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Alterações climáticas e elites suicidas

Se o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas finalmente censurar o aviso de que o capitalismo é insustentável, ou se os governos se recusarem a cumprir este diagnóstico, estaríamos a caminhar para uma guerra de uma minoria contra toda a vida atual e futura. Artigo de Manuel Casal Lodeiro.
Foto de John Englart/Flickr

As fugas de informação efetuadas no passado mês de junho sobre o próximo relatório do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), por parte da comunidade científica responsável pela sua preparação, podem conduzir ao acontecimento político mais importante, à escala internacional, pelo menos desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Caso alguém considerar isto um exagero, deve parar por um momento e considerar o que irá acontecer quando a versão oficial do relatório for publicada. Embora tenha havido vazamentos em relatórios anteriores, as implicações do que desta vez foi revelado, e a rapidez com que se estão a espalhar as notícias a respeito —o que dificultará muito abafar o caso—, resultam numa incógnita cuja resolução, aquando a AR6 for tornado público, vai-nos colocar numa encruzilhada histórica.

Basicamente, duas coisas podem acontecer quando as várias partes deste Sexto Relatório de Avaliação vierem à luz, o que será depois do verão de 2022. A primeira seria que as versões finais e, sobretudo, o “Relatório de Síntese” mantenham a mensagem que foi divulgada pelos grupos de trabalho II (impactos das alterações climáticas, dos quais o resumo foi divulgado) e III (mitigação, de momento, pois apenas um capítulo desta parte do relatório viu à luz). A mensagem é que, para evitar um caos climático que levará à extinção da nossa espécie (ou de grande parte dela), é essencial abandonar o atual sistema socioeconómico que obriga as economias a crescerem continuamente. Por outras palavras, acabar com o capitalismo. Chamaremos a esta possibilidade o cenário Integridade.

O outro cenário, Censura, ocorreria se os responsáveis do IPCC que têm a última palavra na elaboração das conclusões —as que têm, na prática, relevância política e mediática — optassem por inclinar-se para as visões mais otimistas e enfeitar o resumo para assegurar a necessária aprovação unânime dos governos, ou amputar diretamente as conclusões mais incómodas, de modo a esconder, eliminar ou diluir essa mensagem, absolvendo assim o sistema capitalista e a sua dependência do crescimento. As fugas de informação produzidas procuram, precisamente, impedir este cenário, que atenue a mensagem radicalmente nova contida nas versões atuais do AR6, e que numerosos meios de comunicação social sublinharam (France Presse, CTXT, The Guardian, TSF, Veja, Al Jazeera, Der Spiegel, etc.). O que aconteceu com relatórios anteriores é prova suficiente de que existem pressões governamentais sobre os ditos Summaries for Policymakers, que só podem ser impedidas através da divulgação prévia dos documentos originais produzidos pelos cientistas. “Vazamos o relatório porque os governos —pressionados e subornados pela indústria dos combustíveis fósseis e outras, protegendo a sua ideologia falhada e evitando a responsabilização— já têm alterado outras vezes as conclusões antes da divulgação dos relatórios oficiais. Divulgamos para mostrar que cientistas estão prontos a desobedecer e a correr riscos pessoais para informar o público”, explicaram as pessoas que anteciparam o conteúdo do relatório.

A segunda vaga de vazamentos, revelados pela Greenpeace UK e difundidos pela BBC, demonstra que este temor estava plenamente justificado: nada menos que 32.000 observações enviadas por governos e grandes companhias procuraram diluir as duras conclusões que foram reveladas nos vazamentos feitos no verão.

Se o IPCC ceder a estas pressões e publicar no próximo ano algo nitidamente diferente do que os próprios autores têm agora divulgado, eliminando as menções de parar o crescimento e abandonar o capitalismo, as consequências políticas a curto prazo podem parecer pequenas, uma vez que dará aos governos do mundo o alívio de uma certa espécie de carta branca para continuarem a fazer o que vêm fazendo, ou seja, para todos os efeitos práticos… nada. Pelos menos, nada do que seria necessário para parar a nossa doentia viagem para o abismo climático. Contudo, se isto acontecesse, causar-se-ia uma ruptura irreparável: o escândalo destruiria definitivamente a credibilidade do IPCC enquanto organismo encarregado de traçar o rumo para salvar a nossa espécie do caos climático provocado por ela mesma. Se os membros do grupo encarregado de redigir o relatório de síntese final, dirigido à sociedade e aos governos, ou os economistas do grupo de trabalho III —a grande maioria dos quais pertence à escola neoclássica hegemónica, e como tais, não cientistas— optarem por abafar esta incómoda mensagem científica, elaborada pelos e pelas melhores especialistas no clima, terão declarado de facto uma guerra total contra a humanidade, da qual também eles fazem parte, e tê-lo-ão feito com a aprovação e a responsabilidade última dos governos que os encarregaram destes relatórios e que se descobriu agora terem pressionado o IPCC.

Se, por outro lado, as e os responsáveis pela elaboração da versão pública do Sexto Relatório decidirem cumprir fielmente a sua missão, salvarem a sua credibilidade (e de passagem a humanidade) e, sem temerem as consequências políticas, mantiverem com contundência e clareza a sentença de morte do capitalismo e o seu funcionamento canceroso biocida, então enfrentaremos uma segunda bifurcação decisiva no nosso futuro imediato. Nessa altura, poderia ser que os vários governos aceitassem o veredicto e demonstrassem que se preocupam mais com a sobrevivência dos seus cidadãos do que com a sobrevivência do capitalismo (cenário IntegridadeResponsabilidade); ou se recusassem a cumpri-lo, com qualquer uma das habituais desculpas (“Temos de estudar o assunto mais a fundo… São necessários mais dados… Não há um consenso absoluto…”) ou alguma de nova cunhagem concebida para manterem a sua procrastinação assassina. Caso este último acontecer (IntegridadeTraição), posicionar-se-iam como cúmplices da nossa destruição e contra o nosso futuro.

Os responsáveis pelos vazamentos resumiram a mensagem crucial cuja transmissão oficial à sociedade estará em jogo no próximo ano: “Devemos abandonar o crescimento económico, que está na base do capitalismo”. Explicam também que o facto de “milhares de cientistas”, um grupo demográfico na sua maior parte privilegiado, de uma certa idade e moderado, “concordarem em algo tão aparentemente radical demonstra a gravidade do momento atual”. Além disso, acusam os que estão no poder de serem os verdadeiros extremistas, guiados pelo “culto da morte” da economia neoliberal. “Devastarão a Terra até não ser mais do que fogo e cinzas, se não os detivermos”.

Assim, tanto no cenário Censura como no cenário IntegridadeTraição, estaríamos perante uma guerra não declarada, mas global, do capitalismo contra a vida (toda a vida, não apenas a humana). Uma situação que, em realidade, tem vindo a decorrer há décadas. Se, por outro lado, os acontecimentos seguirem o rumo IntegridadeResponsabilidade, estaremos perante outro acontecimento histórico, embora completamente oposto, algo mais semelhante a um armistício entre a civilização humana e a biosfera. Seria a confirmação do fim do capitalismo — em realidade condenado, pelo menos desde a década de 70, mesmo que os seus paladinos não o quisessem reconhecer — e, consequentemente, marcaria o início entusiasmante de uma fase de transição para outra pluralidade de modelos socioeconómicos integrados nos limites planetários; idealmente, muito mais justos e igualitários. Sem dúvida, o mais importante e belo desafio que poderia ser concebido nas nossas sociedades.

O fim deste momento crucial aberto pelas IPCC-leaks deveria, portanto, envolver a implementação imediata de um novo tipo de economia, que poderia designar-se transitória ou de emergência (economia de guerra seria impróprio, atendendo ao significado pacífico que acabo de descrever), uma desescalada económica liderada pelos Estados, com um elevado grau de controlo e intervenção pública —ao nível do que vimos ser perfeitamente possível não só em tempos de guerra, mas também perante uma eventual ameaça como a covid-19 (e, claramente, o caos climático é uma ameaça à nossa sobrevivência a muito mais alto nível)— que possibilite a redução das economias de uma forma controlada sem as quebrar.

Se isto não acontecer, o contrato social que liga governantes e governados terá sido irremediavelmente quebrado. A partir desse momento, a cidadania ciente destes factos muito graves —e aqui os meios de comunicação social desempenharão um papel crucial— teria o legítimo direito de autodefesa, rebelião e desobediência para se recusar a colaborar, no seu próprio extermínio, com um governo que se teria declarado o seu inimigo, que teria lançado um golpe de Estado contra o futuro para se tornar o braço armado das elites suicidas dispostas a agarrarem-se ao seu poder a fim de flutuarem sobre a merda em chamas de uma biosfera devastada.

É claro que não podemos ser tão ingénuos a ponto de esperar que estas elites aceitem de boa vontade o único cenário que seria positivo para a espécie, IntegridadeResponsabilidade, dado que nos orientaria para um novo modelo social em que necessariamente perderiam poder, em maior ou menor grau, e onde teriam pouco mais a ganhar do que a sobrevivência e a absolvição da história. No entanto, também não podem esperar que a sociedade civil permaneça impassível quando ouvirmos (sublinho novamente: se os meios de comunicação social cumprirem a sua função vital de transmitir factos) a declaração de guerra que qualquer outro cenário implicaria. Conduzir-nos-ia, inevitavelmente, a algo que só poderia ser descrito como uma guerra civil planetária; uma louca guerra de agressão por uma minoria humana do presente contra toda a biosfera atual e, acima de tudo, contra o nosso futuro. Os nossos governantes, apanhados no meio, mas com alavancas suficientes nas suas mãos para poderem declarar uma verdadeira emergência climática, com todas as consequências, levando a um emagrecimento metabólico de emergência que mantenha a população segura e, simultaneamente, garanta as suas necessidades básicas atuais e futuras —isto só será possível através de algum tipo de economia planificada, ecosocialista ou o que quer que seja—; deparar-se-ão subitamente com o momento mais decisivo das suas vidas, graças aos documentos heréticos vazados por um punhado de cientistas.

Nessa altura, todo e qualquer membro dum governo de qualquer país será forçado a demonstrar inequivocamente a sua lealdade primordial: à vida e à dura realidade demonstrada pela ciência, ou à negação capitalista, ecocida e genocida. Nos meses que nos esperam até esse momento decisivo, teremos a oportunidade de dar todos os passos necessários para evitar esta guerra ou, se for finalmente inevitável, de trazer para o nosso lado governos, partidos políticos, meios de comunicação, sindicatos, confissões religiosas e todo o tipo de atores sociais, bem como de coordenar a resistência à escala internacional.

A COP26, convocada para novembro próximo em Glasgow, promete revelar qual dos cenários políticos acima descritos será o mais provável, e quais as posturas assumidas pelos distintos atores no decorrer das preparações de este dia D, quando o Sexto Relatório definitivo e o seu decisivo Resumo para os decisores políticos forem publicados. A segunda metade de 2022 vai, sem dúvida, marcar o período mais crucial da nossa geração, e possivelmente o mais importante de toda a história da nossa espécie. Agosto de 2021 marcou o início da contagem decrescente e colocou em palco todos os atores deste drama planetário. A primeira cena foi protagonizada por um punhado de corajosos cientistas de Scientist Rebellion. É tempo de começarem a atuar todos os outros: as elites capitalistas e os seus meios de comunicação, os governos, os meios de comunicação públicos, toda a sociedade assim como os outros membros do IPCC. De como decorra a trama desta peça, depende o desfecho: a nossa sobrevivência in extremis ou a nossa trágica autodestruição.


Manuel Casal Lodeiro é pai, activista e divulgador. Autor de A esquerda ante o colapso da civilización industrial e Nós, os detritívoros. Coordinador da Guía para o descenso enerxético, da revista multilingue 15/15\15 para uma nova civilização e do Instituto Resiliencia que faz parte do RCE-Galiza reconhecido pela Universidade das Nações Unidas. Texto publicado originalmente em Ctxt.es. Traduzido por Ramom Flores d'as Seixas e revisto por Vítor Lima em versão atualizada pelo autor.

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