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Campeonato europeu de sub-21 em Israel: cartão vermelho ao Apartheid

A decisão da UEFA de manter Israel como o país anfitrião do Campeonato Europeu de sub-21 no próximo mês provocou a revolta de grupos comunitários de solidariedade com o povo palestino. Por Loretta Mussi, Nena News
Em Jerusalém, os jogos serão realizados no Teddy Stadium, construído perto da aldeia palestina de Al Maliha, quase completamente destruída e que abrigava 5.798 pessoas antes da ocupação. Foto wikimedia commons

As aldeias palestinas que foram destruídas e varridas da face da terra e do mapa entre 1947 e 1948 são em número de 532. Estas aldeias tinham mais de 750.000 habitantes, embora algumas fontes refiram o número de 900 mil. Todos expulsos à força ou obrigados a fugir, mas muitos foram mortos, infelizmente.

Em relação ao evento desportivo para o qual a Europa se prepara, Israel designou os estádios e as cidades que deverão acolher o Campeonato Europeu de sub-21. Os jogos serão realizados em Jerusalém, Tel Aviv, Netanya e Petah Tikva, que foram construídas ou assentam em aldeias arrasadas durante a Nakba de 1948 e de 1949, depois de terem sido limpas de nativos palestinianos.

Em Tel Aviv, os jogos terão lugar no Estádio Bloomfield, construído no local do estádio de Ba'sa, de onde foi expulso o clube palestiniano Shabab Al-Arab, em 1948. Foi feita outra opção ainda: o estádio Ramat Gan, construído em terras das aldeias palestinas de Jarisha e al-Jammasin al-Sharqi, apreendidas ao abrigo da lei de 1950 respeitante às propriedades de ausentes. Além disso, Tel Aviv foi ampliada e expandiu-se à custa de outros bairros e aldeias, como sejam Al-Manshyya Al-Jamassin al-Gharbi, Al-Shaykh Muwannis, Salama e Summayl.

Estas últimas foram alvo de destruição e limpeza étnica pelas mãos dos gangues de Irgun Zwai Leumi, da Haganah e da infame Brigada Alexandroni (brigada 609). A história registará que todas essas aldeias eram prósperas e tinham terras e plantações bem cultivadas e irrigadas, com cereais, árvores de fruto e oliveiras. Isto contraria as falsas histórias israelitas de que Israel transformou o deserto num jardim.

Em Netanya, as equipas irão jogar no Stade Municipal (Estádio Municipal de Netanya) que fica no único edifício da aldeia palestina de Bayyarat Hannun que escapou dos horrores da destruição e limpeza étnica dos seus habitantes em 31 de março de 1948. As operações fizeram parte da ofensiva israelita Clearing Coastal (limpeza da costa) e, até hoje, ninguém sabe o que aconteceu com os habitantes da aldeia.

A outra aldeia desaparecida é a antiquíssima Umm Khalid. Em Petah Tikva, os jogos terão lugar no estádio Hamoshava. A cidade foi ampliada para cobrir completamente a terra e tudo o que já foi a aldeia de Fajja, e foi construída em cima de antigos vestígios arqueológicos existentes até ao dia da destruição. Em 17 de fevereiro de 1948, os grupos terroristas do Haganah e do Irgun atacaram como feras, obrigando os moradores a fugir. A limpeza étnica foi concluída em 15 de maio e a aldeia ficou completamente destruída, com exceção de uma casa.

Em Jerusalém, os jogos serão realizados no Teddy Stadium, construído perto da aldeia palestina de Al Maliha, quase completamente destruída e que abrigava 5.798 pessoas antes da ocupação. Como noutras aldeias, al-Maliha também sofreu uma limpeza étnica dos seus habitantes em 15 de julho de 1948, num ataque lançado pelas brigadas do Irgun Zvai Leumi e Palmach. As poucas casas árabes restantes foram ocupadas por colonos judeus. No centro da aldeia, a mesquita e o seu minarete ainda estão de pé, mas em condições que refletem muitos anos de negligência.

O Estádio Teddy é também a sede da famosa equipa israelita Beitar Jerusalém. Esta equipa ficou conhecida por os seus partidários terem queimado a sede do clube em fevereiro de 2013 após a chegada de dois jogadores muçulmanos originários da Chechênia. Um mês mais tarde, os adeptos deixaram as bancadas quando o jogador marcou o seu primeiro golo.

Para comentar estes acontecimentos, Moshe Zimmermann, historiador de desporto na Universidade Hebraica, começa primeiro por negar as alegações de que os adeptos do Beitar Jerusalem são apenas uma banda extremista e diz: "Esses atos mostram que a sociedade israelita no seu todo se tornou mais racista, ou pelo menos mais etnocêntrica. "

Convém dizer que Jerusalém está acostumada a ataques, e que datam de 1948, quando grupos sionistas invadiram a cidade: foi em abril.

E a história vai lembrar para sempre a data de 9 de abril de 1948 em que aconteceu o massacre de Deir Yassin: foi realmente mais do que um massacre, uma chacina em que toda a aldeia foi destruída e os seus habitantes mortos. Houve mais de 100 mortes. Além do próprio ato violento, o massacre emitiu uma mensagem de terror para as aldeias vizinhas e foi o alarme para a fuga dos seus habitantes.

Em 14 de maio, a parte nova de Jerusalém foi ocupada, enquanto 40 aldeias a oeste da cidade sofreram o mesmo destino de destruição e limpeza dos seus habitantes. De facto, mais de 90 mil pessoas que viviam em Jerusalém e aldeias vizinhas perderam todos os seus bens, a começar pelo direito de viver nas suas próprias casas. Em 7 de junho de 1967, as forças israelitas realizaram a ocupação de Jerusalém Oriental, anexando-a a Jerusalém Ocidental.

Estas operações de demolição de aldeias no coração de Jerusalém e da expulsão dos habitantes pela força e sob ameaça de explosão das suas casas foram cuidadosamente conduzidas pela Brigada de Harel Yitzhak Rabin, que foi mais tarde primeiro-ministro e Nobel da Paz.

Sessenta e cinco anos depois, dizer que a Nakba acabou é um engodo perfeito. A Nakba palestina continua até hoje com o bombardeio intensivo da Faixa de Gaza, abusivas expulsões de palestinos das suas casas e a construção de colonatos ilegais na Cisjordânia. Hoje, a Nakba caracteriza-se ainda por ataques aéreos de ocupação diários e por contínuas pressões aplicadas aos palestinianos de Israel considerados cidadãos de segunda classe.

À luz de tudo o que foi mencionado, Israel não merece sediar um acontecimento desportivo internacional, como a Taça UEFA de 2013 para os U-21. Dar a Israel essa honra significaria recompensar os seus atos contrários aos valores desportivos. Em junho de 2011, 42 equipas de futebol da Palestina dirigiram-se a Michel Platini, presidente da UEFA, para que a sua instituição revisse a decisão de atribuir o acolhimento do campeonato a um país que ocupa militarmente a Palestina, não cumpre direitos internacionais e constantemente viola os direitos humanos zombando do que possa pensar a opinião pública internacional que, apesar de reprovar, não se atreve a exercer sobre Israel a pressão necessária.

É por isso que nasceu, em toda a Europa, inclusive em Itália, e em todo o mundo, a campanha de mobilização Cartão Vermelho contra o Apartheid de Israel. De facto, a campanha faz parte do BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções), lançado em 2005 pela sociedade civil palestina, inspirada no movimento Sul Africano anti-apartheid, onde na época o boicote desportivo teve um papel crucial.

Para o atual caso de Israel, muitas vozes se levantaram contra a organização do Campeonato Europeu em terra roubada. Até agora, houve 15 mil assinaturas on-line acompanhadas de mensagens de mais de 50 estrelas do futebol europeu, bem como de Ken Loach, realizador britânico, de Marie-George Buffet, ex-ministra francesa do Desporto, e do falecido Stéphane Hessel coautor da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Em setembro de 2010, Michel Platini disse que estava preocupado com as restrições impostas por Israel aos futebolistas da Palestina, tendo chegando mesmo a dizer: "Israel precisa de escolher, ou deixa o futebol palestino decorrer e desenvolver-se normalmente, ou está a preparar-se para as consequências negativas do seu comportamento. "

Dois anos e meio depois desta declaração, não há dúvida que as condições do futebol palestino não prosperaram nem evoluíram. O Exército de Israel ainda bombardeou Gaza, destruindo as instalações do desporto e do futebol, incluindo a sede do Comitê Paraolímpico Nacional e do Estádio Nacional, em Rafah. Estes ataques também mataram cerca de 200 pessoas, incluindo as crianças que estavam apenas a jogar futebol.

Quanto aos jogadores de futebol palestinos, parecem estar na mira de Israel. Na verdade, três jogadores da seleção, ou seja, Ayman Alkurd, Shadi Sbakhe e Wajeh Moshate foram mortos durante a Operação Chumbo Fundido. No ano passado, outro jogador de futebol detido em prisões israelitas teve de começar uma greve de fome por três meses, e foi precisa uma mobilização internacional para que Israel concordasse em libertá-lo. É o jogador da equipa nacional Mahmoud Sarsak, detido durante três meses sem processo de acusação ou julgamento quando se deslocava de Gaza à Cisjordânia para um jogo. A lista de atletas presos é ainda longa. Além dos 4.500 presos políticos palestinos, há o guarda-redes da Equipa Olímpica Abu Omar Rois e jogador Ramallah Mohamed Nimr. No entanto, o jogador de futebol Zakaria Issa foi destroçado pelo cancro e morreu na prisão sem que as autoridades prisionais tenham providenciado os cuidados e tratamentos necessários.

Como todos os palestinianos, os jogadores também estão sujeitos à proibição e restrições à circulação, seja nos Territórios Ocupados da Palestina ou no exterior. É-lhes extremamente difícil treinar ou participar nas competições.

Dentro de um mês, se O Campeonato Sub-21 se mantiver em Israel, este evento mal programado será incorretamente proibido a milhares de adeptos de futebol palestinianos que vão ver o seu acesso a Israel bloqueado e não poderão ver os jogos, enquanto os colonos Israelitas serão livres de ir e vir sem obstáculos.

É por isso que a campanha europeia Cartão Vermelho se dirige à consciência e ao bom senso de toda a comunidade desportiva e apela a que se exerça pressão sobre Israel para pôr fim ao abuso e à violência que mancham a sua imagem há 65 anos e que fazem de Israel um lugar impróprio para sediar eventos desportivos internacionais. Por outras palavras, permitir que Israel organize os jogos passar-lhe-ia um cheque em branco e reforçaria o seu sentimento de impunidade.

Numa última tentativa, ativistas europeus desta campanha decidiram fazer ouvir a sua voz no próximo Congresso da UEFA em 24 de maio, em Londres, exigindo a participação do jogador de futebol palestino Mahmoud Sarsak para que possa explicar os motivos da campanha que apela à transferência do Campeonato Sub-21 para outro país e à suspensão de Israel da UEFA e de qualquer possibilidade de futura hospedagem de eventos desportivos até que cumpra os direitos humanos internacionais.

Além disso, apelamos a todos os militantes e desportistas italianos para a paz, para que se associem à nossa campanha e enviem uma mensagem clara e forte de que, no futebol, não há lugar à negação sistemática dos direitos humanos. No caso de a UEFA continuar a fazer ouvidos de mercador e decidir continuar o seu plano ignorando os inúmeros apelos à não realização do campeonato em Israel, convidamos todos a organizar eventos em toda a Itália durante o dia 8 de junho, data do jogo Itália-Israel.

Loretta Mussi: Diretora de Un ponte per, associação de voluntários fundada em 1991 que trabalha para neutralizar conflitos futuros.

14 de maio, 2013 - Nena News

Traduzido do francês em Info-Palestine.eu por Deolinda Peralta para o Esquerda.net

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