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A Ucrânia, segundo o Kremlin

Ainda que seja inegável que há um confronto geo-estratégico entre NATO e Rússia, quem olhe para este conflito a partir da esquerda não deve fazer um duplo mortal com pirueta e acabar a apoiar o reacionário e contra-revolucionário Putin, cujas políticas fariam as delícias dos militantes do VOX. Por Miguel Vázquez Liñán.
Restos de material de guerra do conflito em Debaltseve. Foto Unicef Ucrânia.
Restos de material de guerra do conflito em Debaltseve. Foto Unicef Ucrânia.

Uma das chaves para compreender o governo russo nesta nova crise à volta da Ucrânia passa por recordar que, durante os últimos vinte anos, Vladimir Putin construiu a sua política, interna e externa, com base na ideia de que a Rússia é um país em guerra permanente. Esta política foi acompanhada por uma propaganda sistemática, de carácter militarista, que acostumou os seus habitantes à ideia de que, a qualquer momento… começará a guerra. Mais uma guerra.

Assim, para o Kremlin, a Federação Russa encontra-se rodeada de inimigos que trabalham afincadamente para tentar desmembrar o país, inimigos que temem uma Rússia forte e unida (o nome do partido de Putin, Rússia Unida, não foi escolhido por acaso) que desempenhe um papel de liderança nas relações internacionais. Nesta perspetiva, a oposição política seria apenas o prolongamento destes inimigos no interior do território russo: a quinta coluna; o cavalo de Troia “ocidental”. Este critério serviu eficazmente para o Kremlin condenar, por exemplo, as Pussy Riot, o opositor Alexéi Navalny, grupos de jovens anarquistas ou organizações de defesa da memória e dos direito como a Memorial.

A pressão sobre a Rússia da NATO, dos EUA, para além da União Europeia, no seu papel de inimigos principais, serviu ao Kremlin para justificar, também, a entrada das tropas russas (que, até hoje, aí permanecem) no território da República da Georgia, em 2008. Em 2014, mais uma vez para evitar a influência ocidental, a Rússia invadiu a península ucraniana da Crimeia, convertida hoje, para o Kremlin (e, por omissão, para o resto do mundo), em mais uma província russa. Também nesse ano, paramilitares russos e ucranianos com o apoio do Kremlin ocuparam a região ucraniana, limítrofe com a Rússia, de Donbás, implementando a denominada, pelos seus criadores, República Popular de Donetsk. A Ucrânia, claro, não reconhece estas ocupações e o conflito armado, nessa região, continua desde 2014. Ou seja, a guerra entre a Rússia e a Ucrânia… já está em marcha. A ameaça atual consistiria, assim, na escalada do conflito e/ou na entrada de novos atores internacionais. A invasão dos territórios georgianos, a ocupação da Crimeia, o encerramento da Memorial ou a detenção de líderes da oposição têm, como temos sublinhado, algo em comum: para o Kremlin são ações orientadas para a luta contra a influência externa (ocidental), convertida desta forma na justificação de qualquer coisa que sirva para o objetivo político mais evidente que parece ter o líder russo: perpetuar-se no poder.

A ocupação militar da Crimeia em 2014 foi para o Kremlin uma espécie de festa propagandistica, acompanhada de uma histeria patriótica e da subida exponencial dos níveis de popularidade do presidente Putin (que roçaram, então, os 90%). Hoje, segundo o Centro Levada, esses níveis estão à volta de 65%, enquanto que os do governo não passam de 49%. A tentação do Kremlin de subir esses indicadores mediante uma nova campanha bélica é um dos argumentos de quem acredita que tal campanha seja um cenário muito possível. Não obstante, uma guerra aberta entre a Ucrânia e a Rússia não teria necessariamente efeitos positivos na popularidade de Vladimir Putin e do seu regime, especialmente no mais que provável caso do conflito armado se prolongar no tempo.

Ucrânia e Rússia: algo mais que vizinhos

A relação entre estes dois povos, tão próximos em quase tudo, deteriorou-se progressivamente desde o desaparecimento, em 1991, da União Soviética. Talvez seja a chamada “Revolução Laranja”, entre os anos 2004 e 2005, o que marca o início da permanente tensão que caracterizou as relações entre Kiev e Moscovo no século atual. Então, as suspeitas de fraude eleitoral a favor do candidato “pró-russo” Víktor Yanukóvich levaram a uma série de protestos que acabaram com a realização de novas eleições e a chegada à presidência de Víktor Yúshchenko, a besta negra de Moscovo durante aqueles anos devido às suas posições defesa da aproximação ao “ocidente”. Yanukóvich chegaria em 2010, contudo, à presidência, da qual seria expulso como resultado das mobilizações conhecidas como o Euromaidán, depois das quais Yanukóvich fugiria para a Rússia. Como já mencionámos, em 2014 ocorre a invasão, por parte da Rússia e aparentemente como consequência de viragem ocidental de Kiev, da península ucraniana da Crimeia.

De forma que, quando há alguns dias Boris Johnson anunciou, com grande fanfarra, que a Rússia estava a tentar intervir na política ucraniana através da promoção de políticos “próximos de Moscovo”, ninguém na Ucrânia se deve ter surpreendido muito. De facto, poucos países sabem melhor do que a Ucrânia o que significa isso que é hábito chamar “a influência russa”, daí que possa parecer arrogante que tentemos explicar aos ucranianos porque devem escolher um ou o outro caminho.

E, porém, esse parece ser o caso de muitas interpretações que, sem ter demasiado em conta o destino da população daquele país, observam o conflito através das lentes habituais das tertúlias televisivas, desenhadas para ganhar audiências ao propor discussões fáceis e emocionalmente intensas: teríamos de escolher portanto, e outra vez… entre “esquerda e direita”. Segundo este ponto de vista, o conflito reduzir-se-ia ao confronto entre um eixo “euro-atlântico” e a Rússia (é, certamente, a interpretação mediática que Washington, Bruxelas e Moscovo compartilham). Assim, e simplificando ainda mais, se as minhas simpatias estiverem à esquerda, a linha principal da minha argumentação sobre a Ucrânia deveria ser a crítica à atuação imperialista dos EUA e da NATO na zona… e pouco mais. Por outro lado, se me situar ideologicamente no chamado centro-direita, ver-me-ia obrigado a cantar louvores acríticos a qualquer ação dos EUA e da NATO, no pressuposto de que ambos procuram o triunfo da liberdade e prosperidade para o povo ucraniano. Não acrescenta muito, na minha opinião, aplicar catecismos políticos a conflitos complexos porque, precisamente, partem de um problema fundacional: são catecismos e dificultam, assim, o pensamento livre. Ainda que seja inegável que se esteja a produzir um confronto geo-estratégico entre a NATO e a Rússia, numa espécie de duplo salto mortal com duplo mortal com pirueta os seguidores de um catecismo “esquerdista” poderiam acabar a apoiar o reacionário e contra-revolucionário Putin, cujas políticas fariam as delícias dos militantes do VOX.

O papel dos meios de comunicação do regime na Rússia

Vinte anos de propaganda militarista criaram uma máquina mediática bem oleada. A repressão ao jornalismo minimamente independente tornou este uma raridade na Federação Russa, de forma que ao primeiro toque de trombeta os grandes meios de comunicação, oficiais e oficialistas, com os seus perfis nas redes sociais a deitar fumo, alinharam-se ao discurso já habitual: a denúncia da desinformação ocidental, bem como do bloqueio dos EUA e NATO (e do cão de colo destes, a UE) de qualquer tentativa de negociação proposta pelo Kremlin. De caminho, a Ucrânia é representada como um país governado por nazis que pretende invadir, com as armas da NATO, não apenas Donbás, mas também territórios da Federação Russa (invadir, clarifiquemos, é errado se o invadido for a Rússia), um ninho de traidores pró-ocidentais que já colaboraram com os alemães durante a Segunda Guerra Mundial… e voltam a fazê-lo hoje. Entretanto, a solução militar é oferecida como se fosse a melhor possível. De facto, os meios oficiais assim amiúde o papel de ponta de lança da propaganda de guerra, apelando ao seu governo (o de Putin) a não esperar mais, a deixar de negociar com políticos hipócritas e moles e passar, de uma vez por todas, à ação.

A NATO, os EUA e a UE

São muitas, e algumas carregadas de argumentos de peso, as análises que salientam que a União Europeia não aproveitou a oportunidade nos inícios do século, de estabelecer relações mais amistosas com um Putin então mais recetivo ao diálogo. Outras apontam que a NATO e os EUA não tratam “de igual para igual” a Rússia e que, para além disso, as suas políticas estão a violentar a “zona de influência” desta no antigo espaço de domínio soviético. Ainda que seja certo que a Rússia também não trata de igual para igual ninguém a menos que se veja obrigada fazê-lo, também o é que a ampliação, em 2004, da UE para o leste de Europa significou o endurecimento da relação com a Federação Russa. Neste sentido, a crítica ao alarido histérico e visceralmente “anti-russo” de governos como o polaco deve ser complementada com uma análise das razões que levaram esses países a adotar posições desse tipo.

Ninguém parece sentir-se cómodo ao fazer parte de uma “zona de influência” que, basicamente, implica limitações ainda maiores do que as habituais à tomada de decisões soberanas. Quem se manteve firme na sua denúncia das políticas imperiais que os EUA impuseram durante décadas em regiões como a América Latina, desdenhosamente descrita amiúde como “o pátio traseiro dos EUA”, deveriam afrontar com o mesmo espírito anti-imperialista a mera existência de um “pátio traseiro da Rússia”.

O caminho da Ucrânia não será fácil. Escolher entre o mau e o pior não é um prato que ninguém aprecia. E muitos ucranianos, ainda que provavelmente cada vez menos, desejam manter uma relação próxima com um país irmão em todos os aspetos, como sem dúvida é a Rússia. Porém, os permanentes tambores de guerra não ajudam a manter uma conversa tranquila que, idealmente, deveria levar o país a tomar as suas decisões mais complexas. Nestas circunstâncias, talvez devêssemos procurar compreender quem quer se afastar do vizinho que invadiu o seu território e com quem está em guerra há oito anos. Não me parece muito difícil.


Miguel Vázquez Liñán é professor na Universidade de Sevilha, doutorado em Ciências da Informação, especialista no estudo da propaganda e no espaço da Ex-União Soviética.

Publicado originalmente no El Salto. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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