Confrontado esta quarta-feira no parlamento sobre o prémio de 62 milhões de euros que a Caixa Geral de Depósitos atribuiu ao empresário Manuel Fino, José Sócrates remeteu as explicações para o ministro das finanças que por sua vez as remeteu para a Caixa Geral de Depósitos. À saída do plenário e perante a insistência dos jornalistas, Sócrates afirmou, visivelmente atrapalhado, que só tomou conhecimento do assunto há um dia. Vê os vídeos do debate
No debate quinzenal com o primeiro-ministro, Bloco de Esquerda e PCP confrontaram José Sócrates com uma operação da Caixa Geral de Depósitos (CGD) que atribuiu de bandeja 62 milhões de euros ao empresário Manuel Fino. Na altura, Manuel Fino quis vender acções da Cimpor à CGD para saldar uma dívida com o banco. Mas o banco público comprou cada acção da Cimpor na posse de Manuel Pinho por mais 25% do que cada uma delas valia. No total, o empresário encaixou 62 milhões de euros a mais, tendo a Caixa contabilizado o mesmo valor como prejuízo. Mas, pior ainda, a Caixa deu um segundo prémio ao empresário: uma "opção de recompra" das acções que vendeu, a qualquer momento, nos próximos três anos.
José Sócrates começou por dizer que o governo não se pronunciava sobre actos de gestão da CGD, mas logo remeteu mais explicações para o Ministro das Finanças. Teixeira dos Santos afirmou que se tratava de um acto legítimo de gestão da CGD e que o governo não tinha que dar orientações sobre isso. Pelo meio, adiantou que a decisão permitu à CGD evitar um prejuízo de 80 milhões de euros no ano passado sem explicar nem como nem porquê.
Francisco Louçã sublinhou que os 62 milhões de euros são dinheiro público que dava para pagar 100 mil salários. E censurou a bonomia de José Sócrates para com banqueiros e grandes empresários. "O governo avalizou 5 mil milhões de euros para bancos que facturaram quatro mil milhões de euros de lucro por dia e que agora querem despedir dois mil trabalhadores com contrato a prazo". E prosseguiu, denunciando os milionários, como Américo Amorim, que têm lucros e despedem trabalhadores. "O senhor a nada responde. Nem com 62 milhões de euros a sair à sua frente o senhor primeiro-ministro responde", concluiu Louçã.
"Era só o que faltava se isso acontecesse. A CGD é um banco e a administração da Caixa tem todas as competências para poder decidir quanto aos negócios em privado que faz, em benefício, naturalmente, da própria CGD", argumentou Sócrates
À saída do plenário, os jornalistas confrontaram novamente Sócrates com a atribuição do prémio a Manuel Fino. O primeiro-ministro, visivelmente atrapalhado, desdobrou-se em explicações fugazes. "Não tenho informações sobre isso", "não conheço sequer", "não sei, não acompanho" , foram as expressões balbuciadas por Sócrates, antes de precisar: "só tive conhecimento do assunto ontem".
Sócrates remeteu mais explicações para a CGD, tendo-se notado o seu silêncio quando um dos jornalistas afirmou que a CGD não dava informações alegando sigilo bancário. O primeiro-ministro adiantou ainda que o Ministério das Finanças pediu informações à CGD, que já teriam chegado, sem adiantar o seu conteúdo. "Talvez fosse mais leal os senhores jornalistas esperarem pelas explicações da CGD" e "não estarem a reproduzir os argumentos da oposição", protestou o primeiro-ministro.
Apesar de Sócrates garantir que só teve conhecimento há um dia atrás, a notíca sobre o prémio atribuído pela CGD a Manuel Fino já foi divulgada pelo Jornal de Negócios há pelo menos uma semana. Até o deputado Vera Jardim já endereçou, há cinco dias atrás, um requerimento ao governo pedindo explicações sobre o assunto.
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