa organização recebeu centenas de milhares de dólares para “promover a democracia”.

Embora possa ter ainda de passar muito tempo até que possamos compreender a sua verdadeira dimensão, Washington assumiu um papel ainda mais direto quando o protesto começou. Os senadores John McCain e Chris Murphy reuniram-se com o líder fascista do Svoboda, ficando ao seu lado enquanto anunciavam apoio aos manifestantes, ao mesmo tempo que a secretária de Estado adjunta dos EUA, Victoria Nuland, lhes distribuia sanduíches. Para entender a natureza da provocação destas movimentações, basta recordar a indignação do establishment quanto à mera ideia de que Moscovo tinha usado as suas fábricas de trolls para expressar apoio aos protestos do Black Lives Matter.

Mais tarde, foi revelado um telefonema que mostrou Nuland e o embaixador norte-americano na Ucrânia a manobrar para formar um governo pós-Maidan. “Foda-se a União Europeia”, exclamou Nuland, sobre a intervenção menos agressiva do bloco no país. “Yats é o tipo que tem a experiência económica”, disse ela, referindo-se ao líder da oposição, Arseniy Yatsenyuk, que apoiou as devastadoras políticas neoliberais exigidas pelo Ocidente. Pode provavelmente adivinhar quem se tornou o primeiro-ministro no governo interino pós-Maidan.

É um exagero dizer, como têm sustentado alguns críticos, que Washington orquestrou a rebelião da Maidan. Porém, sem dúvida, as autoridades norte-americanas apoiaram e exploraram-na para os seus próprios fins.

A revolução incompleta

Assim como em 2004, o resultado da Revolução Maidan, mesmo sem ser culpa da maioria dos ucranianos bem-intencionados e frustrados que ajudaram a derrubar Yanukovych, não foi a paz e a estabilidade, nem um passo na direção dos valores liberais e da democracia. Na prática, quase todas as reivindicações dos manifestantes não foram realizadas.

A mesma extrema-direita que liderou o derrube de Yanukovych, incluindo Parubiy, ocupou cargos no governo provisório seguinte, enquanto o vencedor da eleição presidencial de 2014 – o sétimo homem mais rico de Ucrânia, Petro Poroshenko – tinha um historial de corrupção. O seu ministro do Interior rapidamente incorporou o Batalhão Azov, uma milícia neonazi, na Guarda Nacional da Ucrânia, tornando o país agora numa Meca para extremistas de direita de todo o mundo, que vêm aprender e receber treino do Azov – incluindo, ironicamente, supremacistas brancos russos que foram perseguidos por Putin no seu país.

Apesar da recente perda de lugares no Parlamento dos partidos de extrema-direita, os movimentos ultranacionalistas empurraram com sucesso a política do país para o extremismo de direita, com Poroshenko e outros centristas a apoiar medidas para marginalizar russófonos e glorificar colaboradores nazis. Ainda assim, candidatos de extrema-direita entraram no Parlamento em candidaturas que não eram dessa área política e extremistas como o ex-comandante do Azov, Andriy Biletsky, assumiram posições de alto nível no domínio da segurança. À medida que o vigilantismo de extrema-direita se espalhava pelo país, o próprio Poroshenko concedeu a cidadania a um neonazi bielorrusso e ele próprio prestou declarações que roçavam o antissemitismo.

Pouco ou nada mudou relativamente à corrupção ou ao autoritarismo sob Poroshenko ou sob o atual presidente Volodymyr Zelensky, eleito em 2019 como se fosse um agente de mudança outsider. Cada um deles governou como um autocrata, utilizando os seus poderes para perseguir adversários políticos e enfraquecer a dissidência, e envolvendo-se em escândalos de enriquecimento pessoal que continuaram endémicos na classe política ucraniana.

Nada disso interrompeu a sua celebração por parte de Washington e o apoio norte-americano. Na verdade, este novo patrono imperial apenas se juntou a estes problemas, com a família do atual presidente dos EUA pessoalmente envolvida num dos principais escândalos de corrupção do país antes de se valer da sua posição para fazer nomear um procurador-geral marcadamente corrupto.

Enquanto isso, a Ucrânia continua envolvida numa mini-guerra civil desde Maidan. Depois de Putin ter avançado para preservar a base naval da Crimeia do controle da NATO, recorrendo à presença militar russa e a um referendo duvidoso para anexar ilegalmente a região de maioria russa logo após a saída de Yanukovych, os separatistas pró-russos começaram a mobilizar-se no leste do país – primeiro em protestos, depois em grupos armados. Quando o governo provisório mandou as Forças Armadas para sufocar a rebelião, Moscovo enviou suas próprias tropas, e toda a região tem sido um barril de pólvora mortal desde então.

Contudo, uma coisa crucial mudou. Com Yanukovych fora, o governo provisório e o primeiro-ministro escolhido a dedo por Washington assinaram o acordo da UE cuja rejeição deu início a isto tudo, solidificando a viragem da Ucrânia para Ocidente e inaugurando as medidas de austeridade brutais demandadas pelo FMI. No decorrer dos anos, o sucessor de Yanukovych assinou uma série de privatizações, aumentou a idade de reforma e cortou os subsídios ao gás, algo exigido até pelo então vice-presidente Joe Biden. De forma não surpreendente, os ucranianos irados "votaram com os pés" e afastaram-no com um resultado eleitoral esmagador.

Sombras e mentiras

A insurreição de 2014 na Ucrânia foi um caso enormemente complicado. Contudo, para a maioria dos observadores ocidentais, muitos dos seus factos básicos e bem documentados foram colocados numa narrativa simplista e maniqueísta ou apresentados como desinformação e propaganda, como o papel crucial que a extrema-direita teve na revolta.

Na verdade, a Revolução Maidan continua a ser um evento confuso e difícil de categorizar, mas está longe daquilo em que os ocidentais foram levados a acreditar. É uma história de manifestantes liberais e pró-ocidentais, impulsionados por queixas legítimas, mas, em grande parte, provenientes de somente metade de um país polarizado, entrando num temporário casamento de conveniência com a extrema-direita para promover uma insurreição contra um presidente corrupto e autoritário. A tragédia é que, em larga medida, isto potenciou verdadeiros neonazis ao mesmo tempo que serviu somente para implementar os objetivos dos poderes ocidentais que os apoiaram de forma oportunista – entre os quais estava o equivalente geopolítico de um empréstimo predatório.

É uma história tragicamente comum na Europa pós-Guerra Fria, de um país mutilado e dilacerado quando as suas divisões políticas e sociais foram usadas e estimuladas ainda mais na disputa das rivalidades das grandes potências mundiais. E o fracasso ocidental em compreender isto trouxe-nos a um ponto em que Washington continua imprudentemente a envolver-se num jogo repleto de aspetos sombrios, onde poucas coisas são o que parecem ser à superfície.

O envolvimento ocidental ajudou a trazer o país a esta crise. Há poucas razões para pensar que o vai tirar dela agora.


Branko Marcetic faz parte da redação da Jacobin.

Publicado originalmente na Jacobin. Traduzido para português pela Jacobin Brasil. Editado para português de Portugal pelo Esquerda.net.

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