Está aqui

A Austrália vence em Timor

Em Timor, 2007 foi o ano da "consolidação democrática" do golpe de Estado iniciado em 2006 com a conivência da Austrália e contra o "nacionalismo económico" de Mário Alkatiri. Ramos Horta e Xanana Gusmão, os principais aliados da política australiana, conquistaram os lugares de Presidente da República e Primeiro-Ministro. Horta venceu as eleições claramente impondo a primeira derrota nas urnas à Fretilin. A 30 de Junho, Xanana não precisou de ganhar as legislativas para mesmo assim se sentar na cadeira do poder. Entretanto, o criminoso Alfredo Reinado continua a monte, recebendo salário do Estado.  

A crise de 2006 teve o seu desfecho nas urnas no ano que agora passou. Um desfecho favorável às forças que promoveram a instabilidade em Timor quando Alkatiri se recusou a concessionar mais petróleo para empresas australianas. Ainda em 2006 Alkatiri foi obrigado a demitir-se e Ramos Horta, ministro dos negócios estrangeiros, ascendeu ao cargo de Primeiro Ministro.

Em 2007 realizaram-se eleições presidencias e legislativas, que "curiosamente" resultaram numa troca de lugares. Ramos Horta passou de Primeiro Ministro a Presidente e Xanana Gusmão de Presidente a Primeiro Ministro.

Na primeira volta das eleições presidenciais, a 9 de Abril, o candidato da Fretilin foi o mais votado. Francisco Guterres - "Lu-Olo" - obteve 28% dos votos, seguido de Ramos Horta com 22% e Fernando Lasama com 19%. Na segunda volta, todos os candidatos, menos um, se uniram para apoiar Ramos Horta, que conquistou a cadeira de Presidente da República, a 8 de Maio, com 73% dos votos. Foi a primeira derrota eleitoral da Fretilin, que não resistiu tanto às inabilidades governativas e à incapacidade de promover uma cultura de participação popular, como à campanha de medo em que os seus adversários se empenharam, augurando o regresso dos distúrbios e dos confrontos no caso de uma vitória do candidato da Fretilin.

Algo que se repetiu nas eleições seguintes, as legislativas de 30 de Junho. A Fretilin voltou a ser o partido mais votado, com 29%. Uma descida vertiginosa em relação às anteriores eleições para o parlamento, em que conquistara a maioria absoluta com 57 % dos votos. Mesmo assim, Xanana Gusmão não conseguiu capitalizar o seu carisma, ficando com apenas 24% dos votos, o que não deixa de ser sintomático: o homem que foi a cara e também o corpo da luta pela independência de Timor, eleito esmagadoramente Presidente da República há cinco anos atrás, não obteve mais do que um em cada quatro votos.

Mas foi o suficiente. Rapidamente se formou uma coligação negativa, anti-Fretilin, para impedir que o partido mais votado estivesse presente no governo. O novo parlamento de Timor Leste ficou composto por 21 deputados da Fretilin, 18 do Conselho Nacional para a Reconstrução de Timor-Leste (CNRT), 11 da coligação ASDT-PSD (Mário Carrascalão), 8 do Partido Democrático, 3 do Partido da Unidade Nacional (PUN), 2 da aliança KOTA-PPT e 2 da Unidade Nacional da Resistência Timorense (Undertim). Após as eleições, o CNRT, a coligação ASDT-PSD e o PD fizeram um acordo pós-eleitoral, constituindo a Aliança com Maioria Parlamentar (AMP), com 37 deputados no total contra 21 da Fretilin. A AMP elegeu para presidente do parlamento Fernando Araújo (PD) com 41 votos em 65 deputados. Pouco depois, Ramos Horta colocou no poder a mesma aliança parlamentar, encabeçada por Xanana Gusmão, que ocupou o lugar de Primeiro Ministro.

Um dos grandes desafios do novo governo é a resolução do problema dos refugiados, que desde a crise de 2006 permanecem em condições muito difíceis. Segundo diversas agências humanitárias existem, só em Dili, 53 campos de refugiados com um total de 30 mil pessoas, um quinto da população da capital. No país todos, calcula-se que haja 100 mil deslocados (10% da população).

Finn Reske-Nielsen, responsável pelos assuntos humanitários na missão internacional (UNMIT), afirmou que "não existe uma solução de curto prazo para o problema dos deslocados". Esta é uma questão bem presente nas promessas do Governo, mas até agora quase nada foi feito.

Entretanto, o novo primeiro-ministro australiano, Kevin Rudd, já fez saber que o seu país manterá tropas em Timor-Leste pelo menos até o fim de 2008.

Do ponto de vista da agitação social, destaque para as manifestações de estudantes contra a lei da "pensão vitalícia" que os deputados da anterior legislatura, num parlamento totalmente dominado pela Fretilin, atribuíram a si próprios.

Finalmente, o personagem que promete dar que falar em 2008: Alfredo Reinado.

Ex-chefe da Polícia Militar, Reinado esteve no centro da crise de 2006, liderando os principais levantamentos contra o governo da Fretilin. Contou sempre com a protecção das tropas da Austrália, país em que se formou militarmente. Conspirou com Xanana Gusmão, e é acusado de vários crimes de homicídio, de rebelião e de posse ilegal de material de guerra. Ao contrário de Alkatiri, que foi acusado de apoiar o célebre "grupo de Railós" para eliminar opositores - apesar de não ter existido nenhuma acção concreta deste grupo e as provas se resumirem à posse de seis espingardas - Xanana Gusmão não foi tocado pelo poder judicial.

Reinado começou a ser julgado a 3 de Dezembro, mas o julgamento foi adiado para 24 de Janeiro de 2008, porque o principal arguido continua a monte desde que se evadiu confortavelmente da prisão de Becora, em Díli, a 30 de Agosto de 2006. Ainda assim, Xanana Gusmão faz questão de marcar encontros com Reinado mas este nunca apareceu. A última tentativa gorada foi a 16 de Dezembro. Depois de esperar mais de três horas por quem nunca teve a intenção de aparecer, eis alguns dos desabafos de Xanana Gusmão:

"Alfredo Reinado esquivou-se do encontro". "Ele pensa que é um herói e que manda em Timor". "Dou apenas mais uma oportunidade a Alfredo Reinado" essa oportunidade "será a curto prazo". "Não falo de esperança". "Eu não faço convites. Só para festas". "Conheço Alfredo Reinado. Foi várias vezes a minha casa antes de ser preso em Becora". "Alfredo é um homem que não mantém a sua palavra. Hoje diz uma coisa, amanhã diz outra".

Na verdade, Reinado faltou a vários encontros, mas foi capaz de nomear um representante legal para vir ao gabinete de um ministério do governo receber o salário em seu nome. Torna-se assim no único fugitivo do mundo que, continuando a monte, recebe o pagamento do salário pelo Estado de cujas forças armadas desertou, tendo feito tudo para derrubar esse mesmo Estado, inclusivamente recorrendo ao assassínio.

(...)

Resto dossier

Mundo em 2007

Da França à Venezuela, da Palestina ao Irão, passando pela questão ambiental, por Timor ou pela Polónia, aqui fica uma possível memória do Mundo em 2007.

Palestina dividida

No dia 13 de Junho, o Hamas hasteou as bandeiras verdes do movimento num dos últimos bastiões da Fatah na Cidade de Gaza, o Quartel General de Segurança Preventiva, concluindo a operação militar que o levou a assumir o controlo total da Faixa de Gaza e a expulsar as forças fiéis ao presidente palestiniano Mahmud Abbas e à Fatah do território. Entretanto, a Fatah tentava assegurar o controlo da Cisjordânia, iniciando uma campanha de detenção de cerca de 1500 militantes do Hamas.

Dois passos cruciais contra o vírus da SIDA

Em Fevereiro e Abril de 2007 foram publicados dois estudos que trazem novas esperanças no combate ao vírus da SIDA. Ambas as descobertas, uma publicada na revista Nature e a outra na revista Cell, centram-se na identificação de proteínas, presentes no sangue humano, capazes de bloquear a ligação do HIV às células do sistema imunitário, em vez das investigações mais clássicas que apenas incidiam na inibição da replicação do vírus, e a partir de substâncias não originárias do sangue humano. Artigo no dossier Balanço Internacional 2007

Líbano: crise sem fim à vista

Beirute amanheceu no dia 23 de Janeiro completamente paralisada por barricadas de pneus em chamas e confrontos entre apoiantes e opositores do primeiro-ministro Fouad Siniora, do Líbano. Uma greve geral foi convocada pelos líderes da oposição, entre eles Hassan Nasrallah, do Hezbollah, com o apoio dos sindicatos, para pedir um novo governo de unidade nacional que tivesse um terço mais um do número de pastas para a oposição, o que lhe daria o poder de veto sobre as decisões governamentais.

Venezuela: Chávez derrotado pela primeira vez nas urnas

O "não" venceu o referendo à reforma constitucional realizado no dia 2 de Dezembro na Venezuela com 51%, contra 49% do "sim" defendido pelo presidente Hugo Chávez. O resultado apanhou muitos desprevenidos, como os jornais Estado de S. Paulo, do Brasil, ou o Público, de Portugal, que optaram por acreditar nas pesquisas à boca da urna e antecipar uma vitória do "sim" que não ocorreu.

Howard, o grande aliado de Bush, é derrotado na Austrália

A derrota do primeiro-ministro John Howard nas eleições da Austrália de 24 de Novembro foi também uma derrota do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e uma demonstração do seu isolamento internacional. Com efeito, Howard era um dos últimos aliados ferrenhos de Bush na guerra do Iraque, e acompanhava até o presidente norte-americano na recusa a assinar o Protocolo de Quioto.

A ameaça das alterações climáticas

O ano de 2006 fez soar o alarme, com o Relatório Stern, mas foi em 2007 que o mundo começou a conviver plenamente com a ameaça das alterações climáticas. Lentamente, a população planetária foi tomando consciência de que a situação é muito grave. Os dados alarmantes foram-se acumulando e as medidas para tentar evitar a catástrofe parecem lentas, demasiado lentas, e ineficazes, demasiado ineficazes.

França: Sarkozy eleito presidente

Nicolas Sarkozy, o candidato da União por um Movimento Popular (UMP), de direita, foi eleito Presidente da República francesa com 53,06% dos votos no dia 6 de Maio, data do segundo turno das eleições presidenciais. Ségolène Royal, a candidata do PS que disputava com ele, obteve 46,94%. A participação nas eleições rondou os 85%.

Paquistão: a sublevação dos advogados

A 9 de Março, o presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, suspendeu o chefe do Supremo Tribunal, Iftikhar Chaudhry. O magistrado não era conhecido por activismo judicial, mas tornara-se muito incómodo pelas sentenças contra o governo num grande número de questões importantes, incluindo a apressada privatização da Karachi Steel Mills, a aceitação de que fosse levada a tribunal a questão dos activistas políticos "desaparecidos" e a atitude de levar a sério as vítimas de violação.

França: greve nos transportes enfrenta Sarkozy

No dia 12 de Novembro, os transportes paralisaram em França, numa greve convocada pelos sindicatos do sector contra a intenção do governo Sarkozy de aumentar o período de descontos necessário para a reforma dos trabalhadores abrangidos por regimes especiais, cerca 1,6 milhão de pessoas. A 18 de Outubro já ocorrera uma primeira greve de 24 horas. A greve, que duraria 10 dias, foi o primeiro confronto social com que se defrontou Sarkozy desde que foi eleito Presidente da República. 

O passeio interminável de Putin

A 2 de Dezembro, o partido de Vladimir Putin voltou a vencer de forma categórica as eleições legislativas russas. Dada a popularidade deste ex-chefe do KGB, nem sequer teriam sido necessárias as inúmeras irregularidades que marcaram o processo eleitoral para conquistar a vitória. O ano na Rússia ficou também marcado pelos ataques à liberdade de expressão, a prisão de membros da oposição, e a proibição de manifestações. Nada que tenha afectado Putin, que se prepara para continuar no poder, deixando a Presidência - já cumpriu dois mandatos, o máximo permitido - e assumindo o cargo de Primeiro Ministro. 

A Austrália vence em Timor

Em Timor, 2007 foi o ano da "consolidação democrática" do golpe de Estado iniciado em 2006 com a conivência da Austrália e contra o "nacionalismo económico" de Mário Alkatiri. Ramos Horta e Xanana Gusmão, os principais aliados da política australiana, conquistaram os lugares de Presidente da República e Primeiro-Ministro. Horta venceu as eleições claramente impondo a primeira derrota nas urnas à Fretilin. A 30 de Junho, Xanana não precisou de ganhar as legislativas para mesmo assim se sentar na cadeira do poder. Entretanto, o criminoso Alfredo Reinado continua a monte, recebendo salário do Estado. 

Grécia: das catástofres naturais à Greve Geral

Manifestações massivas de estudantes, incêndios, eleições, cheias, greve geral. Sem dúvida que a Grécia viveu um ano conturbado. A direita, no poder desde 200 - depois de 11 anos de governos "socialistas" - resisitiu ao desgaste provocado pelos incêndios que vitimaram 66 pessoas e a 16 de Setembro voltou a vencer as eleições legislativas com maioria absoluta. Mas os protestos sociais continuam fortes, e exemplo disso é a greve geral que a 12 de Dezembro paralisou todos os sectores vitais do país. 

Polónia: do obscurantismo ao neoliberalismo feroz

Há muitos anos que a Polónia não tinha tanto destaque internacional. Pena que tenha sido pelos piores motivos: as medidas ultra conservadoras e moralistas dos gémeos Kaczynski povoaram com frequência os jornais no ano de 2007. Frenesim que parece ter terminado com a vitória do partido de centro-direita Plataforma Cívica, a 21 de Outubro. O novo primeiro-ministro, que sucede a Jaroslaw Kaczynski, anunciou a boa nova da retirada das tropas polacas do Iraque, embora a nível económico e social se prepare para uma campanha de privatizações. 

Birmânia: nas ruas contra a ditadura

Já foi chamada de Revolução de Açafrão, da cor das roupas dos monges budistas que estiveram no centro de muitas das mobilizações deste Verão. Infelizmente, os protestos contra o regime que governa a Birmânia (também chamada Myanmar), duramente reprimidos, não tiveram sucesso: apesar de abalada, a ditadura militar que reina no país desde 1962 aguentou-se de pé. Iniciados em Agosto, os protestos contra a decisão do governo, de 15 de Agosto, de extinguir os subsídios aos combustíveis - provocando uma disparada dos preços dos artigos de primeira necessidade - ganharam grande dimensão mas foram esmagados por uma reacção repressiva do regime, que começou a 26 de Setembro.

O Irão e o nuclear

No dia 23 de Março, as forças iranianas capturaram 15 fuzileiros navais britânicos no canal do Shatt al-Arab, na entrada do Golfo Pérsico, provocando uma crise diplomática num momento em que o Conselho de Segurança da ONU se preparava para avaliar novas sanções contra o Irão, devido à sua decisão de manter o programa de enriquecimento de urânio. Teerão afirmou que os fuzileiros confessaram ter violado as suas águas territoriais, mas o governo britânico afirmava que os seus marines estavam em águas territoriais do Iraque.