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Depois de Copenhaga, Cochabamba

Marisa Matias encerrou o encontro internacional sobre alterações climáticas. Foto Paulete MatosNo encerramento do encontro internacional "O Clima farto de nós?", Lothar Bisky disse que a cimeira dos povos convocada por Evo Morales é o grande desafio ambiental deste ano. Louçã criticou as privatizações da REN, EDP e GALP previstas no PEC.

 

Não podemos melhorar o mundo se não o salvarmos, mas podemos salvar o mundo melhorando-o
 
Artigo de Helena de Carvalho e Nelson Peralta
 
A cimeira de Copenhaga foi o fiasco a nível do que se esperava do sistema político e decisório, mas as organizações não governamentais e os movimentos sociais provaram que é possível uma união pelo clima, "uma união da Esquerda que nunca tinha agido em conjunto na área ambiental", defendeu Tom Kucharz, dos Ecologistas en Accion, no primeiro painel da tarde, sobre os movimentos sociais ambientais. Ficou claro que precisamos de uma mudança de paradigma, acompanhada de uma transição económica e que já começou a haver uma radicalização do discurso em relação ao ambiente.


A solução do problema ambiental passa, segundo o ecologista, por um conjunto de medidas que combinem a utilização de novos recursos, taxas sobre a transportação aérea e a protecção do comércio justo.
Mas o alerta para a questão das alterações climáticas não começou em Copenhaga, mas nos anos 80, afirmou Carlos Teixeira, Vice-Presidente da Liga para a Protecção da Natureza (LPN). A questão ambiental ganhou um novo ímpeto com a convenção das Nações Unidas, e causou, paralelamente, um reflexo de preocupações por cair no perigo de ser explorada incorrectamente e de trazer problemas a nível da segurança alimentar e da biodiversidade. "O preço associado a muitos produtos pode sofrer grandes aumentos e intensificar tudo aquilo que são diferenças sociais", denunciou Carlos Teixeira.
 
Para haver justiça social precisamos de "uma mudança que só pode ser feita pelos movimentos sociais, explicou David Rovics, músico norte-americano que dá voz ao movimento social climático. A mobilização numa frente comum é necessária e surge como o resultado de uma consciencialização séria do problema: "o clima não espera pelo socialismo", disse Miguel Portas durante o debate. A questão da crise ambiental não pode ser dissociada da crise económica, "e temos de ser capazes de potenciar as políticas financeiras em função do combate às alterações climáticas. Segundo o eurodeputado, a esquerda tem que apresentar as suas propostas apesar do Tratado de Lisboa e não vê-lo como um limite à nossa acção: "temos de agir e criar políticas financeiras que reúnam fundos para combater as alterações climáticas e a pobreza".
 
As consequências sociais e económicas do problema climático não podem ser subestimadas. E nem os seus actores. Na sessão de encerramento, Lothar Bisky, presidente do grupo da GUE/NGL e da Esquerda Europeia lembrou que já sabemos com o que podemos contar das negociações de Copenhaga e do papel da UE como mediador, e ainda do Presidente da CE, mais conhecido no círculo institucional pelo "homem top do clima", mas que de top nas negociações não teve nada. Depois de Copenhaga, já não podemos esperar um acordo vinculativo e justo em Cancun, mas podemos esperar por uma resposta da Esquerda em Cochabamba. Lothar Bisky falou da cimeira dos povos como o grande desafio ambiental deste ano, onde os movimentos ambientais e de esquerda podem inverter a tendência negativa: "não podemos esperar por um acordo internacional no México, mas temos de nos focar numa mudança estrutural do sistema climático e de promover as energias renováveis". Para Bisky, não podemos melhorar o mundo se não o salvarmos, mas podemos salvar o mundo melhorando-o.
 
Em Portugal, as consequências do Plano de Estabilidade e Crescimento tem uma implicação directa na política energética. Francisco Louçã, criticou o Plano de Estabilidade e Crescimento, nomeadamente nas políticas energéticas como são os casos das privatizações da REN, EDP e GALP. Estas opções do Governo aceleram a injustiça social a nível da distribuição da riqueza, atribuindo a alguns aquilo que é de todos. Os mais pobres são sempre os prejudicados em prol do negócio e do lucro. Segundo Louçã, os cortes no apoio social no desemprego contrastam com os exorbitantes salários como de Paulo Azevedo, quatro vezes superior ao de Barack Obama, e de Rui Pedro Soares - administrador da PT - oito vezes superior ao do líder norte-americano. Francisco Louçã apelou a uma campanha social com a apresentação de alternativas emergentes de uma esquerda laica, republicana, socialista e capaz de lutar contra a injustiça e o capitalismo selvagem e ao assalto ao bem público.
 
Alternativas essas que podem ser potenciadas em Portugal, com a enorme riqueza natural existente de recursos eólicos, solares e hidráulicos. Soren Rasmussen, do partido da Aliança Vermelha Verde, da Dinamarca, considera que estas potencialidades não são aproveitadas no nosso país: " Portugal tem fontes de energia renovável que ainda não são exploradas suficientemente, o sol e o vento são recursos públicos que devem ser potenciados".
 
Há que levar a questão ambiental para o centro do debate político, só assim se conseguirá a mudança e a justiça social. "A crise ambiental é a crise da nossa geração e faz parte da mesma família que a crise económica e social, e faz também parte do património da Esquerda. Temos toda a responsabilidade de lutar pela mudança social e de ajudar os mais fracos, os mais pobres, os mais vulneráveis, que são os mais afectados pela crise. Tem de haver uma nova dimensão social com uma diferente redistribuição da riqueza e dos recursos. Tem de haver uma mudança social!", concluiu Marisa Matias.
 
Que investigação climática se faz em Portugal?
 
Portugal é já o segundo maior produtor da energia eólica, só suplantado pela Dinamarca, assegura Ana Estanqueiro, investigadora do Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), que abordou o papel das renováveis na geração de electricidade. Apesar da elevada capacidade produtiva máxima, o contributo das renováveis no consumo energético está bastante aquém das possibilidades, uma vez que as torres eólicas não estão sempre a produzir à potência máxima.
Segundo Ana Estanqueiro, o desajustamento entre produção e consumo energético nos dias de maior vento e chuva e a ausência de mecanismos de aproveitamento dessa energia leva a que estejamos a entregar energia à rede espanhola a custo zero. "A solução para o correcto aproveitamento passa pela optimização dos sistemas electroprodutores".
De acordo com a investigadora, já é possível gerir um sistema electroprodutor com incorporação de renováveis flutuantes na ordem dos 70% (com 20 a 25% de eólicas). Contudo, acima dos 30% há desafios adicionais, não técnicos, mas económicos. "Está o mercado ibérico preparado para a rentabilizar? O sistema térmico já instalado aceitará reduzir a sua produção? Será que ainda temos um sistema atractivo para novos investimentos?" Para além destas questões temos ainda que responder ao grande desafio de "passar consumos de ponta para consumos de vazio", ou seja, reorganizar o consumo energético para horários de menor procura.
 
Já a energia solar em Portugal está bastante abaixo das metas traçadas, adianta Farinha Mendes, também investigador do LNEG. O investigador considera positiva a obrigatoriedade de inclusão de painéis solares nos novos edifícios e o financiamento estatal a 50% que lhes foi concedido. Admite, no entanto, que o fim desta política leva a que muitas empresas que fizeram investimentos no solar a contar com esse apoio irão agora atravessar dificuldades.
Farinha Mendes considera ainda que os edifícios devem ser construídos tendo em conta os conceitos bioclimáticos. É importante que produzam toda a energia que consomem, alcançando o balanço energético nulo.
Para Farinha Mendes, "o pior que se pode fazer com o petróleo que resta é queimá-lo". A melhor utilidade a dar ao petróleo é produzir plásticos para recolher a energia solar com alto rendimento. É essencial "alterar os modos de vida e de consumo, não podemos continuar a consumir como se nada acontecesse. Não há energias renováveis que cheguem se não houver do lado da procura a correspondente contrapartida: redução do consumo e aumento da eficiência energética".
 
O sol é a fábrica da agricultura biológica, afirma António Lopes da AGROBIO, que apresentou os projectos de hortas urbanas promovidas pela sua cooperativa. Defendeu uma agricultura amiga do ambiente e garantiu que as formas de produção biológicas têm capacidade para alimentar o planeta. Era aliás esta a agricultura que vigorou até à I Guerra Mundial, a partir da qual foram introduzidos fertilizantes, adubos e pesticidas como o DDT que ainda hoje tem impacto no ambiente.

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