Banco Mundial aponta biocombustíveis como a causa da crise alimentar

04 de julho 2008 - 15:32
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Em Abril, Sócrates acusava Louçã de estar "completamente enganado" ao ligar os biocombustíveis à crise alimentar. Foto jurvetson/Flickr Um relatório confidencial do Banco Mundial diz que os biocombustíveis fizeram o preço dos bens alimentares disparar em 75% do seu valor. O estudo contradiz os números apresentados pela Casa Branca, que estimava em apenas 3% o seu impacto nos preços dos bens alimentares.

 

O jornal inglês Guardian divulga agora este relatório que foi terminado em Abril e mantido em segredo, aparentemente para não colocar o Banco Mundial em rota de colisão com George W. Bush nesta matéria. Na próxima semana, os países do G8 voltam a encontrar-se, com a crise alimentar na agenda, da reunião de Hokkaido, no Japão.



A divulgação deste relatório acontece também em vésperas de ser anunciada a conclusão do relatório do governo inglês sobre o impacto dos biocombustíveis. Mas já se sabe que o "relatório Gallagher" vai alertar para a necessidade de inverter a aposta nos biocombustíveis na estratégia de combate ao aquecimento global. As vantagens do etanol e do biodiesel, que tinham um papel determinante no plano de Gordon Brown, serão postas em causa pelo novo relatório, segundo avança igualmente o Guardian.



A meta europeia de utilizar 10% de biocombustíveis em 2020 está muito perto de ser abandonada, pelo efeito que terá no preço dos alimentos. O relatório do Banco Mundial diz que "sem o aumento dos biocombustíveis, os stocks de trigo e milho não teriam baixado tanto, e a subida dos preços devido a outros factores teria sido moderada".



O cabaz de alimentos analisado pelo estudo mostra um aumento de 140% nos preços entre 2002 e o passado mês de Fevereiro. Enquanto a subida dos preços da energia e dos fertilizantes contribuiu com 15% para o aumento do cabaz, os biocombustíveis são responsáveis por 75% desse aumento.



A influência dos bioocombustíveis na crise alimentar é medida neste relatório do Banco Mundial por três factores. O primeiro é o desvio da produção dos cereais para o combustível, e cerca de um terço do milho produzido nos EUA e metade os óleos vegetais têm hoje esse destino. Em segundo lugar, os agricultores foram encorajados pelos governos a prepararem a terra para a produção dos biocombustíveis. E por último, a especulação financeira sobre estes produtos fez disparar os seus preços.



Ao ligar estes três factores, o estudo dirigido por Don Mitchell - um dos economistas de topo no Banco Mundial - fez o que até então nenhum outro tinha feito, analisando a tendência mês a mês durante a subida em flecha dos preços. O relatório diz ainda que o combustível produzido com a cana de açúcar não deu origem a um impacto tão elevado no preço dos alimentos como os das outros cereais.

O facto dos biocombustíveis serem a primeira causa da crise alimentar já tinha sido apontado por Francisco Louçã num debate com José Sócrates a 11 de Abril. O primeiro-ministro respondeu que Louçã estava enganado ao ligar as duas coisas, classificando essa ligação de "grande precipitação". Sócrates garantiu ainda que "os biocombustíveis são a solução para a redução das emissões do CO2", uma ideia que a realidade provou estar totalmente errada, como já era evidente em Abril.

 


Sócrates não tem razão sobre Biocombustíveis

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