Combater as novas formas de precariedade

Texto de Nelson Silva de apoio ao debate “Combater as novas formas de precariedade”, que terá lugar no Fórum Socialismo 2019, no sábado, 31 de agosto, às 14h30, no Porto.

30 de agosto 2019 - 15:36
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Fotografia: precarios.net
Fotografia: precarios.net

No mundo laboral atual, um dos fatores que maior desequilíbrio provoca nas correlação de forças entre os trabalhadores e a entidade empregadora é a precariedade.

Muitas formas foram e são criadas para ludibriar o sistema laboral e fiscal. Identificaremos algumas destas formas:

- Recibo verde direto - muitas vezes utilizado para eternizar uma relação laboral ilegal, alegando uma necessidade pontual que perdura no tempo, subvertendo todas as regras.

- Contrato de prestação de serviços - normalmente com cláusulas abusivas, reportando todas as despesas destes contratos para o precário, ou seja, temos um contrato de “faz de conta”.

- Empresas matrioscas - dizem-se prestadoras de um serviço, mas no fundo limitam-se a fornecer mão de obra, não cumprindo os requisitos de uma empresa de trabalho temporário, sem alvará apropriado, (escutando-se numa falsa prestação de serviços), contornam a lei não pagando os impostos devidos sobre estes trabalhadores, priva-os de direitos sociais, obrigando-os a passar recibo verde a várias empresas que não conhecem, nas quais não trabalham, criadas com o objectivo de quebrar uma continuidade laboral que é por demais evidente, pertencem todas a mesmo dono (por vezes o CAE nem corresponde à atividade exercida).

- Outsourcing - a nova moda, a externalização de serviços, normalmente estas empresas contratam trabalhadores a recibo verde ou contratos com cláusulas abusivas, sem qualquer direito a direitos. A empresa que contrata a dita “empresa de Outsourcing” pode assim sacudir a culpa do que corre mal, dizendo muitas vezes que nada tem a ver com a empresa de Outsourcing à qual recorrem para prestar o serviço. É a forma simples de dar dinheiro de quem trabalha a quem nada faz, (muitas das vezes a empresa contratante paga a empresa de Outsourcing o dobro ou mais do que o trabalhador leva para casa, a empresa de Outsourcing só processa pagamentos).

- Falsos estágios - todos eles com promessas que não se verificam, caem num ciclo criminoso de estágios sucessivos que cumprem necessidades permanentes.

O que está na origem, e que interesses serve a precariedade?

- Facilitismo contabilístico - todas as despesas sociais e fiscais com trabalhador precário são extintas, existe apenas o recibo verde, conbilisticamente igualando-o a compra de um saco de batatas.

- Retirada de direitos laborais essenciais - perda do respeito pelas horas de descanso, horas extraordinárias, direitos sociais, férias, violações sistemáticas do código laboral, etc...

- Emagrecimento das empresas - ilusão de que se faz com 1 trabalhador dos quadros o que antes se fazia com 10, (é assim que muitos gestores ganham prémios de boa gestão), mas na verdade a empresa labora com recurso a precariedade.

Quem são os mais atingidos?

- O grupo preferencial destas formas de exploração é a camada jovem, licenciada ou não, a procura de primeiro emprego, estágio, mas também desempregado de longa duração.

- Também o grupo de trabalhadores desempregado de meia idade, quer por desemprego ao fim de 20 ou mais anos de trabalho acaba por ser envolvido na precariedade.

Como podemos combater?

- Os serviços de inspeção têm um papel preponderante, não obstante de no nosso país as forças de inspeção serem pouco eficientes, competentes, e em número reduzido, temos então uma ACT de faz de conta, que deve ser muito reforçada.

- Legislação mais apertada que permita combater as formas de precariedade de uma maneira eficaz.

- Um estado mais cumpridor e menos prevaricador. Afinal é o próprio estado o maior impulsionador da precariedade, sendo o maior beneficiário da falta de fiscalização e legislação limitada.

- Denunciar às ORT todo os casos de precariedade, estas têm um papel preponderante na irradiação da precariedade. Em muitos casos estas organizações negam-se a denunciar a precariedade, mas com esta posição estão simplesmente a permitir a perda de direitos laborais e o poder reendivicativo dos seus trabalhadores, fazendo um favor às administrações.

Como conclusão podemos afirmar que estes esquemas laborais são responsáveis pela degradação qualidade laboral, permitidos por um estado cunivente e cúmplice, que não quer de todo fazer parte da solução para o problema que ele próprio alimenta... O maior exemplo deste estado com disfunção laboral é o PREVPAP, um programa que tinha como objectivo acabar com esquemas precários conferindo a todos os trabalhadores um melhor sentido de justiça laboral, e não o fim da relação laboral e alteração do equilíbrio emocional, como aconteceu com alguns... enfim, apesar de se terem resolvido algumas situações muito há a fazer para acabar com a precariedade.

Enquanto isso, TODOS OS TRABALHADORES perdem direitos, deixando assim degradar a sua qualidade de vida pessoal e laboral. Activismo laboral é o caminho... Acordem.

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