Mistério: quem afastou Moura Guedes?

05 de setembro 2009 - 13:20
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Moura Guedes foi tirada do ar, mas ninguém assume a responsabilidadeDepois de a Prisa, grupo espanhol proprietário da TVI ter negado oficialmente qualquer interferência na decisão de suspender o Jornal Nacional de Sexta, apresentado por Manuela Moura Guedes, e de ter atribuído as responsabilidades à Média Capital, chegou-se à situação surreal de ninguém assumir a autoria da decisão. O telejornal de sexta foi apresentado por uma jornalista da TVI24, mas levou ao ar a anunciada peça sobre o Freeport. Cavaco Silva diz-se preocupado com eventuais lesões à liberdade de expressão.

 

A anunciada reportagem sobre o caso Freeport abriu o telejornal da TVI de sexta, assinada por Manuela Moura Guedes e outras duas jornalistas, mas apresentada por Patrícia Matos, uma estagiária. A reportagem afirma que há mais um primo de José Sócrates alegadamente envolvido no caso do outlet de Alcochete - José Paulo Bernardo Pinto de Sousa, mais conhecido por ‘Bernardo' ou ‘Gordo'.

Entretanto, cruzam-se as interpretações sobre os motivos que terão levado à suspensão do jornal. Para Marcelo Rebelo de Sousa, a decisão teve como objectivo agradar o primeiro-ministro, José Sócrates: "Não tenho dúvidas de que a decisão da administração da TVI foi nitidamente para agradar ao primeiro-ministro, porventura na pior altura". E recordou o caso de 2004, quando ele próprio foi afastado da estação de Queluz, considerando que, então, "já por duas vezes", a administração do canal teria tentado agradar a dois governos diferentes, "sempre nas alturas erradas, acabando por prejudicá-los".

Por seu lado, o dirigente do PS António Vitorino considerou que o caso prejudica os socialistas, a poucas semanas das eleições legislativas. Ao Diário de Notícias, dirigentes do PS afirmam mesmo que tratou de uma cilada para prejudicar o partido do governo: "É como nos crimes, tem que se procurar quem é que beneficia com o crime para encontrar o criminoso", diz Renato Sampaio, líder da federação do PS do Porto. "Houve aqui uma montagem para criar um facto que prejudica o PS".

Na tarde desta sexta, Cavaco Silva comentou o assunto: "A liberdade de expressão e de informação foi um bem precioso que conquistámos no 25 de Abril e penso que todos os portugueses desejam que seja preservado", afirmou. Questionado insistentemente sobre se foi posto em causa esse "bem precioso", Cavaco afirmou: "Espero que não, espero que não".

Noo debate de quinta-feira com Jerónimo de Sousa, Francisco Louçã destacou a coincidência do cancelamento do Jornal de Sexta com o contexto de eleições legislativas: "O primeiro-ministro disse que não há interferências, mas algumas ocorreram". E sublinhou: "O critério da liberdade de informação tem de estar acima de qualquer governo", recordando que foi o governo de coligação entre PSD e CDS-PP a protagonizar o "primeiro grande episódio de asfixia democrática" - o afastamento de Marcelo Rebelo de Sousa do seu espaço de comentários na TVI.