Xenofobia na Faculdade de Direito: Universidade abre processo disciplinar

29 de abril 2019 - 22:23

Um grupo satírico da Faculdade de Direito de Lisboa oferecia pedras para os estudantes atirarem “a um ‘zuca’ que passou à frente no mestrado”. Protesto dos estudantes brasileiros levaram a universidade a abrir processo disciplinar.

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Cartaz xenófobo na Faculdade de Direito
Foto publicada por Duduca/Twitter

No primeiro dia da campanha eleitoral para a Associação de Estudantes da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, não foram só as listas candidatas a terem banca montada à entrada da universidade. O grupo satírico Tertúlia Libertas também tem o seu espaço reservado, que incluía um caixote com pedras no seu interior e um cartaz onde se lia ”Grátis se for para atirar a um zuca que passou à frente no mestrado."

Alguns estudantes brasileiros protestaram com os membros da tertúlia e partilharam as imagens nas redes sociais. Uma das primeiras foi Flora Almeida, que contou à agência Lusa como reagiu: “Quando eu fui questionar disseram que era uma piada. E eu respondi que piada é só quando todos riem. Eles falaram que é normal, que ‘mexem’ com todo o mundo, que o ano passado foram os muçulmanos o alvo das piadas. Para mim é muito estranho a faculdade permitir que um grupo que faz sátira desse tipo se reúna dentro da faculdade ou que monte um ‘stand’ no átrio, dado o momento que estamos a viver. Acho que esse tipo de piada não é tolerável, pode ser uma faísca para uma coisa muito maior. Estamos a viver tempos de extremos. Só cheguei às duas da tarde, mas eles já lá estavam desde manhã e ninguém tinha feito nada”.

Após as queixas dos estudantes brasileiros, “a direção da faculdade foi falar com eles, tiraram, a princípio, aquele papel, que falava dos ‘zucas’, mas depois substituíram por outro com ‘cacique’. Para nós cacique é índio. Depois retiraram tudo”, prosseguiu Flora Almeida.

Ao Diário de Notícias, uma porta-voz do grupo insiste que a intenção era “fazer uma piada” sobre “uma situação de privilégio de que os alunos brasileiros de mestrado auferem e nós quisemos gozar com quem discrimina os brasileiros, não com os brasileiros. Mas fomos mal entendidos e a coisa tomou proporções que não esperávamos."

Reitor da Universidade quer "punir exemplarmente os responsáveis"

A reação oficial da direção da Faculdade de Direito surgiu em forma de comunicado a apelar ao “respeito por todos os alunos, assim como com a respetiva diversidade cultural, étnica ou de proveniência” e a afirmar que não serão toleradas “quaisquer ações ofensivas relativamente a alunos da Faculdade”.

O reitor da Universidade de Lisboa foi mais duro, com o anúncio da abertura de um processo disciplinar. "Não é admissível na Universidade de Lisboa nenhum comportamento de xenofobia e serão tomadas posições para punir exemplarmente os responsáveis", afirmou o reitor António Cruz Serra à agência Lusa.

O acesso aos mestrados na Faculdade de Direito é feito com base nas notas da licenciatura, o que tem causado alguma “tensão”, admitiu ao DN a subdiretora da faculdade. Como “as notas nunca são muito elevadas na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa”, referiu Paula Vaz Freire, os alunos brasileiros têm mais facilidade de entrar nos cursos de mestrado por terem médias mais elevadas, acabando por “tapar” as vagas aos restantes. A responsável acrescentou que “ainda este ano” conta resolver este problema identificado nos concursos dos últimos meses.

Esse descontentamento também é sentido por parte da counidade de estudantes vindos do Brasil. “Quando portugueses e brasileiros participam no mesmo tipo de seleção, acontece que os brasileiros acabam por ter notas mais altas. Entendo a insatisfação, mas não é com os brasileiros que têm que se revoltar, é com o processo de seleção”, afirmou Flora Almeida à Lusa.

A presidente do Núcleo de estudos Luso-Brasileiros, que também representa a comunidade na Faculdade de Direito, confirmou ao Diário de Notícias que "de há dois anos para cá que se sente um aumento da discriminação, não só de alunos, como também de professores." "Mas, haja que justificação houver, a xenofobia nunca tem piada”, remata Elizabeth Lima.