Um partido aberto, democrático e plural de Esquerda - é isto que distingue e deve continuar a distinguir o BE

27 de junho 2011 - 13:27

Contributo de Filipa Vala

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O meu nome é Filipa Vala e não sou militante, nem filiada no BE, mas sou apoiante do "projecto Bloco de Esquerda" e foi por isso que resolvi responder a este convite - a minha visão pode ser útil porque eu estou-me marimbando para os vossos dramas internos;

Este convite do BE não me surpreende dentro daquilo que considero ser a essência do "projecto BE": um partido aberto, democrático e plural de Esquerda. Não há nenhum outro partido com estas características na Assembleia da República actualmente: é isto que distingue o Bloco e é isto que vale a pena manter vivo. Estas características significam também que este tipo de convite à participação na discussão não é particularmente útil agora, por causa do chamado "desaire eleitoral", ele é sempre útil no contexto do "projecto BE" e é, por isso, um convite que deveria ser feito regularmente.

Queria fazer duas observações que poderão parecer triviais: primeiro, o programa do BE de 2011 é muito superior quer ao de 2009, quer ao de 2005; segundo, a capacidade de Francisco Louçã se explicar em termos passíveis de serem compreendidos pela maioria do eleitorado foi muito superior agora.

Então o que é que mudou? Em 2005 e em 2009 o BE tinha objectivos "porta-bandeira" muito concretos: a despenalização do aborto e a legalização dos casamentos do mesmo género. Isto pode parecer pouco mas é muito - são objectivos concretos que remetem directamente para valores de igualdade e de justiça. Além disso, em 2005 e em 2009 o BE não se apresentou como disponível para ser parte de uma alternativa governativa.

Em 2011 a situação do país é terrivelmente complexa e o objectivo do BE, pela primeira vez, é ser parte de uma alternativa governativa que recusa o FEEF enquanto solução para a crise económica. Torna-se necessário explicar como é que isso pode ser concretizado - não há uma "linha" que resuma esse "como".

O debate decorreu da forma mais incrivelmente tendenciosa nos media: à direita - incluindo o PS - bastou dizer "é preciso fazer sacrifícios para pôr a economia a crescer gerando emprego". Este contra-senso foi "tolerado" pela maioria dos jornalistas que se absteve de questionar (e isto apesar do infeliz exemplo da Grécia) precisamente o "como" que é subjacente à lógica neo-liberal. Coube, portanto, à esquerda - BE e CDU - desmontar, por um lado, aquela proposição e, por outro, propor alternativas concretas. Como reacção - e sem sequer ser discutida - a alternativa da esquerda foi classificada rotineiramente como "não exequível", "pouco séria" e "utópica" pelos comentadores de horário nobre; a explicação do "como" da alternativa de esquerda não foi alvo de um único artigo.

Para a opinião pública a escolha eleitoral pareceu, portanto, estar reduzida ao FEEF com mudança de governo ou ao FEEF sem mudança de governo.

Em 2009 o BE beneficiou provavelmente de um castigo a Sócrates do "eleitorado de esquerda" do PS. Acontece que, desse eleitorado, muita gente já viveu sob o FMI e sob a AD: esse eleitorado preferiu votar no PS de Sócrates agora, a correr o risco de juntar o inútil (FEEF) ao desagradável (PSD+CDS).

O boicote mediático não é de espantar sabendo quem manda nos media. A CDU "salvou-se" nestas eleições porque tem um eleitorado fixo e antigo - o BE é um partido novo e em construção.

É importante que o BE aprenda com estas eleições: que o BE aprenda que os media poderão até apoiar causas do BE de carácter progressista, mas nunca estarão disponíveis para uma cobertura isenta assim que o BE se assumir como parte de uma alternativa governativa.

Dito isto, algumas propostas:

1. Uma vez que com este governo a situação económica se vai agravar, e que, portanto, um dos objectivos do BE vai continuar a ser bater-se por uma alternativa de gestão e solução da crise, e uma vez que nada indica que a cobertura jornalística vá mudar substancialmente no que respeita ao esclarecimento das pessoas sobre esta alternativa, o BE tem necessariamente que apostar noutras formas de difusão da sua mensagem. O esquerda.nete o facebook não chegam: é preciso reforçar o trabalho ao nível local. A melhor forma de demonstrar a importância do BE e da alternativa que propõe é agir ao nível local para mobilizar e ajudar as populações a organizarem-se: por exemplo, realizando abaixo-assinados para resolver problemas locais concretos; por exemplo, ajudando a criar cooperativas locais que criem emprego ou dinamizem a economia local - como a criação de creches, ou de centros de idosos, ou de centros de distribuição local de produtos agrícolas, ou a recuperação de imóveis que possam ser arrendados a preços baixos, etc. É imperioso mostrar no terreno o que é o BE e os princípios que o movem.

2. O BE precisa de novos objectivos "simples" que sirvam de "porta-bandeira" do partido: uma questão importante é o direito de voto para todos aqueles que pagam impostos em Portugal e que não o têm - os imigrantes; outra questão importante é a alteração da forma como é feito o sufrágio eleitoral nas legislativas (o voto directo permitiria aumentar a representatividade dos pequenos partidos na assembleia mesmo que se reduzisse o número de deputados - mais representatividade, mais democracia). É possível criar consensos a nível da Assembleia para este tipo de propostas, ou pelo menos tentá-lo, porque a direita - e o PS - estão muito interessados em parecer "sociais" e "democráticos" neste momento

3. É muito importante, é essencial mesmo, reforçar a ideia de união na esquerda, incluindo com elementos do PS e com independentes: o BE deve procurar estes consensos para a luta que aí vem - o eleitorado precisa de sentir que eles existem e que são possíveis. o BE pode mostrar que esse consenso existe de várias formas, incluindo na apresentação de projectos lei conjuntos na AR - o BE pode exigir, em conjunto com a CDU, que se referendem as eventuais alterações à constituição que o governo vai propôr e que se referendem as privatizações, por exemplo. penso que a ausência de um claro consenso da esquerda, que falhou totalmente nas presidenciais e recebeu apenas um pequeno golpe estético nas legislativas - quando poderia ter sido muito mais explorado -, agravou seriamente o efeito da medíocre cobertura jornalística no resultado eleitoral.

4. Independentemente daquilo que se decidir dentro do BE, não me parece a altura certa para mudar de líder: numa altura de crise económica, precisamos precisamente de um partido com um líder que perceba daquilo que está em questão (ou seja, de um líder que perceba de economia). Dito isto, é desejável que as decisões políticas a tomar sejam objecto, sempre que possível, de um debate alargado dentro da vossa estrutura partidária.